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Não precisamos “aguar” o liberalismo

Em meu artigo intitulado “Um singelo argumento liberal em favor da democracia”, que integrou o livro Introdução ao Liberalismo, deste Instituto Liberal e organizado por nosso presidente, Lucas Berlanza, argumento que a “democracia é a renúncia à força como motor de mudanças políticas em benefício do diálogo e de um certo consenso da pluralidade”. Tratando especificamente dos liberais, digo que “essa pluralidade significa duas coisas: eles farão parte do jogo democrático e poderão compor a pluralidade; o mesmo aplica-se, verdadeiramente, aos demais grupos político-ideológicos, incluindo seus rivais”. É possível ainda expandir o argumento dizendo que o próprio liberalismo é plural, dividindo-se em diversas correntes que, contudo, gravitam em torno de alguns princípios comuns e fundamentais. Acredito que estas considerações são aceitas por basicamente todos os liberais; ocorre que alguns parecem confundir o reconhecimento da pluralidade do jogo democrático como um imperativo para que se renuncie a camadas de liberalismo em uma tentativa de “aguar” o liberalismo.

O liberalismo, como acabei de ressaltar, é plural, mas essa pluralidade guarda limites, de modo que o liberalismo guarda naturais distâncias de certas correntes político-ideológicas. Entretanto, há quem chame essa distância de “fanatismo” e panflete em torno da necessidade do “diálogo”. Diálogo, palavrinha tão mágica e ao mesmo tempo tão mal utilizada. No trecho do meu artigo supracitado, eu faço um elogio ao diálogo e a um certo “consenso da pluralidade”. O que entendo por consenso da pluralidade? Que, independentemente de suas inclinações ideológicas, aqueles que jogam o jogo democrático devem aceitar as regras do jogo, isto é, aceitar o processo democrático. Também significa reconhecer que, no debate público, diferentes correntes se enfrentarão, mas que esse enfrentamento deve ocorrer por meio do diálogo, ao invés da força, que, se fosse a opção, destruiria a ordem democrática. O diálogo, portanto, é uma ferramenta de confronto, mas de confronto pacífico e civilizado, tal como deve ocorrer — embora nem sempre seja assim — em uma casa legislativa. Ocorre que alguns liberais interpretam o diálogo como a necessidade de adesão e absorção de ideias flagrantemente opostas ao liberalismo. Dizem eles que, para benefício das ideias liberais, devemos temperá-las, ou melhor, “aguá-las”, com outras, geralmente mais à esquerda, que as tornem supostamente mais palatáveis.

Vamos imaginar as consequências dessa estratégia lançando mão de uma hipótese. Imaginemos um Congresso formado por duas maiorias iguais em número, sendo uma social-democrata e a outra liberal. Como cada uma dessas duas forças antagônicas exerce poder nesse Congresso, mas não poder suficiente para subjugar a outra, os projetos ali aprovados terão necessariamente um consenso entre essas duas forças, ora uma tendo que contemporizar, ora outra. O resultado é que as decisões ali aprovadas não serão de caráter amplamente liberal, mas tampouco amplamente social-democrata, sendo, mais provavelmente, um meio-termo entre as duas forças dominantes. Agora imaginemos que a maioria liberal adote a estratégia de “aguar” suas pautas, temperando-as e confundindo-as com propostas do lado oposto. Se antes havia um equilíbrio de forças de 50% a 50%, agora o equilíbrio será de, digamos, 25% de liberalismo contra 75% de social-democracia, isto é, 50% da força social-democrata original, agora fortificada pela absorção de suas pautas por parte dos liberais. O resultado será a aprovação de projetos com caráter predominantemente social-democrata. O liberalismo, portanto, sairia enfraquecido com essa estratégia.

É claro que, no mundo real, o equilíbrio de forças é muito diferente, mas essa diferença costuma ser em desfavor dos liberais, o que torna a estratégia politicamente ainda mais suicida. Não sendo, portanto, “aguar” o liberalismo uma tática eficaz para aumentar suas fileiras, por que tantos ainda insistem nela? Parece haver por trás disso uma espécie de crise de identidade ideológica, ou mesmo sinalização de virtude, como que para se desculpar pelo pecado de aderir a ideias que tanto apanham da dita “intelectualidade”. Desnecessário dizer que os que reagem dessa forma pueril à pressão de diferentes grupos sociais têm provavelmente um repertório de ideias e princípios muito frágil.

Essa aparente vergonha por ser liberal tornou-se ainda pior nos últimos anos como consequência da ascensão do bolsonarismo. É fato que muitos liberais apoiaram a candidatura de Bolsonaro em 2018, por razões já exaustivamente analisadas. Também é fato que alguns se perderam no personalismo e hoje, já desnudos de qualquer vestígio de liberalismo, até mesmo econômico, se contorcem de forma vexatória para ganhar “likes” da claque bolsonarista. Mas o que isso diz de quem segue fiel aos princípios liberais? De quem quer distância de fã-clube de político? De quem tem ojeriza por populismos baratos, de esquerda ou de direita? Absolutamente nada. Eu tenho batido no bolsonarismo muito antes do show de horrores que é este governo chegar a tal ponto que fez muitos pularem do barco, ainda que tardiamente; nem por isso guardo constrangimento por professar o liberalismo, muito pelo contrário. Sendo o bolsonarismo e coisa que o valha incompatível com o espírito democrático e liberal, seria muito mais proveitoso que os liberais fizessem justamente reforçar sua posição, ao invés de enfraquecê-la tentando fazer transigir com o que é intransigível.

Não que a preocupação com a imagem do nosso campo de ideias seja vã. Há muito que certamente pode ser melhorado na nossa comunicação com a sociedade, já que queremos influenciar e não ficar circunscritos a uma patotinha. Se acusam os liberais de serem elitistas, que respondamos com o caráter social do liberalismo. Se nos confundem com anarquistas, que ressaltemos a importância do Estado necessário — ainda que nunca cheguemos a um consenso sobre o quanto é esse necessário —, em especial na garantia da segurança e da ordem democrática. Se nos chamam de reacionários, que lembremos o caráter progressista histórico do liberalismo — que nada tem a ver com os devaneios progressistas/identitários contemporâneos — e as virtudes da democracia liberal, as quais fomos os primeiros a defender. O que não precisamos fazer é fingirmos ser outra coisa; afinal, como esperar que camadas relevantes da população se convertam ao liberalismo, se os próprios liberais não tiverem coragem de se intitular como tal, salvo travestindo o liberalismo de coisa completamente diversa?

Gabriel Wilhelms

Gabriel Wilhelms

É licenciado em Música e graduando em Ciências Econômicas, atua como colunista e articulista político.