“Misantropia”: um risco para o país de togas?
O falso comunicado da defesa civil sobre um alerta de “misantropia”, disparado poucas horas após uma vitória da seleção brasileira na Copa, despertou a atenção de alegres torcedores para uma palavra pouco coloquial e revelou a profunda vulnerabilidade dos nossos sistemas emergenciais. Além de nova evidência da nossa frágil cultura de prevenção de sinistros, a mensagem soou como ironia por parte de um hacker que pareceu ter colocado em confronto o ufanismo inerente aos eventos esportivos e um súbito perigo de ódio à humanidade. Foi como se o meliante tivesse nos alertado para uma eventual maré de pessimismo daqueles que vivem para criticar e derramar sua bile sobre tudo e todos, comprometendo até mesmo a euforia coletiva pelos desempenhos individuais em campo. Contudo, a “misantropia” pode ser proveitosa para uma população tradicionalmente alegre e crédula.
Na comédia intitulada O Misantropo, o escritor Molière narra as desventuras de Alceste, personagem-título, na França absolutista do Rei-Sol. Adepto da integridade e da sinceridade incondicionais, Alceste é retratado como um tipo entre o exaltado e o neurastênico, soberbo no alardeamento das próprias virtudes, intolerante com os vícios alheios e inflexível na coerência de suas posturas. Pela pluma de Molière, Alceste oscila entre o exagero de rotular como “escandaloso” o cumprimento efusivo a estranhos e a retidão de enfrentar o risco de uma condenação judicial injusta pela simples recusa a fazer acertamentos auriculares com seus julgadores. Diz nutrir aversão a todos os homens, tanto aos malvados quanto aos complacentes com estes, e justifica seu humor bilioso pela constatação de que toda a dinâmica social ao seu redor não passa de bajulação, injustiça, interesse e traição. No ápice do quixotismo em duelar contra os “moinhos-de-vento” dos salões parisienses de seu tempo, Alceste ainda ousa dizer a um postulante a poeta que seu soneto é ruim, angariando contra si um novo processo, dessa vez por suposta ofensa à honra do autor dos versos.
Sem adotar qualquer rebeldia vã ou incorrer em práticas antissociais e nocivas a outrem, Alceste demonstra conhecer com perfeição os códigos não-escritos do convívio de seu entorno, escancarando-os com a crueza de quem repudia atalhos e prestigia a clareza nas comunicações, inclusive com agentes públicos. Descontada a hipérbole própria à comédia, o protagonista, a despeito do narcisismo de quem se enxerga como um poço de virtudes, pode e deve ser admirado na retidão, na precisão no diagnóstico dos vícios e, sobretudo, na coragem em arcar com todos os prejuízos decorrentes de sua condição de oponente declarado da corrupção ornada sob o manto do preciosismo. Em linguagem bem atual, Alceste é a figura antissistema por excelência.
O hackeamento do sistema da defesa civil me conduziu de volta a Molière e me fez divagar sobre as eventuais peripécias de um Alceste ressurgido na corte do Luís XIV tupiniquim. Imaginei o protagonista sendo levado às barras de algum tribunal por um indivíduo de torpeza notória, mas que, ainda assim, fosse acolhido por todos com honrarias imerecidas. Seguro das suas alegações amparadas pela razão, pelo bom direito e pela equidade, Alceste certamente aguardaria o curso regular de seu processo e rechaçaria o conselho de seu único amigo de “visitar” um togado para tratar do assunto nas sombras. Ora, indagaria Alceste, “minha causa é injusta ou duvidosa?”, ao que o amigo chamaria sua atenção para o fato de que “a parte adversa é forte e pode, mediante sua cabala, levar a melhor”. Ainda assim, o misantropo reencarnado pagaria para ver se, “no litígio, os homens teriam o descaramento suficiente e seriam malvados, celerados e perversos a ponto de lhe fazerem injustiça aos olhos do universo.”
Em outro episódio, Alceste reencarnado, diante de algum internauta presunçoso que lhe solicitasse uma opinião sobre um texto, não hesitaria em postar nas redes sua crítica incisivamente negativa, defendendo com unhas e dentes sua liberdade de expressão e seu direito à divergência. Sentindo-se agravado em sua vaidade e em seu prestígio social e digital, o autor medíocre, se investido em posição de mando, se apressaria em notificar a plataforma de mídia em questão para dela exigir a imediata retirada do comentário de Alceste, rotulando-o como antidemocrático e potencialmente atentatório ao estado de direito.
Sob o império das togas, uma certa dose da misantropia retratada por Molière poderia encorajar os indivíduos a uma rejeição à promiscuidade reinante, desde o microcosmo das pequenas vilanias toleradas em âmbito privado até o macrocosmo dos elos indecorosos entre julgadores, seus jurisdicionados, legisladores e políticos em geral. No país onde a hipocrisia deixou de ser uma homenagem que o vício rende à virtude para tornar-se porteira escancarada à permissividade imunda, o ceticismo seria ferramenta indispensável ao exercício da cidadania ativa e à colocação de freio aos arbítrios do estamento no comando.
Todavia, se lideranças e formadores de opinião não tiverem valentia suficiente para criticarem as velhas práticas arraigadas na republiqueta do compadrio, aqueles que tiverem resguardado sua lucidez poderão se ver premidos a “saírem de um abismo onde triunfam os vícios para buscarem, na terra, um lugar distante onde se tenha a liberdade de ser honrado.”



