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Miguel de Cervantes e os conselhos políticos de Dom Quixote

O escritor Miguel de Cervantes (1547 – 1616) é, sem dúvidas, um dos mais relevantes romancistas de todos os tempos. Sua magnum opus, Dom Quixote de La Mancha, publicada em 1605, o colocou na primeira fila ao lado dos grandes da literatura mundial. No enredo da obra, o personagem D. Quixote dá conselhos a seu companheiro, Sancho Pança, que passa a governar uma ilha,  a “Ilha de Consusión”. Sua nomeação ao governo tem por motivo a zombaria. No entanto, Sancho encara o desafio com realismo hábil e conquista a admiração de seus zombadores. Apesar de tratar-se de uma peça de ficção, há bons insights nos conselhos do Fidalgo ao mais novo governador da ilha.

Como estamos falando de um clássico, não me cabe aqui resenhar a história. Por conta disso, separei alguns conselhos pertinentes do Fidalgo, que, preocupado com a falta de preparo de Sancho para governar, o toma pela mão e vai com ele a seu quarto, onde o obriga a sentar-se e ouvir.

– “Primeiramente, filho, hás de temer a Deus, porque no temor de Deus está a sabedoria, e sendo sábio, em nada poderás errar”. Aqui vemos a importância da sabedoria ao governar. O Fidalgo recorre à sua fé, mas uso como case o “saber”. Em vários textos, venho insistido na importância de os governantes terem bons conselheiros e cercarem-se de homens sábios. Sobre Deus – e aqui vos escreve um cristão -, ele pode sim ser consultado, mas jamais ser usado como plataforma religiosa de populismo às massas de fiéis incautos.

– “Nunca interpretes arbitrariamente a lei, como costumam fazer os ignorantes que têm presunção de agudos”. Ainda bem que no Brasil atual não há casos de arbitrariedades em nossa Corte Suprema. Estamos tranquilos. Preciso escrever “aviso de ironia”?

– “Faze gala da humildade da tua linhagem, Sancho, e não tenhas desprezo em dizer que és filho de lavradores […]”. No Brasil, ocorre o contrário. Muitos usam a “vida passada humilde e sofrida” para passar uma impressão de simplicidade e honestidade. O lulopetismo nos deu prova disso

– “Quando te suceder julgar algum pleito de inimigo teu, esquece-te da injúria e lembra-te da verdade do caso”. No Brasil político atual, há duelos que se parecem com uma cena do filme Mad Max: Além da Cúpula do Trovão, estrelado pelo ator Mel Gibson, que interpreta Mad Max. “Dois homens entram, um homem sai”, urrava a plateia ansiosa por um cadáver esticado na gaiola de lutas de um lugar distópico, com escassez, onde a energia mecânica era oriunda de fezes de suínos. Em nossos poderes e governos em geral, birras pessoais e até políticas estão em muitos casos acima do senso da verdade dos casos. O combustível de alguns duelos de tais políticos – tirem as crianças da sala! – lembra o combustível da Cúpula do Trovão, comandada pela rainha e musa Tina Turner. Alguns políticos, em particular, lembram a espécie.

– Já que falamos em suíno, segue: “Eructar, Sancho, e não arrotar”, disse Quixote. Aqui o Fidalgo aconselha Sancho a não eructar em público e ele não entendeu o termo. Quixote explica e Sancho entende o conselho e responde que não iria “arrotar”. Por isso, no tópico frasal, o Fidalgo reforça para que Sancho moderasse também as palavras. Há ótimos oradores no Congresso, mas muitos deixam a desejar na postura. Quando descemos na escala até secretarias de governos e, pior ainda, prefeituras, deparamo-nos com a barbárie.

– “Seja moderado no dormir, quem não madruga com o sol não goza o dia; e repara, Sancho, que a diligência é mãe da boa ventura, e a preguiça, sua contrária, nunca chegou ao termo que pode um bom desejo”.

Sancho Pança, constrangido ao ouvir os conselhos – que aqui apenas resumo -, responde ao Fidalgo desta forma: “[…] se Vossa Mercê entende que não sou capaz para este governo, já o largo, que eu quero mais a uma unha da minha alma do que a todo o meu corpo; e tão bem me sustentarei Sancho a seco com pão e cebolas, como governador com perdizes e capões; e, além disso, enquanto  se dorme todos são iguais: os grandes e os pequenos, os pobres e os ricos; e repare, senhor meu amo, que quem me meteu nisto de governador foi Vossa Mercê, que eu lá de governos de ilhas nunca entendi nada; e se acaso se persuade de que por ser governador me há de levar o Diabo, antes quero ir Sancho para o Céu do que governador para o Inferno”.

Sancho, no desfecho com seu interlocutor, nos deixa uma lição de moral e de senso de responsabilidade com a coisa pública, além de demonstrar não subjugar seus princípios por coisa alguma, sobretudo por um cargo de governo.

Findo por aqui. Lembro que Sancho foi nomeado ao governo da ilha por zombaria, mas, na história de ficção de Cervantes, governou com excelência. Muitos políticos do Brasil atual são nomeados ou eleitos por voto sério, mas governam com zombaria. Quem dera isso fosse apenas ficção.
Artigo

Ianker Zimmer

Ianker Zimmer

Ianker Zimmer é jornalista diplomado pela Universidade Feevale (RS). De 2015 a meados de 2019, trabalhou no Jornal NH e na Rádio ABC. Editorial Sinos. Entre 2020 e 2021, foi assessor de imprensa do deputado federal Marcel van Hattem, na Câmara dos Deputados (Brasília). Além de colunista e autor no Instituto Liberal (RJ), é colunista dos sites Opinião & Crítica e Tribuna Diária. Atualmente exerce o cargo de Diretor de Gestão Integrada na Secretaria de Segurança Pública de Novo Hamburgo. Autor de A filosofia do fracasso: ensaios antirrevolucionários (Viseu, 2020), República Democrática do Pensamento Único (Almedina, 2021) e coautor de Introdução ao Liberalismo (Almedina, 2021).