Mercosul num contexto de intensificação do regionalismo

O país fecha o ano com perspectivas animadoras para 2020. 

Passivo e rastro de destruição vermelha continuam a aterrorizar. Contudo, agora o Brasil começa a apresentar sinais de recuperação, mesmo que ainda muito tímidos.

A atividade econômica deve crescer para além de 2,3% no próximo ano, com inflação baixa e taxa de juros devendo permanecer baixa. 

Indício positivo traduz-se na sinalização de redução do risco-país por parte de importantes instituições internacionais. O presente crescimento tem sido sustentado pelo consumo graças à expansão do crédito, mas devedores precisarão honrá-los, e o nível de emprego tem crescido apenas modestamente. 

O motor do desenvolvimento nacional, sem dúvida, é o setor privado; investimentos seguramente aumentarão, especialmente naqueles setores vinculados à infraestrutura. Decerto que o crescimento dependerá dos congressistas e, ainda que o comportamento tenha sido positivo na reforma da previdência – já estava alinhavada -, a reforma tributária e, certamente, a do Estado serão bem mais espinhosas. 

O cenário externo continua nebuloso e incerto, embalado por clima imprevisível quanto à guerra comercial entre China e EUA.

A proteção dos mercados nacionais através de barreiras tarifárias – e não-tarifárias – acentua ainda mais a tendência de “desglobalização”, provocando um imediato repensar nas estratégias empresariais, em especial dos grandes grupos transnacionais. 

Não é possível deixar a agenda externa em “banho-maria”. Desenvolvimento sustentável depende umbilicalmente da abertura econômica. Até agora ocorreu incremento das compras externas. Exportações competitivas, evidentemente, resultam da aprovação de reformas estruturantes. 

Parece-me que a intensificação do comércio por meio das cadeias regionais de valor (atividades produtivas e comerciais entre países vizinhos) veio para fincar raízes. É justamente aqui que reside a grande incógnita referente ao Mercosul. 

O presidente que havia pecado, verbalizando forte em relação ao governo rubro argentino, às pressas enviou o vice Mourão para participar da posse de Fernández, na Argentina. Ele desabafou, felizmente, sobre a relevância estratégica do bloco, essencial para ambos. 

O futuro é incerto! Lá Macri, o procrastinador, foi liberal só no papel. Fernández tende a políticas populistas e protecionistas e, pior, “renegociar” a dívida externa argentina, trazendo maior retração de crédito e aprofundamento da aguda crise hermana. 

Caso isso se concretize, não haverá contexto mais inapropriado para Argentina e Brasil, num ambiente de franca escalada de regionalização global. 

Oremos pelos irmãos e, claro, pelos impactos por aqui. Aparenta-me decisivo que o Brasil em sua grande maioria não quer mais saber da retórica empoeirada da “luta de classes”, ideológica e partidária. Quer mesmo desenvolvimento econômico e social de fato, ou seja, alimento, emprego, habitação, saúde, entre outras coisas essenciais!

Nesse sentido, a pior batalha dá-se entre o Estado e o povo. Esperemos que para o bem de todos o bom senso político, pelo viés comercial, chegue a bom termo para ambos, Brasil e Argentina. 

Mercosul, em tempos de regionalismo, é fundamental. Por aqui, o próximo ano brasileiro vai requerer efetivas reformas competitivas, a fim de que empresas possam competir e inovar em mercados além-fronteiras, definitivamente!

Alex Pipkin

Alex Pipkin

Doutor em Administração - Marketing pelo PPGA/UFRGS. Mestre em Administração - Marketing pelo PPGA/UFRGS Pós-graduado em Comércio Internacional pela FGV/RJ; em Marketing pela ESPM/SP; e em Gestão Empresarial pela PUC/RS. Bacharel em Comércio Exterior e Adm. de Empresas pela Unisinos/RS. Professor em nível de Graduação e Pós-Graduação em diversas universidades. Foi Gerente de Supply Chain da Dana para América do Sul. Foi Diretor de Supply Chain do Grupo Vipal. Conselheiro do Concex, Conselho de Comércio Exterior da FIERGS. Foi Vice-Presidente da FEDERASUL/RS. É sócio da AP Consultores Associados e atua como consultor de empresas. Autor de livros e artigos na área de gestão e negócios.