Mais uma jabuticaba brasileira: o sociólogo de entrevista

ALEXANDRE BORGES *

Quando perguntada sobre o que dá motivação para escrever tantos livros, dar tantas palestras e produzir tantos artigos, Ann Coulter respondeu ironicamente: “Ler o New York Times de manhã”. Eu entendo perfeitamente a sensação.

Minha cota de irritação matinal normalmente vem do Bom Dia Brasil da Rede Globo e hoje não foi diferente. O repórter Edson Viana tentou fazer uma matéria sobre um assunto muito importante para milhões de brasileiros e para a economia do país, o público recorde das novas arenas esportivas. Apesar dos preços “elevados” dos ingressos e contra as previsões de muitos jornalistas esportivos, os estádios são um sucesso. E o único entrevistado foi um sociólogo. Um sociólogo!

Esse não é um caso isolado. De futebol a violência urbana, passando por trânsito, médicos cubanos, manifestações de rua, maioridade penal ou até política externa e guerras, praticamente não há um único assunto em que os jornalistas brasileiros não priorizem um professor de ciências políticas ou sociologia como principal fonte de informação e opinião, o que chamo carinhosamente de “sociólogo de entrevista”. Se você já assistiu a Globo News sabe do que estou falando.

Consultei o Guia do Estudante para saber quais são os mais respeitados cursos de sociologia do país e busquei no site dessas universidades a descrição da grade curricular. Encontrei “Sociologia da Religião”, “Sociedades Indígenas”, “Antropologia Urbana”, “Filosofia Marxista”, “Genética Básica”, “Dialética”, “Folclore Brasileiro” mas, salvo engano, nada que habilite um sociólogo a dar qualquer coisa diferente de um palpite pessoal, de mesa de bar, sobre um assunto tão especifico da indústria do entretenimento e marketing esportivo quanto preços de ingressos.

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O marketing esportivo e a indústria do entretenimento no Brasil, que a Rede Globo é parte importante, são muito desenvolvidos e bem sucedidos, movimentam bilhões e contam com a liderança de profissionais e empresas de primeiro mundo. É evidente que há muito mais gente habilitada para falar do assunto trabalhando no próprio prédio da Rede Globo do que em todas as faculdades de sociologia do país somadas. E isso diz muito sobre o momento do jornalismo no país.

O repórter não estava interessado em saber quanto custa construir ou reformar um estádio, qual o valor mensal de manutenção ou qual o tamanho da folha de pagamento de uma arena para que ela funcione dando conforto e segurança a dezenas de milhares de pessoas a cada evento. Ele sequer mencionou a meia-entrada, citando apenas o preço integral do ingresso, que quase ninguém paga. Ele se mostrou interessado apenas na opinião do sociólogo que acha que tem que haver ingressos com preços “populares”, justificando o público recorde atual do campeonato brasileiro como uma moda passageira. Edson Viana fecha a matéria dizendo que o público “merece carinho”.

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Não quero aqui fulanizar a discussão e questionar as credenciais específicas do sociólogo entrevistado nesta matéria. Maurício Murad é autor de livros sobre o futebol e interessado no assunto, mas daí para ser uma autoridade em preços de ingressos há uma distância a ser medida em anos-luz.

O sociólogo foi entrevistado porque a mentalidade do jornalista é achar que preço de ingresso é definido por mais ou menos “carinho” com o público e não pelo mercado. Ou que colocar um preço artificialmente baixo não trará outras consequências indesejáveis como a piora nos serviços do estádio, filas e o mercado negro de cambistas, que acabam devolvendo o preço ao seu patamar original e tirando a receita de quem promove o espetáculo e dos impostos.

Já passou da hora dos liberais e conservadores do país cuidarem das universidades, especialmente nas áreas de humanas, que viraram madraçais de um marxismo de quinta categoria, obtuso e cheirando a naftalina, que nem na China tem mais espaço. Um dia o empresário que não encontra espaço na agenda para ajudar as faculdades de jornalismo a sair do século XIX vai dar uma entrevista sobre um negócio que ele lidera e que envolve bilhões e tudo será analisado por um sociólogo e por um repórter que pode achar que você não tem carinho suficiente.

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Jornalismo que analisa negócios sem consultar os profissionais e empresas diretamente envolvidos é mau jornalismo. E o mau jornalismo pode, um dia, ser um obstáculo importante para sua empresa, seu emprego ou para o PIB do seu país. A gente se vê por aqui.

* DIRETOR DO INSTITUTO LIBERAL

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