Liberdade vs. Libertinagem de expressão

Com o advento das redes sociais, blogs e demais instrumentos virtuais, as pessoas encontraram espaço para falar sobre qualquer coisa da forma que acham apropriada. Mas, esse recurso está gerando uma verdadeira profusão de absurdos, xingamentos e todo o tipo de baboseira que as mentes mais afoitas são capazes de produzir. Moldou-se, com isso, um […]

mitocaveCom o advento das redes sociais, blogs e demais instrumentos virtuais, as pessoas encontraram espaço para falar sobre qualquer coisa da forma que acham apropriada. Mas, esse recurso está gerando uma verdadeira profusão de absurdos, xingamentos e todo o tipo de baboseira que as mentes mais afoitas são capazes de produzir. Moldou-se, com isso, um discurso oco, desprovido de estudo, compreensão e reflexão. Pior. No Brasil isso contaminou todo o “debate”. Grafei a palavra entre aspas pois o que se vê não é um debate, mas, como diria Carlos Lacerda,  “furores, gritos, guinchos selvagens, cóleras irreprimidas”.

Fala-se o que quer, xinga-se sem o menor pudor e grita-se com a grandiloquência de palhaços em um circo. Agora, por trás disso tudo não se vê fundamento, concatenação de ideias, ponderação, nem, muito menos, uma consciência lógica. Os recentes debates de nossa – assim chamada, direita – demonstram esse fenômeno de forma absolutamente clara e evidente.

O brasileiro perdeu a capacidade de análise e de observação. Mas, em contrapartida, desenvolveu uma habilidade monstruosa de revelar todo o ridículo e desprezível que guarda dentro de si. A coisa chega a tal grau de absurdo que muita gente – anteriormente considerada séria – passou a agir da mesmíssima forma. Repetem assim, o patético, o burlesco, o caricato e tudo o que cairia melhor em uma ópera-bufa.

Está na hora de dar um passo atrás. Lembro-me, com gosto e melancolia, dos brilhantes artigos de Roberto Campos, das colunas de Nelson Rodrigues e de Paulo Francis, dos escritos de Carlos Lacerda e de Millôr Fernandes, apenas para citar alguns. Depois de um mergulho nos textos impecáveis desses gigantes do passado, submergimos para um presente desalentador.

Ao que parece, o brasileiro está se lambuzando na liberdade de expressão – potencializada pela internet – mas age como um redator libertino, cuspindo tudo que sai de uma cabeça vazia e sem espírito crítico. O melhor exemplo disso são os “seguidores”. Gente que, desprovida da capacidade de pensar por si, replica tudo que o novo “gênio” de plantão fala. Para estes vale a advertência de George Bernard Shaw em seu artigo “Como Tornar-se um Gênio”: “No fundo, o grande segredo é o seguinte: os gênios não existem. Eu sou um gênio e portanto sei. O que há é uma conspiração para fazer de conta que os gênios existem e uma escolha das pessoas certas para assumir o papel imaginário de gênio. O difícil é ser escolhido.”

Essa era da “libertinagem de expressão” está produzindo uma infinidade de macacos de imitação. Sinceramente, eu esperava que a era da informação trouxesse as pessoas para debates mais profundos e ricos. Todavia, acabou gerando um festival de asneiras e maledicências, absolutamente inúteis e perniciosas. Antes de sair escrevendo ou replicando ideias alheias, seria bom que a turma parasse para pensar, conversar e debater de forma consistente. Para terminar, digo, sem rodeios, não se esqueçam dos antigos. Leiam o que os grandes pensadores do passado falaram, reflitam, pensem e tirem suas próprias conclusões. Repetir ideias de “gurus” é mais um caminho para a ignorância.

  • biancavani

    Pois é. Lendo os artigos do Instituto Liberal, Instituto Ludwig von Mises (e livros dos autores clássicos do liberalismo que ambos disponibilizam), blogs do Rodrigo, Reinaldo, Felipe, Olavo, Monir, Augusto, podcasts do Bruno Garschagen, e livros (muitos dos quais sugeridos pelos próprios acima citados) de autores como Thomas Sowell, Scruton, Darylmple, constatei aí consistência, conformidade com os fatos, domínio sobre os assuntos abordados, refinamento cultural, honestidade intelectual, argumentação válida. E achei que, de um modo geral, aqueles que não compartilham da visão coletivista haviam igualmente se preparado mais para enfrentar esta luta pela sobrevivência de tudo aquilo que, através da história, nos possibilitou chegar a um sistema de vida que abriga a liberdade do indivíduo. Que haviam, portanto, lido, refletido, preparado respostas à altura da tarefa.

    Só que não. Conforme tão bem expôs Leonardo Correa, temos lido comentários que parecem de torcedores de futebol (diga-se de passagem, deixei de ler comentários, porque dali não se extrai nenhum proveito). Esse fenômeno dos xingamentos, falta de lógica, que não contém argumentos, mas slogans, gracinhas (segundo os autores) etc. reflete a falta de conhecimento a respeito daquilo a que se propõe comentar. Aliás, é isso, aliado ao fanatismo cego, o que move a esquerdalha.

    Passado um primeiro momento de desânimo, penso que isso, afinal, acaba por nos iluminar o caminho a seguir. Para nós, que rejeitamos a vida em colmeias, há muito ainda que fazer. Paciência, tranquilidade, ânimo e, sobretudo, empenho em nos ater (neste momento) naquilo que nos agrega, e não que nos desune. Repetindo o que disse em outro lugar, podem me chamar de Dorothy-fofinha (“there’s a place over the rainbow…”), mas acredito que possamos conseguir essa convergência.

  • Fernando Ventura Jr.

    Realmente, você tocou em algo que está acontecendo. Eu mesmo, já me peguei usando argumentos dos “pensadores de Direita” da Veja, do Instituto Liberal, do Olavo, do Bolsonaro, assumindo que estão sempre certos. Nos comportamos como torcedores de arquibancada e percebo que “vomitamos” nossos argumentos, que muitas vezes são apropriações do que outros falaram, e nos recusamos a ouvir o lado oposto e se ouvimos não nos colocamos no seu lugar para entender os seus pontos de vista. Parabéns pelo artigo.