Liberdade, ódio e preconceito

por CARLOS MARTINI*

Agora há pouco tive o desprazer de ver este post do Ministério da Justiça no Facebook:

eu,coxinha

O desprazer é por conta da barafunda semântica visível — e bastante óbvia para qualquer um que tenha concluído o ensino básico com o mínimo de aproveitamento — na frase:

“O discurso do ódio é uma manifestação preconceituosa contra minorias étnicas, sociais, religiosas e culturais”

Ora, o dicionário Michaelis nos diz:

preconceito
pre.con.cei.to
sm (pre+conceito)1 Conceito ou opinião formados antes de ter os conhecimentos adequados. 2 Opinião ou sentimento desfavorável, concebido antecipadamente ou independente de experiência ou razão. 3 Superstição que obriga a certos atos ou impede que eles se pratiquem. 4 Sociol Atitude emocionalmente condicionada, baseada em crença, opinião ou generalização, determinando simpatia ou antipatia para com indivíduos ou grupos.

ódio
ó.dio
sm (lat odiu)1 Rancor profundo e duradouro que se sente por alguém. 2 Aversão ou repugnância que se sente por alguém ou por alguma coisa. 3 Antipatia.

Acredito que todo mundo concorda que essa definição número 3 de “ódio” é figurada, como um tipo de hipérbole. Você pode não simpatizar com uma pessoa — e isso nos acontece o tempo todo — sem odiá-la de verdade. Por outro lado, é comum dizermos algo do tipo “ah, eu odeio esse cara”, “eu odeio o Faustão”, “eu odeio o Latino”, ou ainda “eu odeio samba”, “eu odeio pagode”, e assim por diante, mas na maior parte das vezes isso é um exagero proposital e você não ODEIA, de fato, essa pessoa, estilo musical, programa de TV ou seja lá o que mais.

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Bom então o discurso do ódio é mesmo uma manifestação preconceituosa contra minorias? Errado. Uma manifestação preconceituosa não é “ódio”, ela é… uma manifestação preconceituosa! Da mesma forma, ódio é ódio.

O verdadeiro “discurso de ódio” é, então, aquele discurso em cujo epicentro está o ódio de algo ou alguém, aquele discurso que prega uma raiva desmedida e exagerada, “um rancor profundo e duradouro”, às vezes até mesmo com o desejo — mascarado ou não — de eliminar o alvo desse ódio.

Uma manifestação preconceituosa é uma manifestação baseada no preconceito, no desconhecimento prévio (ou em um conhecimento inadequado) do alvo desse preconceito. Por exemplo, uma pessoa que não conhece nenhum gay intimamente pode, por não saber como são os gays e por causa de informações equivocadas recebidas de outras pessoas, alimentar um preconceito — um conceito negativo e prévio dos gays, SEM NECESSARIAMENTE ODIÁ-LOS, no sentido mais estrito do termo “odiar”.

O preconceito é uma constante em nossas vidas. Temos preconceito quanto a coisas, situações e pessoas. Eu nunca comi sushi, mas tenho preconceito contra peixe cru: eu avalio que deve ser ruim sem nunca ter provado. Isso é preconceito, não é ódio. Eu não “odeio” sushi. E qualquer criança de 10 anos é capaz de compreender isso.

Nem mesmo fazer uma charge do mais extremo mau gosto ridicularizando Jesus ou Maomé, ou talvez achincalhando os gays, ou ainda curtindo com a cara dos negros ou dos judeus, é “discurso de ódio”. Isso é mau gosto, é desrespeito, é falta de educação, talvez até de civilidade. Mas não “ódio”. Desrespeito é desrespeito. Ódio é ódio.

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Logicamente, o preconceito nunca justifica maus tratos às pessoas e nem julgamentos injustos, mas ele existe, faz parte de nós e interfere, para o mal ou para o bem, em nossas escolhas e relações. Isso deveria ser encarado de frente e de forma séria e correta — e não através dessa patuscada.

Por fim, veja que o uso do termo “ódio”, no caso, é proposital: ele visa gerar uma reação de ódio oposta na população. Divulga-se a ideia, absurda por si só, de que uma pessoa que tem preconceito contra determinado grupo ou coletivo é uma pessoa cheia de ódio. Imagine a imagem dos nazistas, que odiavam os judeus. Essa é a imagem que uma pessoa doutrinada segundo essa confusão de conceitos projeta em você, quando afirma que você está fazendo “discurso de ódio”. Isso mesmo, você passa a ser visto quase como “um nazista”, alguém que é cheio de ódio contra os outros e, portanto, acaba merecendo ódio em troca. E então o alvo de ódio — dos outros — passa a ser você.

Como resultado, a população passa aos poucos a nutrir um sentimento de desprezo ou ódio pelas pessoas ditas “preconceituosas” e por aquelas que não se curvam a conceitos pasteurizados e ao establishment. E olhe que nem sempre é realmente “preconceito”. Uma vez eu tentei dizer que não concordo com o bolsa-família segundo os moldes atuais. Como resposta, meu interlocutor disse que eu estava fazendo DISCURSO DE ÓDIO CONTRA OS POBRES. Pois é, a lavagem cerebral chega a tal ponto que questionar a forma de implementação de um projeto assistencial é, para alguns, odiar os pobres. Maldito analfabetismo funcional.

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Esse é o mesmo princípio, aliás, através do qual nossa esquerda — a mesma esquerda que gerou esse conceito absurdo e ridículo de “discurso de ódio” — vem tentando criar, na população, aversão, repulsa e até ódio pelo libertarianismo, peloconservadorismo, pela direita, por qualquer forma diferente de pensar enfim. Tudo através da manipulação das palavras, de mentiras e de desinformação.

George Orwell e Antonio Gramsci explicam.

E outro ponto sobre o qual não vou me alongar, mas que deixo aqui para reflexão: segundo esse post do Ministério da Justiça, o “discurso de ódio” só é discurso de ódio quando o alvo dele é uma minoria. Está escrito ali. Mas é perfeitamente possível uma minoria odiar (e fazer discurso de ódio contra) uma maioria, certo?

E aí, como fica? Deixa de ser ódio?

(artigo originalmente publicado em 17 de janeiro no Eu, Coxinha)

*Carlos Mendes Martini é gestor da Tecnologia da Informação pelo Centro Universitário Newton Paiva, estudante de Filosofia e gerente financeiro em uma empresa de varejo de madeiras e produtos relacionados.

 

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Comentários

  1. O texto está perfeito quanto aos esclarecimentos sobre preconceito e ódio. Inclusive fornecendo a fonte para possíveis consultas ( Dicionário Michaelis). Porem tem alguns outros detalhes que se não forem esclarecidos ao dito “povão”, cada vez vai ficando mais fácil para a esquerda ludibriar os desinformados que, lamentavelmente são a maioria, e não demonstram interesse em buscar a informação. Preferem se alimentar do prato pronto.

    Quando é dito que:” O discurso de ódio é uma manifestação preconceituosa contra minorias étnicas, sociais, religiosas e culturais, que gera conflitos com outros valores assegurados pela constituição”, é preciso que se esclareça mais detalhadamente, o que tudo isto significa, para que se torne um pouco mais difícil o ataque da esquerda, em cima da ignorância do povo. Por exemplo: É comum ser confundido Etnia com Raça. E estes conceitos não são sinônimos. O mais atingido entre ambos, seja por preconceito, ou por ódio, é a raça. O preconceituoso contra a raça não distila o seu ódio contra a etnia do indivíduo atingido, mas pela cor da sua pele.

    A Etnografia é a ciência que tem como objeto de estudo os costumes e tradições das etnias. Um grupo étnico é um grupo de indivíduos que têm uma certa uniformidade cultural, que partilham as mesmas tradições, conhecimentos, técnicas, habilidades, língua e comportamento.

    Um outro detalhe que precisa ser revisto, é o conceito do que venha a ser minorias. Hoje são incluídos como minorias os seguintes grupos: “negros, indígenas, imigrantes, mulheres, homossexuais, religião, trabalhadores do sexo, idosos, moradores de vilas (ou favelas), portadores de deficiências, obesos, pessoas com certas doenças, moradores de rua e ex-presidiários.” Destes grupos, pelo menos negros, mulheres,religião, e moradores de vilas e favelas, devem ser deixados de serem denominados “minorias”

    No censo de 2010, as mulheres já eram maioria, com 51% de verdadeiras princesas espalhadas por este Brasil afora. Somados os negros e pardos que, de acordo com a situação, preferem ser denominados como negros, esta população já superou a população branca, conforme o mesmo censo de 2010. Quanto aos moradores de vilas e favelas, eu levantei junto ao IBGE quantas seriam a vilas no Brasil, e como não tenho muita habilidade com estatísticas, não consegui encontrar o número procurado.

    Encontrei esta informação: “Tabela 1.3 – Número de vilas nos Censos Demográficos,segundo as Grandes Regiões e as Unidades da Federação – 1960/2010 número” Brasil, 01.08.2010= 4510 vilas. Eu acredito ser muito poucas vilas para todo o Brasil. Porem basta pensarmos nas cidades em que moramos, e veremos que em todas as cidades existem alguns poucos bairros denominados de Bairros Nobres, enquanto que os demais bairros e vilas são a maioria. Sem falarmos das favelas que vem aumentando à cada dia. E se somarmos o número de moradores destas periferias, chegaremos a um número assustadoramente maior de moradores, do que os encontrados nos centros das cidades, e nos bairros nobres.

    Portanto os moradores de vilas e favelas jamais poderão ser considerados como minorias. E quando se inclui “minorias” religiosas, é necessário esclarecer a que religião esta sendo dirigida a ofensa, Porque como todos sabemos, apesar de os católicos terem perdidos fieis na proporção de 64% para 57%- ainda são uma esmagadora maioria. Qualquer dúvida me ligue.