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La Boétie e os venezuelanos


“Aquele que os domina tem apenas dois olhos, duas mãos, um corpo; Ele não tem realmente nada mais do que o poder que vocês conferiram a ele para destruí-los. Onde ele adquiriu bastantes olhos para espioná-los, se vocês não os forneceram vocês mesmos? Como ele pode ter tantos braços para vencê-los, senão tomando emprestados de vocês? Os pés que pisam sobre suas cidades, de onde ele os tira senão de vocês próprios?”

“Não peço que vocês coloquem as mãos sobre o tirano para derrubá-lo, mas simplesmente que não o apoiem. Então, como um grande Colosso cujo pedestal foi retirado, ele cairá com seu próprio peso e se quebrará em pedaços.” (Etiénne de La Boétie – Discurso Sobre a Servidão Voluntária)

Em seu pequeno “Discurso Sobre a Servidão Voluntária”, Etiénne de La Boétie examina, entre outras coisas, a psicologia das massas obedientes, que se submetem, passivamente, às mais cruéis tiranias. A pergunta a ser respondida, segundo ele, seria: “se o tirano é apenas um homem, e aqueles que se sujeitam a ele são tantos, por que esses últimos consentem com a própria escravidão?”

Para La Boétie, se há muito mais escravos do que repressores, não é pela força que algumas tiranias se mantêm vigorosas durante tanto tempo.  Isso só seria possível porque, através de técnicas de “condicionamento”, as pessoas passam a aceitar a autoridade do tirano cada vez mais passivamente.

Por outro lado, gerações inteiras, que já nasceram escravas, quase sempre aceitam sua condição como natural. Por conta disso, La Boétie vê a tradição e o hábito como explicações importantes para a submissão passiva de muitos em relação a uns poucos.  As pessoas simplesmente acreditam que a vida sempre foi e será assim.

Mas, como é possível fazer com que a maioria se habitue docemente à obediência automática? Haveria dois meios básicos de fazê-lo: controlando a imprensa e monopolizando a educação, porque “livros e ensino, mais do que qualquer outra coisa, dão aos homens o sentido para compreender a sua própria natureza e detestar a tirania.” Ao controlar a imprensa e a educação, portanto, o tirano impede as pessoas de comparar o passado com o presente, além de induzir o que elas acreditam que possa ser o futuro.

Na esteira de La Boétie, George Orwell ensinou que “se você controla a língua, você controla o argumento. Se você controla o argumento, você controla a informação. Se você controla a informação, você controla história. Se você controla a história, você controla o passado. Aquele que controla o passado controla o futuro”.

Além disso, ao controlar a informação, o tirano é capaz de persuadir as pessoas de que ele age exclusivamente para o bem estar delas, inculcando a crença de que sua administração é a personificação do bem, da justiça, da tradição, do patriotismo, da lei e da ordem.  Por sua vez, a mistificação do poder benevolente leva as massas a tornaram-se impressionadas e a enxergarem o tirano como algo mais do que um mero ser humano.

Alguém aí pensou em Cuba ou Coréia do Norte?  Pois é, malgrado ter sido escrito há quase quatrocentos anos, a psicologia das massas descrita por La Boétie continua bastante atual.  Mas não é dessas tiranias já instaladas e estabilizadas que eu gostaria de falar.  Ultimamente, tenho lembrado com certa freqüência de La Boétie ao assistir os estupefacientes episódios de violência na Venezuela.   É que, como ensina a História, a fase inicial de qualquer tirania é sempre o período mais delicado, mais arriscado, mais violento, enfim, mais complicado para os tiranos.

E é exatamente nesta fase que se encontra a Venezuela, acredito.  A lavagem cerebral não foi concluída e ainda há aqueles que recusam a submissão, que ainda lutam por sua liberdade.  Se o tirano conseguir vencer esta fase de rebeldia, muitas vezes sangrenta, a tendência é que um longo período de servidão se instale.

Por tudo isso, torço para que os “rebeldes” venezuelanos não sejam vencidos, como foram os cubanos e tantos outros povos no passado.

João Luiz Mauad

João Luiz Mauad

João Luiz Mauad é administrador de empresas formado pela FGV-RJ, profissional liberal (consultor de empresas) e diretor do Instituto Liberal. Escreve para vários periódicos como os jornais O Globo, Zero Hora e Gazeta do Povo.