Kennedy: progressista ou conservador?

JOÃO LUIZ MAUAD *

Por falar em biografia não autorizada, saiu nos Estados Unidos mais uma delas.  Trata-se da biografia do ex-presidente Kennedy, escrita por Ira Stoll, na qual o autor enfatiza o lado conservador de um dos maiores ícones da esquerda americana.  Passados cinquenta anos de seu assassinato, é uma boa hora para se começar a derrubar alguns mitos em torno de JFK.

Como ainda não li o livro, seguem trechos da resenha de Jeff Jacoby, para o Boston Globe:

Ao iniciarem-se as manobras para a corrida presidencial de 2016, não há no partido Democrata quem pense em menosprezar a estatura de John Kennedy como um herói do partido.  Ele ainda é uma aposta segura, ainda que nenhum concorrente hoje abrace suas crenças políticas.

Partido democrata de hoje — a casa de Barack Obama, John Kerry e Al Gore — não daria palanque para um candidato como JFK.

O 35º presidente era um fervoroso cortador de tributos, que defendia reduções lineares nas taxas de impostos pessoais e corporativos, alé de promover cortes de tarifas para promover o livre comércio e até mesmo pronunciou-se contra os impostos de propriedade “confiscatória”, cobrados naquela época em muitas cidades.

Ele era tudo menos uma grande gastador, do tipo “welfare state liberal”. “Não acredito que Washington deva fazer pelas pessoas o que elas podem fazer por si mesmas, através de esforços locais e privados,” declarou Kennedy sem rodeios durante a campanha de 1960. Um dos seus primeiros atos como presidente foi a redução de salários para funcionários da Casa Branca, sendo este apenas o início de sua austeridade orçamentária. “Para a surpresa de muitos dos seus indicados,” Ted Sorensen escreveria mais tarde, ele “pessoalmente vasculhava cada pedido de agência com um olhar frio e encorajava seu diretor de orçamento a dizer não.”

(…)

Desde aquele dia terrível em Dallas, há 50 anos, a mitologia popular transformou Kennedy em um herói progressista. A criação dsse mito, como o jornalista e historiador Ira Stoll argumenta em um novo livro, “JFK, conservador,” foi conduzida por assessores de Kennedy, como Sorensen e Arthur Schlesinger Jr, que sempre o quiseram mais esquerdista do que ele realmente era. Alguns desses mitos foram alimentados pela conexão emocional entre o partido democrata e a memória de um presidente mártir, bem como seu desejo compreensível de vincular suas prioridades ao legado de JFK.

Mas Kennedy não era liberal (progressista). Por qualquer definição razoável, ele era um conservador — e não apenas pelos padrões da nossa era, mas por aqueles de sua época também.

Stoll sustenta sua teoria com riqueza de detalhes.

Quando o jovem JFK lançou sua primeira campanha política para o congresso, em 1946, um perfil na revista Look detalhava seu conservadorismo:

“Quando o jovem, rico e conservador John Fitzgerald Kennedy anunciou sua candidatura ao Congresso, muitas pessoas se perguntaram por quê. Longe de ser um liberal (progressista), mesmo pelos seus próprios padrões, Kennedy está principalmente preocupado com o que parece a ele como a próxima luta entre coletivismo e capitalismo. Em discurso após discurso, ele cobra de seu público a batalha  pelas velhas idéias com o mesmo entusiasmo que as pessoas têm pelas novas idéias.”

Quando a sua reeleição (para o senado) em 1958 tornou claro que Kennedy estaria correndo para a nomeação presidencial democrata, Eleanor Roosevelt foi perguntada em uma entrevista para a TV quem ela apoiaria, se forçada a escolher entre “um democrata conservador como Kennedy” e um republicano liberal [como] Rockefeller.  A viúva de FDR, então como agora um ícone do progressivismo, respondeu que ela faria tudo que pudesse para certificar-se de que Kennedy não seria o candidato do partido.

Muitos na esquerda se sentiram assim com JFK. Quando ele decidiu continuar os testes nucleares em 1962, Bertrand Russell atacou-o como “muito pior do que Hitler”, e Linus Pauling, que iria receber o Nobel da paz daquele ano, previu que ele “iria cair na história como… um dos maiores inimigos da raça humana.” Intelectuais de esquerda se enfureceram contra a tentativa fracassada de Kennedy de derrubar Fidel Castro (o renomado sociólogo C. Wright Mills disse a sua administração “regressara à barbárie”)…

Quase 30 anos atrás, um ensaio na revista de Mother Jones perguntou: “JFK seria um herói agora?” Se a resposta não era óbvia, naquela época, é agora. No ambiente político de hoje, um candidato como JFK — um campeão conservador do crescimento econômico, dos cortes de impostos, do governo limitado, da paz através da força — claramente seria um herói. Se ele seria um herói democrata é uma questão completamente diferente.

* DIRETOR DO INSTITUTO LIBERAL

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