Karl Marx e a libertação do homem

“Como definimos um comunista? Alguém que lê Marx e Lenin. E como definimos um anti-comunista? É aquele que entende Marx e Lenin”. – Ronald Reagan   Desde pelo menos Hesíodo, na época mais arcaica da Grécia antiga, que o homem tem algum conhecimento da economia e sua ligação com o tempo, através de seu belíssimo […]

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“Como definimos um comunista? Alguém que lê Marx e Lenin. E como definimos um anti-comunista? É aquele que entende Marx e Lenin”.

– Ronald Reagan

 

Desde pelo menos Hesíodo, na época mais arcaica da Grécia antiga, que o homem tem algum conhecimento da economia e sua ligação com o tempo, através de seu belíssimo e atual poema Os Trabalhos e os dias.

São, portanto, cerca de 2700 anos de pensamento da relação do homem com o trabalho, e do trabalho com o tempo.

Tal entendimento, como a maioria absoluta das ideias em debate na história intelectual dos povos, não foi linear durante o devir dos séculos, tendo avançado muito em épocas pouco prósperas (como a Escola de Salamanca) e retroagido como caranguejo, se tornando obtuso e fraco em épocas prósperas, como na ascensão do capitalismo.

Com efeito, o maior subproduto do capitalismo para toda a humanidade, que enriqueceu sobejamente a pequena elite proprietária de seus direitos, são livros anticapitalistas.

O sistema que acabou com o trabalho escravo, que mandou às favas a antiga pasmaceira das aristocracias e seu eterno presente em que a vida era sempre a mesma, e que trouxe pela primeira e única vez na humanidade a possibilidade de qualquer um ascender à conquista econômica bastando que produza algo desejável para um grande número de pessoas, exatamente este sistema é o mais combatido pelos teóricos sociais – expressão que hoje tornou-se quase um equivalente de “adversário do capitalismo”.

Os teóricos da Revolução Francesa propuseram acabar com o absolutismo para trocá-lo pelo terror jacobino – e acabaram eles próprios degolados pelo furor contra os “inimigos do povo”, como Robespierre (ver como sua péssima filosofia era, igual a hoje, apenas uma agradável conversa de bar de burgueses enfastiados em “Böse Philosophen: Ein Salon in Paris und das vergessene Erbe der Aufklärung”, de Philipp Blom).

A injustiça corrigida pela concentração de poder estatal já significava genocídio desde sua primeira tentativa.

Depois, veio o rebotalho da festinha francesa: Karl Marx, o pensador mais decisivo para a humanidade a partir de então. Sua tentativa de libertar o homem tem resultados conhecidos pelo mundo, mas sua filosofia ainda é sempre capaz de revelar aspectos ainda não efetivamente trabalhados ou mesmo compreendidos pelos intelectuais.

Algo bastante pitoresco, uma vez que Karl Marx, mais do que Darwin ou Einstein, foi o pensador cuja práxis determinou com mais força o destino de centenas de milhões de vidas humanas no século XX. Desconhecer sua filosofia é desconhecer mais da metade do século. Ainda que seus mais fiéis discípulos não façam senão corrigir os erros do Karl Marx original – seja a Escola de Frankfurt, seja um Jean Baudrillard ou um István Mészáros. Para se ver críticas a Karl Marx, basta reunir uma boa dose de marxistas tentando salvar a filosofia original, cada um em um aspecto.

Marx se tornou definidor dos rumos do pensamento e da vida na Terra. Tal como Alfred Whitehead, em um chiste provocador, diz que a filosofia foi feita por Platão e Aristóteles – tudo o que chamamos de “história da filosofia” seriam as notas de rodapé a estes dois autores, também podemos notar que há uma dicotomia brusca no pensamento e na própria formatação do mundo no século XX separando aqueles que aceitam Karl Marx e aqueles que o repudiam. Conhecer um filósofo exige quase como primeira pergunta se ele aceita Marx ou não.

Um exercício que apenas se conseguiria realizar com auxílio de um verdadeiro filósofo seria analisar o marxismo à luz do seu diálogo, na maior parte do tempo implícito, com os filósofos que instigaram Marx a construir sua filosofia. Muito já foi dito de Hegel e Vico, embora poucos notem a semelhança e prosseguimento de Marx com Maquiavel e Kant, por exemplo. É sob os auspícios deste último que o eminente filósofo paulista Vicente Ferreira da Silva (VFS) vai deslindar o marxismo em uma verdadeira anatomia do seu núcleo exposto ao escrutínio público.

No imprescindível ensaio “Marxismo e Imanência” (do livro “Dialética das Consciências”), VFS constata que Marx paga tributo ao conceito kantiano de autonomia da razão humana, a grande revolução de Kant na história da filosofia: “O nosso conhecimento não recebe heteronomamente a sua regra e lei das coisas, mas antes conforma as coisas com plena autonomia ao seu modo de ser”.

Em outras palavras, não há uma objetividade fixa das coisas externas com o homem, jogado ao mundo, buscando apreendê-la: bem pelo contrário, enxergamos as coisas conforme nosso entendimento e mentalidade prévios, constituintes do nosso ser, que serão quase como filtros para ver o tecido do real (noção que pode ter resultados muito interessantes ao ser estudada nas línguas, nas culturas, nos tempos).

Tal conceito logo compareceria no horizonte filosófico também em seu aspecto ético: para a mentalidade kantiana, “a vontade pura moral é essencialmente aquela que a si mesma prescreve as suas máximas de ação, que esboça livremente o seu dever-ser, sem qualquer intromissão de autoridades estranhas”.

Um categórico com forte conteúdo psicológico, mas de pouca aplicação factual quando seres humanos precisam conviver – das mulheres à sociedade, convivência nunca foi mesmo o forte de Kant.

Este foi o bloqueio dos filósofos do ocaso do Iluminismo alemão (Aufklärung) e já arautos das correções dos românticos: a autonomia deveria ser “investigada em suas relações com a antítese, isto é, com a nêmesis da heteronomia que persegue dramaticamente o nosso espírito”. Há uma vida real fora do abstracionismo intelectual que clama por ser vivida e experimentada como na filosofia original.

Pressagia-se aí já a dialética como método científico e histórico, além da urgência de uma contínua força de “salvação” do homem diante de uma realidade rival de sua natureza, que o aliena de seu ser.

Unindo o que idealistas como Fichte e Scheling pensaram para o Eu, Marx trabalharia descendo seu olhar para a matéria bruta da era da técnica: era a diferença entre as classes sociais, supostamente moldando cada homem de cada classe de acordo com puros interesses de classe, inimigas umas das outras, que acarretaria uma “segunda natureza petrificada”, dissociando o homem de seu ser.

VFS assim expõe a imanência absoluta do marxismo: “Marx estudou o desenvolvimento da ipseidade humana unicamente na forma da consciência trabalhadora, uma vez que para ele o homem se identifica com o trabalhador”.

Não surpreende, portanto, que Eric Voegelin faça uma distinção política entre imanentistas e transcendentalistas, que soa espinhosa ao nosso rastejante vocabulário político: “A verdadeira linha divisória na crise contemporânea não está entre liberais e totalitários, mas entre os transcendentalistas religiosos e filosóficos de um lado e os sectários imanentistas totalitários e liberais do outro lado”.

De todo o desfile de terminologias do materialismo-histórico-dialético, pode-se afiar que o único conceito que parece sobreviver é o da alienação do trabalho, desde que os trabalhadores não possuem consciência sobre seu próprio trabalho e sua própria condição na cadeia econômica capitalista.

Ainda assim, no núcleo de verdade que o conceito carrega, há de se perceber que uma economia interconectada não permite que uma consciência perfeita das relações trabalhistas seja percebida por quem quer que seja (ao contrário do trabalho fainoso e simplório de Hesíodo), e tampouco isto valeria apenas para o capitalismo (a burocracia socialista apenas a aumentaria em proporções leviatânicas). Contudo, nota-se que o conceito diz respeito, na verdade, à luta do homem contra uma heteronomia eterna, a subordinação freqüente do humano a um sistema de produção que o aparta de sua natureza.

O trabalho, para Marx, seria a humanização do mundo, a “subordinação do cosmo a um projeto humano”. O proletariado não seria portanto merecedor de guiar o futuro da humanidade na famosa “ditadura do proletariado” por ser pobre, como sinônimo de uma virtude não possuída pelo rico: tal proletário é merecedor de tal destino por ser o único que trabalha, que adequa a heteronomia a uma autonomia própria, mas que não vence tal batalha por ser, na conjectura marxista, alienado pelo burguês, que o exploraria e o subtrairia de seu desenho ideal.

Basta contemplar o desprezo de Marx pelo lumpesinato [Lumpenproletariat], a saber, mendigos, prostitutas, vagabundos e pobres sem produção econômica em geral (aqueles que, para os marxistas do século XX como Foucault e Marcuse, seriam os verdadeiros arautos da revolução, já que o campesinato e o proletariado chinês e russo não lograram êxito), para visualizar em sua inteireza que a preocupação de Marx se dá com uma libertação do trabalhador que só ocorreria na consolidação do comunismo, e não numa simples “correção” da desigualdade econômica. A desigualdade não seria o problema, e sim o trabalho alienado.

Seria então o comunismo a consolidação de uma libertação do trabalhador perante autoridades que falsificam sua existência – a grande questão que foi traduzida em termos assimiláveis pelos marxistas pós-Revolução, mas que ainda não foi trabalhada e respondida pelos liberais e demais opositores do totalitarismo bolchevique e suas novas facetas, por se aterem em demasia à verbosidade grandiloqüente e oca da já refutadíssima mais-valia.

Como apercebe VFS,”o comunismo afirma-se como uma sociedade sem o Outro, onde só existe uma operação global da subjetividade, uma só operosidade, que olha para a frente num horizonte fechado pelas operações deste operar contínuo. Por isso, o comunismo é sempre construção do comunismo ou ainda um puro construir, desde que todo repouso é fixação e uma nova alienação no já feito”.

Em termos mais simples, ao contrário do que é passado pelo imaginário coletivo e prestidigitador da oposição entre socialismo como o Estado total e totalitário que constrói a sociedade sem Estado (sic) comunista, o comunismo é em si mesmo essa eterna construção do comunismo, pois que a vida é trabalho e o homem só é homem enquanto trabalhador e vencedor da luta contra a sua alienação, construída pelo capitalismo com suas infraestruturas e superestruturas que exploram e alienam o proletário furtando-lhe a sua consciência de classe. Para ser comunista, é preciso crer e trabalhar pelo comunismo o tempo todo, inclusive depois da consolidação da revolução.

Não à toa, para o marxista, só é aceito o pensamento que seja “classista”, isto é, que enxergue no mundo físico e na história humana apenas classes sociais em luta, e não indivíduos ou eventos que escapem à ortodoxia dos conceitos do materialismo histórico-dialético.

Eis, portanto, o marxismo em seu núcleo, a base filosófica inventada por Marx e cujo indócil palavreado foi tão mal compreendido, em primeiro lugar, pelos próprios marxistas – para não dizer a esquerda em geral, que hoje jura que superou Marx, mas ainda crê em palavras como “exploração”, “alienação” ou mesmo “mais-valia”, tentando encaixá-las a muque numa eterna arenga sobre desigualdade de resultados econômicos.

Entretanto, ensejando uma discussão intelectual que é convidativa a liberais e amantes da liberdade que temem o avanço do poderio estatal politizando toda a vida, basta notar o detalhe fundamental que escapa a Karl Marx ao tentar descrever e ao mesmo tempo prescrever o mundo em seu dever-ser de autonomia que é a própria busca da autonomia.

Karl Marx, burguês de família abastada, aliado a Friedrich Engels, industrial milionário, se vê na confortável posição de único em toda a história da humanidade – ou então de que ele próprio não existe.

Marx e Engels crêem ter superado os “interesses de classe”, uma superestrutura cultural e residual do instituto da propriedade privada que faria com que não houvesse indivíduos, e sim apenas átomos escravos da heteronomia que obedecessem aos interesses nocivos. O burguês apenas busca enriquecer e explorar, o proletário, alienado, precisa de Karl Marx ele próprio para adquirir sua consciência de classe.

O Marx libertador e humanista nunca percebeu que ele próprio não atende aos tais interesses de classe que ele julga serem tão poderosos para serem vencidos apenas com arremessos de Teses sobre Feuerbach no estômago. Ou Marx é único, ou inexiste. Como nenhuma das duas hipóteses parece muito verdadeira, o caso é que sua filosofia é que é falsa – e tal esquematismo classista não é real.

Quando Ortega y Gasset aferra na história a sua famosa frase, “eu sou eu e minha circunstância”, não faz mais do que notar e prescrever o antídoto ao veneno do palavroso discurso marxista: não é possível viver em uma circunstância e tentar descrever um mundo intelectual e abstrato, cuja própria circunstância empírica nega.

A alienação non plus ultra da filosofia moderna não tem, portanto, outro nome, que não marxismo.

Infelizmente, talvez ainda seja pedir demais que uma educação tomada pela hegemonia marxista e gramscista (e atualmente com os toques perversos de Laclau e Negri) seja capaz até mesmo de compreender uma discussão filosófica em sentido estrito sobre o marxismo – que dirá vencê-la demorando-se nas regras da filosofia e passar a amar a verdadeira liberdade, esta da vida concreta e sem “correções” estatais, que só pode ser conhecida quando se vive num sistema liberal de divulgação de idéias, e não da ojeriza esquerdista por qualquer visão da realidade que fuja do cânone dos repetidores e restauradores da velha admiração cega pelo Estado reformador.

Podemos começar resgatando essa pérola do pensamento brasileiro, capaz de reduzir a escombros tantos nomes grandiosos do mundo civilizado, que é o nosso Vicente Ferreira da Silva.

Resta a melancólica esperança de que, algum dia, a esquerda venha a saber o que é essa tal direita, este tal liberalismo, que ela tanto critica.

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