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A incrível geração de pessoas chatas… ou não!

toleranciaNas últimas duas semanas aconteceu um interessante debate acerca do papel da mulher dentro de um relacionamento. Tal debate começou com um texto da blogueira do Estado de São Paulo, Ruth Manus, cujo título é “A incrível geração de mulheres que foram criadas para ser tudo o que um homem não quer“. O argumento principal da blogueira é que, enquanto mulheres ganharam o mundo, passaram a trabalhar, ser produtivas e, em muitos casos, ganharam mais no fim do mês do que seus companheiros, os homens continuaram a ser criados dentro da mentalidade de que mulheres deveriam ser “Amélias“, subordinadas ao marido e com pouca ou nenhuma vontade própria. Por causa disso, haveria uma imensa quantidade de mulheres profissionalmente bem sucedidas que, no entanto, estariam sem companheiros.

Em resposta, a colunista Mariliz Pereira Jorge, na Folha de São Paulo, escreveu o texto “A incrível geração de mulheres chatas“. Segundo a autora, muitas mulheres bem-sucedidas profissionalmente também o são na vida amorosa, e que não faz sentido a sociedade ter mudado e os homens, que são mais ou menos metade desta sociedade, não terem percebido e/ou se adaptado a ela. Argumenta ainda que o discurso do texto atacado é vitimista, que tanto homens quanto mulheres buscam companheiros, e que se a mulher em questão está sozinha, não é por causa da sociedade, mas porque ela é uma chata (termos dela).

Por fim, Aline Valek, em texto com o irônico título “As feministas que são chatas“, publicado pela Carta Capital, replica o texto da Folha argumentando que uma série de subgrupos sociais são extremamente chatos, mas que, por algum motivo, somente as feministas são perseguidas e ganham a alcunha de chatas, fazendo novamente um papel vitimista, que, diga-se, é bastante chato. E no final tenta afirmar que feministas são chatas porque, em suma, são revolucionárias.

O mais engraçado, ou chato, de toda essa discussão, é que todo mundo tem um pouco de razão. A primeira autora tem razão quando diz que a sociedade mudou e que muitos homens não se adaptaram bem a ela. Só que muitos homens se adaptaram sim, como a segunda autora alega. E muitas mulheres não se adaptaram e preferem as regras antigas! O que há de mais legal em uma sociedade aberta e plural é que podem existir diversos pensamentos e comportamentos antagônicos, mas coexistentes, desde que haja tolerância pelo diferente. E tolerância não significa aceitação, são duas coisas completamente diferentes. E aqui reside todo o problema.

A democracia, como sistema político, encoraja a organização de grupos de pressão com o objetivo de implementação de agendas particulares de minorias. Tanto que, na medida do possível, o sistema tenta vedar o abuso dessa prática garantindo direitos a minorias que, por algum motivo, perderam o embate político. Quando as instituições de um país são frágeis na garantia de direitos às minorias perdedoras, o que se vê é redução de liberdade e mágoas políticas, que resultam em vingança e opressão quando o jogo vira e a minoria anteriormente oprimida vence a disputa política através de melhor organização. A guerra de minorias da democracia, sem instituições fortes, gera uma sociedade extremamente chata e anti-libertária.

E toda essa chatice vem do fato de que pessoas pensam diferente, e que o é diferente costuma ser maçante. O fato da sociedade aberta em que vivemos ter conseguido, graças ao capitalismo e à liberdade de expressão, ter maximizado a troca de informações entre grupos sociais através da mídia audiovisual, escrita e virtual (notadamente as redes sociais), fez com que as diferenças entre grupos sociais ficasse mais evidente e, portanto, parecesse que as pessoas estão mais chatas. Elas não estão mais chatas, somente é mais fácil atualmente receber as informações dos grupos sociais que divergem de você. A chatice sempre esteve lá, você só não tinha conhecimento dela pela falta de internet. E quando a internet veio, você não soube lidar com ela.

Lidar com a chatice não tem a ver com aceitá-la, mas com simplesmente tolerá-la. No entanto, os chatos acham que aceitação, que resultaria no fim das chatices, é a única forma de coexistência. Na verdade, aceitação plena é o único caminho que torna impossível a convivência. Nem mesmo dentro dos grupos sociais específicos existe plena aceitação do pensamento do outro. Dois evangélicos conseguem divergir entre si, por serem indivíduos. A mesma coisa acontece com feministas, marxistas, liberais, etc, entre si. Isso é chato, mas é bem natural.

Portanto, evangélicos sempre serão muito chatos para feministas e vice-versa… ou não. Marxistas sempre serão chatos para liberais e vice-versa… ou não. Flamenguistas sempre serão chatos para botafoguenses, e vice-versa… ou não. Para o azul, o amarelo sempre será muito chato. Mas o que seria do azul sem o amarelo? Provavelmente muito chato… ou não.

Bernardo Santoro

Bernardo Santoro

Mestre em Teoria e Filosofia do Direito (UERJ), Mestrando em Economia (Universidad Francisco Marroquín) e Pós-Graduado em Economia (UERJ). Professor de Economia Política das Faculdades de Direito da UERJ e da UFRJ. Advogado e Diretor-Executivo do Instituto Liberal.

Um comentário em “A incrível geração de pessoas chatas… ou não!

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    30/06/2014 em 11:21 am
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    O problema é que hoje se a mulher não quer uma carreira reconhecida ou apenas quer servir bem o seu marido ela é ridicularizada, ofendida, atacada; é uma mulher ignorante ou que não teve opções. É engraçado como hoje o discurso que mais impera é “a vida é minha e eu faço o que quiser” e no entanto escolhas de algumas pessoas são fortemente retaliadas.
    O que temos que entender é que todo tipo de comportamento e pensamento que é imposto provém de socialistas/comunistas, que não valorizam a liberdade alheia nem a sua própria.

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