A Grécia e O Mito do Governo Grátis

 

“O que é prudente na conduta de qualquer família particular dificilmente constituiria insensatez na conduta de um grande reino”. Adam Smith

Com a eleição do senhor Tsipras, pode-se dizer que o bolivarianismo desembarcou na Grécia.  Tenho pena dos gregos, cujo futuro se mostra bastante nebuloso, para não dizer doloroso.

Se Milton Friedman já nos havia alertado sobre o mito do almoço grátis, recentemente Paulo Rabello de Castro muito bem descreveu o ‘Mito do Governo Grátis’ (não deixem de adquirir, pois vale cada centavo do preço).  Segundo o autor, “O Mito do Governo Grátis é um fenômeno político que promete distribuir vantagens e ganhos para todos, sem custos para ninguém”. Tudo indica que foi justamente por acreditar na existência de governos grátis que os gregos elegeram o partido Syriza.

O que até pouco tempo era tido como uma grande virtude econômica, a austeridade, de uma hora para outra, transformou-se no maior dos vícios, pelo menos para a maioria dos gregos – só para lembrar, as políticas de austeridade, contra as quais os gregos votaram no domingo, significavam apenas que o governo deveria limitar seus gastos àquilo que arrecada, sem aumentar sua dívida e sem emitir dinheiro para financiar seus gastos. Não tenho dúvida de que os gregos estão trocando a dor de uma recessão agora pelo pesadelo de algo muito pior um pouco mais adiante.

A Grécia é hoje um retrato cruel da decadência do estado de bem estar social europeu.  Ninguém admite nem sequer a possibilidade de perder algum “direito adquirido”.   Aposentados, pensionistas, funcionários públicos, estudantes, todos querem manter seus “direitos”, pagos régia e religiosamente pelo governo, claro. Pouco importa quem vai pagar a conta, no presente ou no futuro.  Acreditam que o Estado é uma fonte inesgotável de recursos, bastando aquilo que os demagogos convencionaram chamar de “vontade política” para que recursos abundantes se materializem nas contas do governo.  Por outro lado, ninguém admite aumentar a carga de trabalho nem tampouco pagar impostos – não por acaso, na Grécia, a sonegação fiscal é uma das maiores do mundo.

Nesse sentido, é realmente exemplar o resultado da eleição, que colocará no poder um partido de extrema esquerda – algo praticamente inédito na Europa desde a queda do Muro de Berlim -, pois mostra, em cores vivas, o que pode acontecer quando um país inteiro vira as costas para a realidade e resolve que pode viver acima de suas possibilidades, sem se importar com a conta.  Ou pior: achando que terceiros (no caso, principalmente os credores) estariam obrigados a pagá-la.  Os gregos (ou pelo menos a maior parte deles) estão embriagados pela fantasia do “governo grátis” e seus políticos possuídos pelo devaneio de prover a felicidade geral sem custos, ou melhor, à custa dos outros.  Não tem como dar certo.

A própria permanência na União Européia é hoje vista com desconfiança, principalmente porque a união monetária que oficializou o Euro como moeda única tornou-se um grande entrave para os governos perdulários.  Se antes as crises financeiras eram “enfrentadas” com medidas populistas irresponsáveis, como emissão de moeda (leia-se: inflação) e manipulação das taxas de juros e câmbio, na Grécia de hoje isso não é possível, já que o governo não tem ingerência sobre o BC europeu.

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Por isso, dificilmente o novo governo grego manterá o país atrelado ao Euro.  A curto prazo, será um alívio, mas lá na frente a recessão e a inflação, a exemplo do que ocorre hoje com a Argentina, virão cobrar a conta.
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João Luiz Mauad

João Luiz Mauad

João Luiz Mauad é administrador de empresas formado pela FGV-RJ, profissional liberal (consultor de empresas) e diretor do Instituto Liberal. Escreve para vários periódicos como os jornais O Globo, Zero Hora e Gazeta do Povo.

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