fbpx

Françaquistão e o multiculturalismo

A Europa viveu mais um atentado muçulmano na última sexta-feira (16/10). Um professor de história, Samuel Paty, de 47 anos, da escola Conflans Saint-Honorine, da cidade Eragny, foi decapitado por um homem de 18 anos, na frente de todos, a poucos metros da entrada da referida escola. O seu crime? Passou à classe um cartoon que retratava satiricamente Maomé. Retratar Maomé proibido pela lei islâmica e, logo mais, será também pela lei francesa ― querem apostar? Segundo a Associated Press, o professor, que ministrava uma aula de Liberdade de Expressão ― toda ironia demoníaca, aqui, seria pouca ―, OUSOU abrir um debate sobre caricaturas de Maomé e a liberdade de expressão. Que insolente, não…

Segundo a RFI, uma das rádios de informação mais famosas da França, a caricatura apresentada pelo professor assassinado foi a mesma criada pelos satiristas da revista Charlie Hebdo em 2015. Tal caricatura de Maomé se mostra mais uma vez o preço da liberdade que a França ainda não soube digerir. Segundo alguns amigos professores de humanidade ― tendentes à esquerda ― que consultei para escrever este ensaio, a caricatura é “profundamente agressiva” e “desperta instantaneamente uma reação violenta das classes islâmicas”; mas, sei lá, baseado em meus valores ocidentais, penso que, independentemente do que estava retratado no desenho, tal fato não justifica uma decapitação de alguém.

O país da guilhotina ― historicamente afeita a decapitações― corretamente está espantado e, talvez, somente agora começa a despertar e perceber aquilo que Michel Houellebecq mostrou em seu romance Submissão. Aliás, no referido livro, o personagem principal também é um professor, porém, mais inteligente que o decapitado, se converteu antes que perdesse a cabeça. O livro mostra uma França de costumes muçulmanos que, deixando-se envolver anteriormente por uma cultura de acultura e amorfasidade, por corpos sociais sem faces e sem virilidade, por covardias éticas tomadas como virtuosa sofisticação geopolítica, logo descambou num pantanoso “nada” existencial de um povo sem alma. Quando o “nada” é tudo que há para alicerçar uma nação e suas psicologias, logo a primeira tradição esperta assume o vácuo deixado pela covardia dos fracos antecessores; ora, quando o trono é deixado deliberadamente vago, o primeiro que senta nele se faz rei.. A grande lição que Houellebecq deixou para a França contemporânea foi a seguinte: quando o plantio é de covardia, não se pode colher menos que submissão.

A situação assustadora da decapitação do docente deveria naturalmente suscitar uma questão simples àqueles que temem pela sanidade civilizacional: “será que o Islamismo não é ele mesmo pernicioso”?

Vejam, cabe salientar que eu separo os indivíduos dos dogmas que eles professam ― religiosos e/ou políticos ― e, por isso mesmo, apesar de julgar que um esquerdista é um “porre” existencial e que sua ideologia é um lixo humano, eu nunca saí por aí decapitando psolistas.

Isso, inclusive, nem deveria ser motivo de orgulho, afinal, trata-se daquilo que Christopher Dawson chamou de “maturidade civilizacional” em Criação do Ocidente – isto é: o ato de não tirar cabeças de pessoas porque elas pensam diferente de nós ― ou porque elas ousam desenhar profetas alheios.

A antiga França ― atual Françaquistão ― orgulha-se de seu multiculturalismo, essa paleta multiforme de culturas, um arco-íris de bondade humanista, de ursinhos carinhosos e etnias fofinhas vivendo harmoniosamente sob a benção da ONU. Hoje, no final desse arco-íris, encontra-se uma cabeça decapitada, outrora encontrava-se inúmeros corpos baleados, outros explodidos e esfaqueados. E por aí vai… mas não se animem, homens que não decapitam terceiros, pois a narrativa fofinha e multiculturalista vai continuar sim senhor, o Islã continuará sendo a religião do amor, o problema europeu continuará sendo o patriarcalismo de matriz cristã, e os héteros que não concordam com pronomes neutros. A realidade que lute…

Um dos homens que mais conhecem a mentalidade muçulmana, Robert R. Reilly, afirma em A mentalidade muçulmana, publicada pela editora LVM, que o Islã é violento e tirânico por convicção interna e escolha histórica. A própria estrutura assumida pelos líderes do Islã, entre o século IX e XI, abdicando da influência da filosofia nas reflexões teológicas e sociais, ossificou a mentalidade dos seguidores de Maomé num dogmatismo intransponível. O americano ainda afirma que um dos motores mentais de obediência e fidelização dos seguidores do Islã é o ódio incessante ao “Ocidente cristão”.

Explica Reilly que a vitória política e religiosa da seita asharita sobre a mutazalita foi a causa histórica do dogmatismo islâmico que ainda hoje vivenciamos ― os franceses que o diga. O líder espiritual dos asharitas, al-Ghazali, a quem Roger Scruton define como “filósofo e teólogo brilhante”, acreditava que a razão questionadora criada pela filosofia grega era a causa das inseguranças e, por consequência, da confusão e dissidência religiosa; desta forma, a doutrina teológico-social rígida se faz a única via de boa vivência do Islã.

A teoria antifilosófica foi combatida e refutada pelo famoso filósofo e intérprete de Aristóteles, Averróis. Todavia, a maioria islâmica abraçou as ideias de al-Ghazali; segundo Reilly, isso ocorreu porque a doutrina asharita oferecia um forte pilar para a defesa da submissão como sistema familiar e político. Era conveniente aos líderes políticos e familiares que houvesse uma religião que lhes outorgasse poderes quase irrestritos sobre mulheres, filhos e espólios de guerra.

Quando Reilly se propõe a responder à dura questão: “Por que a violência é aceita, assumida e até louvada pelos muçulmanos modernos”, afirma o autor que isso não se dá somente pela via da perpetração mesma de atos violentos, mas também pelo endosso ― público ou privado ― aos atos terroristas de terceiros.

Em suma, podemos sensatamente propor que existem:

1) os radicais que incitam, decapitam, e explodem a si e a quem consideram pessoas infiéis;

2) a galera que aplaude e aprova em silêncio os radicais acima;

3) e a galera que não aprova e até rechaça os atos violentos, mas que não fala nada para não arcar com as represálias do primeiro e do segundo grupo.

O inconveniente do livro de Reilly é que cada aspecto político e geopolítico do Islã confirma as afirmações do pesquisador americano. Como negar a tirania interna surreal de uma mentalidade que ainda hoje apregoa a surra feminina como método pedagógico à esposa, que defende prender pessoas por portarem bíblias em lugares públicos ― parece a China ―, açoitar e até enforcar homossexuais por serem “sodomitas”? Não que violências correlatas não tenham existido no Ocidente cristão, mas alguém seria cego o suficiente para comparar as consequências e amplitudes dessas insanidades nos dias atuais?

Isso significa que todos os muçulmanos são terroristas ou decapitadores esportivos, Pedro? Óbvio que não, graças àquilo que o Islã resolveu ignorar, a filosofia, entendemos que a liberdade de consciência é um motor que não é relativizável no homem. Claro que existem muçulmanos que não decapitariam o professor francês, é claro que existem islâmicos sensatos o suficiente para não achar que a sua crença está acima da vida de terceiros que não creem como eles.

No entanto, quando há uma mentalidade que insistentemente lubrifica a mente de seus fiéis com a ânsia pelo martírio explosivo; quando a temperança racional é conscientemente rechaçada; quando no centro da vivência islâmica existe “a verdade” religiosa de que todos aqueles que negam o profeta são infiéis a serem expurgados; enfim, quando o centro nevrálgico da fé carrega tais apontamentos como condições e dogmas, quando tais doutrinas estão sendo agora mesmo ensinadas e cultuadas em nossas cidades, aí sim temos um problema seríssimo. E, vejam, esse problema não é sequer de cunho religioso, é antes de tudo de cunho civilizacional.

Certa vez, em sala de aula, um aluno me questionou quem estava certo, a Alemanha Oriental ou a Ocidental. Respondi fazendo uma nova pergunta: “Quando o muro caiu, para que lado correu a população oprimida”? O lado para o qual os povos correm em busca de segurança, justiça e paz deveria ser um indicativo sobre qual cultura precisa ter primazia. Não primazia “em detrimento de”, primazia em nome da razoabilidade de todos; e isso pressupõe uma coisa chatíssima aos progressistas: a cultura judaico-cristã é a única a oferecer a liberdade, a tolerância e a civilidade como conjuntos indissociáveis de um correto modo de vida. O que quer dizer, de maneira resumida: a tolerância cultural, a justiça baseada nas liberdades individuais, a ordem como princípio de paz, tudo isso são frutos do Ocidente judaico-cristão, assentados firmemente sobre a pedra reflexiva da filosofia grega. Simples assim.

Pedro Henrique Alves

Pedro Henrique Alves

Filósofo, colunista do Instituto Liberal, ensaísta do Jornal Gazeta do Povo e editor na LVM Editora.