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Fahrenheit 451: o mundo sem livros e o culto da mediocridade

montagContinuando a minha busca por instigantes distopias cinematográficas, cheguei a uma preciosidade dos anos 60: “Fahrenheit 451”. O filme, dirigido por François Truffaut e lançado em 1966, é uma adaptação do romance homônimo de Ray Bradbury, este de 1953. A trama também se passa num futuro indeterminado e bastante negativo, mas não provocado pelas desgraças que estamos acostumados a ver no gênero. Nada de bombas atômicas, nada de invasão alienígena, nada de máquinas se revoltando e controlando os seres humanos. Não é esse o tipo de desastre que se abateu sobre o planeta.

A sociedade mostrada no filme é uma sociedade com alguns avanços tecnológicos, ainda que reproduzidos a partir das limitadas técnicas de efeitos visuais da época. Mas falta a ela substância, falta a ela a alma que somente a cultura gestada pelos séculos de humanidade – e aqui nos lembramos do filme “Equilibrium”, que sugere o mesmo problema – pode oferecer. Faltam os livros.

Isso mesmo. É um mundo sem livros. Mais do que isso: os livros são proibidos, vistos como uma abominação. Em um sistema totalitário, os “bombeiros” do filme não apagam incêndios – antes, os provocam. As leis determinam que eles encontrem os locais onde livros são escondidos, queimem-nos e capturem os leitores como “promotores de práticas antissociais”, a fim de que sejam “reeducados”.  O nome do filme (e do livro) é um detalhe curiosíssimo: é a temperatura em que o papel queima. Guy Montag, interpretado então por Oskar Werner, é um desses “bombeiros”. Em sua missão de destruir os livros, ele acaba balançado por algumas obras que encontra e decide se atrever ao “crime” de lê-las.

Os livros apenas o fazem perceber o vazio da vida que levava. Percebe com maior clareza o que já vinha sofrendo: o desgaste em seu casamento com Linda (Julie Christie). A esposa de Montag, bem como suas amigas, mostra a verdadeira face cultural e intelectual daquela sociedade, em que todos estão preocupados o tempo inteiro com distrações absolutamente fúteis, que em nada edificam e nada constroem. As pessoas vivem entretidas em confabulações vazias, e não dão margem à criatividade, à imaginação. O que ocorre em “Fahrenheit 451” é uma forma original de produzir o mesmo tipo de sociedade coletivista e homogênea que vemos em outras distopias.

Anestesiados pela própria ignorância, os indivíduos não se emancipam, não se sobressaem, não desenvolvem talentos ou refletem sobre assuntos mais complexos. Percebe-se a total imersão em entretenimentos maquinais e pouco elaborados. Cansado desse mundo excessivamente superficial, Guy se encontra ao mergulhar nos livros, e de pronto percebe a imaturidade da alegação oficial, que rezava que os livros eram perigosos pois despertavam emoções turbulentas e faziam as pessoas se sentirem infelizes, imaginando-se como os personagens e desejando viver como eles.

A figura do Capitão (Cyril Cusack), o chefe de Guy, repete essa alegação o tempo inteiro, e vive a bradar que os livros não servem para nada – inclusive diante de uma das pessoas que burlam a regra e, cercada de seus livros descobertos, toma uma decisão inusitada e definitiva (não estragarei a surpresa). No entanto, em determinada cena, ele deixa escapar a verdadeira razão por trás da estrutura daquela sociedade, a motivação para desaparecer com os livros.

Segurando a “Ética” de Aristóteles, ele grita que “qualquer um que o lê se acha acima dos outros. A única maneira de sermos felizes é sermos iguais”. Essas são talvez as frases mais poderosas de toda a trama; a matriz ideológica daquela sociedade é eminentemente socialista. Em vez de reconhecer a desigualdade natural existente entre os indivíduos, pela diferença de pendores e aptidões, bem como as aquisições para o patrimônio cultural e científico da humanidade permitidas por um ambiente em que essas diferenças possam se exercitar e competir, o homem do futuro imaginado em “Fahrenheit 451” preferiu a busca estúpida pela igualdade artificial. Negando os livros aos seres humanos, nega muito das melhores possibilidades que nossa civilização tem a construir e oferecer, e nos condena a um eterno culto da mediocridade, onde, se não podemos todos ser iguais na sapiência e nas habilidades, que sejamos bastante nivelados na ignorância e na nulidade – diga-se de passagem, mais fáceis de controlar e dominar.

Ao final do filme, porém, na instigante figura das “pessoas-livro” – sobre as quais não darei detalhes, vejam por si mesmos -, a história nos deixa convictos de que as diferenças e subjetividades se hão de impor, e os totalitarismos sufocantes de pretensão igualitária são antinaturais e anti-humanos. Onde existir a ânsia pela realização pessoal, haverá a chave para o verdadeiro “bem comum” – não aquele que é sistematicamente perseguido pelo Estado interventor e homogeneizador, mas aquele que resulta da livre iniciativa e da autonomia dos cidadãos.

 

 

Lucas Berlanza

Lucas Berlanza

Jornalista formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), colunista e presidente do Instituto Liberal, sócio honorário do Instituto Libercracia, editor do site Boletim da Liberdade e autor dos livros "Lacerda: A Virtude da Polêmica", “Guia Bibliográfico da Nova Direita – 39 livros para compreender o fenômeno brasileiro”, "Os Fundadores - O projeto dos responsáveis pelo nascimento do Brasil" e "Introdução ao Liberalismo" (co-autor e organizador).

Um comentário em “Fahrenheit 451: o mundo sem livros e o culto da mediocridade

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    08/04/2015 em 1:34 pm
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    Coincidentemente li o livro recentemente e o filme, embora muito bom, nem chega aos pés da obra de Bradbury.
    F451 é um livro atemporal e profético sobre a “era dos imbecis”. Ao lê-lo têm-se a impressão de ler o jornal de hoje escrito nos anos 50.
    Seu resumo é a frase “A digressão é a alma do intelecto”.
    Leitura recomendadíssima para esses tempos, cujas ideias totalitárias parecem se difundir entre os mais desavisados.
    Eu diria mais, é leitura obrigatória a todos os bem intencionados.
    Mais, se você ler o apêndice que Bradbury anexou ao livro em edições mais recentes, vai se surpreender com a constatação de suas profecias.
    Obra-prima.

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