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Eu sou o Estado – uma tentativa de explicar porque o funcionalismo não produz riqueza

Eu sou o Estado. Na verdade, não sou uma pessoa. Ou sou, sei lá. Para ser bem sincero, sou um conjunto de pessoas. Chamam-nos de burocratas, trabalhadores do exército do funcionalismo ou, simplesmente, de recebedores de impostos (este último, confesso, deixa-me extremamente furioso). Nasci para ordenar a vida do homem em sociedade. Para isso, tenho o poder de legislar e determinar qual a fatia de renda que os meus súditos deverão me entregar para que eu faça aquilo que eles mesmos poderiam fazer. Nasci com o propósito de arbitrar todos os conflitos entre os habitantes de um dado território. No entanto, como sou soberano, não há nenhum fiscal externo que possa arbitrar quaisquer conflitos entre mim e meus súditos ou entre os diversos agentes que fazem parte da minha estrutura.

Por meio de um árduo trabalho de persuasão realizado pelo exército de intelectuais que contratei com o dinheiro confiscado dos meus súditos da iniciativa privada, tornei a minha existência inquestionável. Duvida? Experimente perguntar à grande maioria das pessoas o que pensam sobre a necessidade de uma estrutura que impinja regras e determine o que elas devem estudar, como devem gerir seus negócios e o que devem ou não ingerir. Como devem, enfim, viver suas vidas.

Eu mesmo eduquei as massas. Convenci-as, ao melhor estilo hobbesiano de que sem um poder central dotado de sabedoria e força para ajudá-las a superarem sua natural fragilidade todos estariam completamente entregues à barbárie. Não teriam seu direito de propriedade garantido, já que qualquer um poderia, caso fosse mais forte, invadir algumas propriedades e tomá-las à força.  Alguns teóricos, pouco conformados com a inevitabilidade do Estado, afirmam que o meu poder de legislar e determinar que meus súditos me entreguem suas propriedades para seu próprio bem e segurança é algo contraditório. Dizem que, se meu propósito é garantir que cada um possa usufruir dos frutos de seus próprios esforços e propriedades, não faz sentido que eu exija uma “contribuição”, sob ameaça de violência, pelo meu trabalho. São rasos demais. Gente que não se deixou educar pelo espírito altruísta que me é inerente. Não entendem que sou parte do tecido social e não há nada que possam fazer quanto a isso.

Ofereço educação, saúde, infraestrutura e um sem número de serviços que beneficiam as pessoas mais pobres porque sou guiado pelo espírito altruísta. Claro, nenhum desses serviços seria possível se antes alguém não tivesse gerado alguma riqueza e feito sua generosa contribuição com a causa da coletividade. Não importa também que essa contribuição não seja exatamente uma cooperação espontânea. Ameaço punir todo aquele que se recusa a contribuir com o bem comum; mas isso, claro, porque amo todos os meus súditos.

Meus intelectuais fizeram um excelente trabalho. Ouse afirmar, por exemplo, que um cidadão da iniciativa privada é o único responsável pela manutenção de todos os serviços que os meus empregados (que bondosamente são reconhecidos como servidores, já que, afinal, possuem um coração inclinado a servir pessoas) prestam e que sem seus impostos nada disso seria possível e você sentirá uma gostosa chuva de argumentações totalmente contraditórias que tentam me desqualificar. É risível.

Ademais, não posso deixar de enaltecer o excelente trabalho feito por alguns valentões que contratei (com o dinheiro dos meus súditos, claro) para manter as coisas em ordem sempre que algum intelectual, que se acha superior às pessoas educadas pelas instituições de ensino que eu próprio criei, tenta perverter os valores e conceitos tão caros à manutenção da paz e da ordem.

Querido leitor, não se deixe enganar. Eu sou o Estado. Sem mim, sua vida seria um fracasso. Já me agradeceu hoje?

Juliano Oliveira

Juliano Oliveira

É administrador de empresas, professor e palestrante. Especialista e mestre em engenharia de produção, é estudioso das teorias sobre liberalismo econômico.