Escola de Fake News: os soldados da democracia permitirão?
‘Em evento do PT, André Janones ensinou como tirar fotos e vídeos de contexto para atacar adversários políticos’
A teoria da “desordem informacional” foi elaborada pela pesquisadora da área de comunicação de Harvard Claire Wardle, propagandeada no Brasil pelo ex-ministro do STF Luiz Roberto Barroso, que mediou um painel integrado por ela em seminário de 2021 sobre desinformação e eleições. O conceito nebuloso foi aplicado em outubro do ano passado como parte da justificativa para a condenação de um dos núcleos da chamada “trama golpista” bolsonarista que teria ameaçado a democracia entre 2022 e 2023.
Como expliquei à época, a tal “desordem” envolveria três categorias diferentes de coisas: notícias falsas (“fake news”) compartilhadas propositadamente para causar danos a alguém, notícias falsas compartilhadas inadvertidamente e informações até verdadeiras, mas supostamente compartilhadas de maneira “indevida” (!!), propositadamente pretendendo causar danos a alguém. Os “golpistas”, segundo o julgamento do STF, provocaram “desinformação” ao divulgarem mentiras ou questionamentos indevidos sobre o sistema de votação brasileiro através de urnas eletrônicas.
O deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) conseguiu fazer viralizar um vídeo expressando temores sobre a política de fiscalização do Pix pelo governo federal, deixando no ar o risco de que isso pudesse resultar em mais uma ferramenta para consumar a voracidade fiscal da gestão lulopetista. Foi acusado por diversas vozes da esquerda de disseminar “Fake News”. Vice-líder do governo na Câmara, o deputado federal Rogério Correia (PT-MG) protocolou um pedido na Advocacia-Geral da União solicitando a abertura de um processo para apurar má conduta de Nikolas por “desinformação”, enquanto Erika Hilton (Psol-SP) encaminhou representação ao Ministério Público Federal por disseminação de informações falsas ou, respirem fundo, “prejudicialmente incompletas”.
Faço questão de transcrever um trecho do documento: “Ao misturar e confundir, de forma deliberada, conceitos técnicos do sistema de reporte fiscal com uma suposta ‘vigilância amplificada’ do Pix, o representado induz deliberadamente a opinião pública ao erro, ampliando a desinformação e criando pânico social sobre uma ferramenta amplamente utilizada, o que caracteriza, para além da expressão de opinião política, um efeito concreto de desinformação com vulnerabilidade social elevada”.
Um palavrório comovente. Por que estou recordando esses fatos? Porque há pouco, na posição de orador de um evento organizado pelo PT para orientar a militância digital, o deputado federal André Janones (Avante-MG) ofereceu uma aula de velhacaria para o público presente, ensinando descaradamente como tirar fotos e vídeos de contexto para atacar adversários políticos, principalmente o bolsonarismo.
Janones citou, por exemplo, uma ocasião em que garantiu, durante uma transmissão ao vivo, dispor de “conteúdos” do celular de Gustavo Bebianno, ex-ministro de Jair Bolsonaro, sugerindo que teria algo terrível a denunciar, quando, na verdade, nada tinha: “o conteúdo era o Bebianno servindo água para o Bolsonaro, conversa de bastidor, não tinha nada demais”, justificou, orgulhando-se de, no entanto, ter “emplacado” uma pauta, atraído a atenção e “desviado o foco” das agendas que os adversários endereçavam.
Fake news na “democracia” de Janones
Janones também mencionou, sem qualquer pudor, um caso em que coletou fotografias de Jair Bolsonaro e Fernando Collor juntos e publicou que o então presidente “poderia” nomear Collor ministro se reeleito em 2022. “Poderia mesmo, não tinha nada que impedisse. Collor estava com os direitos políticos ativos, ele poderia ser nomeado, então não era mentira”, ele “explicou”. Bolsonaro poderia nomear quase qualquer pessoa com quem tirou fotos na vida. Isso seria motivo suficiente para transformar essa hipótese em uma especulação política? Para Janones, sim.
Devo reconhecer, abrindo parênteses, que não me surpreende que figuras da oposição ou do bolsonarismo, por vezes, não resistam à tentação e também mintam e façam montagens canalhas e descontextualizações as mais espúrias apenas para defender sua narrativa — sei do que falo porque já fui vítima disso da parte de um ex-parlamentar, filho do ex-presidente, que hoje vive no exterior. Porém, toda a carga leviatânica do Estado é usada hoje contra apenas um lado em nome do pretexto da “desordem informacional”.
Onde estão nossos ilustres defensores da democracia, habituados a censuras prévias, processos draconianos e campanhas internacionais por “regulamentação de big techs“, que não tomaram ainda uma providência contra tamanha exortação aos terríveis crimes que tão ardorosamente se prontificam a combater? Apologia e confissão mais aberta de “desordem informacional”, “apresentação de informações para causar dano”, “exposição prejudicialmente incompleta de fatos” — ou qualquer expressão vaga semelhante — do que essa, em pleno evento para treinamento da militância digital petista, duvido que encontrarão.
Caso algum desavisado não entenda a ironia, não estou defendendo que censurem André Janones. Contudo, não se pode calar o paradoxo gritante de que os togados estão cegos e surdos à sua “Escola de Fake News” enquanto se apavoram com batons em estátuas.
*Artigo publicado originalmente na Revista Oeste.



