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Esclarecimentos sobre oferta, demanda e formação de preços

Em um vídeo, o influenciador Felipe Neto resolveu falar sobre a questão da cobrança pelo despacho da bagagem e a polêmica da meia entrada. É tanto erro conceitual que eu nem sei por onde começar, mas vou pelo final: é mentira que a cobrança pelo despacho de bagagem não reduz o preço das passagens aéreas.

Pesquisadores das universidades da Califórnia, Luxemburgo e Minnesota realizaram um estudo sobre a regra, concluindo que, de fato, a cobrança pela franquia de bagagem tende a diminuir o preço dos bilhetes. “A teoria prevê que a tarifa média de uma companhia aérea deve cair quando introduz uma taxa de bagagem, mas que o preço total da viagem para os passageiros que pagam a taxa de bagagem (a taxa mais a nova tarifa) pode aumentar ou diminuir. A evidência empírica apresentada no artigo fornece uma forte confirmação desta previsão”, escreveram Brueckner et al (2014).

A maioria das coisas disponíveis sem uma cobrança explícita (vulgo “de graça”) tende a ser utilizada em excesso e o melhor exemplo disso são as vias das grandes cidades. Congestionamentos estão longe de ser um problema recente. Há registros desse problema na Roma Antiga, tendo as bigas sido proibidas de circular durante o dia por ordem de Júlio César devido a problemas de engarrafamentos na Cidade Eterna. São Paulo criou o rodízio, porém, quero entrar em detalhes sobre como Cingapura e Estocolmo fizeram para contornar o problema.

Na década de 70, a cidade asiática foi pioneira em cobrar dos motoristas de acordo com área percorrida e horário, haja vista o caos que se tornou o tráfego da cidade. Resultado? Antes, 46% da população de Cingapura era transportada pelo serviço público e, depois, esse número pulou para 69%. Em Estocolmo, a cidade começou a dar descontos no pedágio para quem passasse pela via uma hora antes da hora do rush e, com isso, os suecos conseguiram reduzir o engarrafamento em 22%.

Antes da cobrança pela bagagem, quem não despachava acabava pagando por quem o fazia. Este que vos escreve, por exemplo, despachava sempre, pois não queria ficar carregando malas no aeroporto, no salão de embarque ou em conexões. Depois da cobrança, eu parei. Repetindo o que eu disse anteriormente: quando não há uma cobrança explícita no momento do uso, as pessoas tendem a utilizar mais as coisas.

Agora vamos falar da meia entrada e para isso vou utilizar o exemplo da antiga cadeia alimentícia dos irmãos Neto que era especializada em coxinhas, chamada Neto’s. O que aconteceria se amanhã uma lei surgisse para obrigar que a Neto’s vendesse os salgados pela metade do preço para estudantes? O preço das coxinhas para os outros aumentaria ou ficaria igual? Pergunta meramente retórica. Não precisa ser PhD em economia para perceber que aumentaria.

Esse é o perigo de ter alguém com tamanha audiência que fala com uma segurança absoluta, mas que não entende absolutamente nada sobre formação de preços nem de oferta e demanda. Finalizo este texto com duas observações. A primeira é que eu acho engraçado que ele fala com um nojo e um ranço de “empresário”, sendo que ele é um empresário. Mas percebam: ele diz “empresários bilionários” e não “empresários milionários”. A retórica absoluta em esquerdista rico é isso: os ricos são somente aqueles que são mais ricos que eu.

A segunda é que é interessantíssimo observar que Neto ficou milionário numa das ocupações mais desreguladas que existem, sem o Estado enchendo o saco: o YouTube.

*Artigo publicado originalmente por Conrado Abreu na página Liberalismo Brazuca no Facebook.

Fontes:

https://www.gazetadopovo.com.br/ideias/congresso-vota-pelo-fim-de-cobranca-de-bagagem-que-reduziu-sim-preco-de-passagens-aereas/

http://www.socsci.uci.edu/~jkbrueck/course%20readings/bag_fee.pdf

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