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Entenda porque militarismo não é o mesmo que conservadorismo

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Alex Esteves da Rocha Sousa*

A invasão predatória da Câmara dos Deputados por um grupo que clamava por “intervenção militar” – eufemismo para “golpe de Estado” – é mais do que um episódio infeliz, constituindo verdadeiro emblema de um fenômeno revigorado na Era Lula: a ideologia militarista.

Talvez devamos aproveitar esse fato para discernir dois movimentos totalmente diferentes, mas que se fortaleceram em resposta ao lulopetismo: de um lado, os grupos militaristas, de matiz autoritária, antidemocrática, extremista; de outro, os cidadãos de tendência liberal-conservadora, que buscam, em suma, a redução do tamanho do Estado, a responsabilidade fiscal, o combate a utopias e a preservação de tradições, crenças, valores e princípios assentados na cultura judaico-cristã, a qual forneceu as bases da civilização ocidental.

Os militaristas são antipetistas, dizem-se de direita, mas estão longe do liberalismo, por serem necessariamente autoritários e estatólatras; e não podem ser conservadores, porque o conservadorismo tem como um de seus pilares a repulsa a modelos ideológicos estanques, inclinando-se, isto sim, a políticas prudenciais, voltadas à solução racional e prática dos problemas sociais.

Militarismo e direita liberal-conservadora são adversários político-ideológicos, e assim tem de ser.

Infelizmente, o legítimo desejo de ser anti-esquerda pode ter conduzido alguns ao campo militarista, seja por falta de repertório bibliográfico, seja por influências ruins, que grassam nas redes sociais, o que envolve teorias da conspiração, vocação sectária e uma educação cívica superficial.

Por outro lado, o que se deve aplaudir é a crescente onda liberal-conservadora, que se verifica principalmente nas redes sociais e no mercado editoral. Entre seus representantes estão figuras muito qualificadas ao debate público, como Luiz Felipe Pondé, Rodrigo Constantino, Bruno Garschagen e Flavio Morgenstern, entre tantos outros, com os quais muitos brasileiros têm se identificado.

Sem nenhuma contradição, por mais que esses autores tentem explicar a natureza do liberal-conservadorismo, não são ouvidos pela horda de “intervencionistas”, os quais preferem sua doutrinação conspiracionista, hermética e escatológica.

O PT e suas forças auxiliares, com sua imensa corrupção, ideologia socialista e agenda cultural, atraíram a antipatia de diferentes segmentos, entre os quais se encontram os tais militaristas, mas estes não podem pautar a discussão em nome dos liberal-conservadores, e por uma razão muito simples: eles não passam de uma outra versão do autoritarismo, que preferem ver no lugar do projeto socialista.

Os estridentes defensores do Regime Militar estão submetidos a uma visão salvacionista, nacionalista, estatizante e reacionária, que enxerga nas Forças Armadas o último bastião da moralidade nacional, supostamente vocacionado a depurar a Nação Brasileira de seus pecados.

Invadir a Câmara dos Deputados, quebrando o patrimônio público e desrespeitando a ordem constitucionalmente assentada, não é uma medida aceitável aos olhos de um liberal-conservador. Apregoar o voto em Jair Bolsonaro para presidente da República é um direito que a democracia lhes garante, mas afirmar que Bolsonaro pode ser definido como politicamente conservador é uma heresia política.

Se a direita for entendida como uma concepção política que defende a ordem e as liberdades públicas fundamentais, veremos que o militarismo pode ser, quiçá, um tipo de extrema direita, por sua exaltação do valor da ordem, mas com aniquilação das liberdades.

E, em nome dessa ordem ideologicamente orientada, os adeptos da ideologia militarista conspurcam a ordem estabelecida pelo Estado de direito, como quando, por exemplo, avançam sobre a porta que dá acesso ao plenário da Câmara dos Deputados, julgando que seus fins justificam os meios. É exatamente desse tipo de “direita” que a esquerda gosta.

*Bacharel em Direito. Servidor público federal.

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