Enquanto debatem a moral, o demônio encosta

ddÉ de se lamentar o tempo e a energia que o debate eleitoral destina a questões morais. A curiosidade popular sobre o posicionamento pessoal de cada candidato é natural, mas cobrar que cada um deles vincule suas posições morais com seus respectivos programas de governo é um absurdo.

Considerando que a fé, que a sexualidade e que conceitos morais são as propriedades mais particulares de cada indivíduo, ao Estado cabe apenas preservá-las.

“Deus seja louvado”, diz Estado através das notas de real. Não! Quem deve louvar ou não a Deus é o indivíduo, não o Estado. Na maioria das repartições públicas há um crucifixo pendurado na parede. Não! Estado não é igreja. Estado deve ser sempre um mero ambiente de administração de dinheiro público. O Estado também não deve educar nossos filhos. Educação é uma responsabilidade dos pais. Ao Estado, cabe apenas ensinar a ler, escrever, calcular e o básico de outras disciplinas, sem qualquer direcionamento ideológico ou religioso. São os pais que devem falar com seus filhos sobre Deus e sobre o respeito ao próximo, porque cada pai e cada mãe têm suas próprias visões sobre o mundo.

Se existem escolas públicas, nestas não deve haver comemoração de coisa alguma. Dia dos Pais, Dia das Mães, Páscoa, Dia do índio, Dia da Bandeira… nada disso, porque cada uma dessas festinhas impõe uma condição que provavelmente não é a de todos. Sempre haverá uma criança órfã de pai ou de mãe. Sempre haverá uma criança de família de outra religião ou ateia. Sempre haverá alguma criança de pais que simplesmente não veem qualquer razão para se homenagear os índios ou mesmo o país. Aos pais que acham importante essa ou aquela comemoração, que façam em suas casas a festinha que desejarem, no formato e para os convidados que quiserem.

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É um absurdo que, em pleno século XXI, vivendo entre tantas tecnologias, a sociedade ainda esteja debatendo como e com quem as pessoas devem transar, qual união pode ou não ser reconhecida como conjugal, quais drogas alguém pode usar e até se cada cidadão tem ou não o direito de simplesmente se defender. A sociedade com IPhone nas mãos está debatendo os assuntos que nossos antepassados debatiam décadas, séculos e até milênios atrás! Deveríamos estar debatendo o fim do Estado, não formas escrachadas ou camufladas de aumentar seu poder sobre os indivíduos.

No caso brasileiro, a perda de tempo e de energia discutindo a moralidade das relações humanas tem uma consequência perigosíssima: a falta de atenção da sociedade com a institucionalização de mais uma ditadura socialista bem ao nosso lado. Depois da Venezuela, agora é a vez da Argentina sucumbir aos discursos mais vagabundos e canalhas. Cristina Kirchner conseguiu aprovar a lei que concede ao Estado o controle sobre os meios de produção do país, com poder para arbitrar de margens de lucro ao ritmo de produção de empresas privadas, com os empresários sendo obrigados a arcar com quaisquer prejuízos em nome do “bem-estar coletivo”. Ignora-se assim e bem ao nosso lado, o que toda a história do século XX nos conta sobre os trágicos efeitos de políticas desse tipo.

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Enquanto a sociedade (incluindo muitos liberais) está mais preocupada se esse ou aquele candidato é a favor ou contra o aborto, a favor ou contra o casamento gay, a favor ou contra a legalização da maconha, o socialismo mais perverso, atrasado e covarde está nos cercando, contando ainda com uma célula dele próprio ocupando o poder a 12 anos e com grandes chances de conquistarem mais outros tantos anos.

Será mesmo que as maiores ameaças ao Brasil são as “imoralidades”?

O maior problema do Brasil, agora, é o que não está sendo pauta dos debates: uma gigantesca revolução socialista ganhando corpo não apenas ao nosso lado, mas também aqui dentro. Estas são as perguntas que a sociedade deveria fazer aos candidatos à Presidência da República:

− Vocês são a favor ou contra as ditaduras socialistas que estão sendo instauradas na Argentina e na Venezuela?

− Casos sejam eleitos, vocês manteriam qual relação com esses governos?

− Dilma, devemos entender que sua proximidade com os governos cubano, venezuelano e argentino representa um alinhamento ideológico?

− Dilma, seu governo continuará injetando dinheiro brasileiro em regimes totalitários que desrespeitam grotescamente liberdades individuais, de imprensa e direitos de propriedade?

− Dilma, o que você trouxe na sua mala quando voltou de sua última visita a Cuba?

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− Dilma, o seu decreto 8243 foi uma ação para transferência de poder do Congresso Nacional para os movimentos sociais vinculados ao seu partido, ou seja, uma manipulação das ferramentas democráticas para destruir a própria democracia. Você insistirá com este decreto ou desistirá de tentar aprová-lo pelo Congresso?

− Marina, você assinaria o compromisso de que, caso seja eleita, não alterará o direito de propriedade e de liberdade dos cidadãos e das empresas privadas?

São essas sete perguntas que deveriam ser gritadas na cara de todos os candidatos repetidas vezes, todos os dias, para que ouçamos qualquer resposta que nos permita pelo menos perceber o nível de cretinice de cada um.

Caso algum candidato diga que não reconhece os regimes citados como sendo ditaduras, devemos interpretar que ele faria o mesmo no Brasil se tivesse oportunidade.

A sociedade brasileira não pode continuar debatendo bobagens enquanto as verdadeiras ameaças estão se organizando contra todos nós.

A tragédia da Venezuela e da Argentina poderá também ser a nossa, e mais rápido do que podemos imaginar.

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João Cesar de Melo

João Cesar de Melo

É arquiteto e artista plástico.