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Em defesa dos valores da classe média (parte I): Marilena Chauí e casamento

ALUÍZIO COUTO *

Nelson Rodrigues disse o seguinte em alguma de suas confissões: ninguém entende menos de pobre dos que as esquerdas. Do Dr. Alceu a D. Hélder, da grã-fina com nariz de cadáver a aluna da PUC, dos manifestantes com fome de matar e morrer em castelhano à geração “pra frente”, ninguém, salvo recorrendo a manuais e frases feitas, entende de pobre. A empatia um tanto esquemática das esquerdas para com os pobres possivelmente tem origem em Marx e pode ser vista com clareza a partir da comparação entre o filósofo e outro escritor de sua época, o russo Ivan Turgenev, autor de “Mumu”, fábula clássica contra o regime servil. O ensaísta Theodore Dalrymple sumariza assim as semelhanças e diferenças entre eles:

Ambos nasceram em 1818 e morreram em 1883, e suas vidas foram paralelas quase prematuramente em muitos outros aspectos. No entanto, as perspectivas de ambos do sofrimento e da vida humana eram muito diferentes e de fato irreconciliáveis – como se estivessem em pontas diferentes do telescópio. Turgenev via seres humanos como indivíduos sempre dotados de consciência, caráter, sentimentos, força e fraqueza moral; Marx os via sempre como flocos de neve em uma avalanche, como instâncias de forças mais gerais, como seres ainda não completamente humanos porque, em última instância, eram condicionados por suas circunstâncias. Onde Turgenev via homens, Marx via classes de homens; onde Turgenev via pessoas, Marx via o Povo.[i]

Um exemplo da insensibilidade de Marx é a tese segundo a qual a consciência das pessoas é resultado de suas condições materiais. Não há qualquer justiça feita aos vários esforços de autoinstrução da parte de trabalhadores ingleses que viveram no final do século XIX e início do século XX. Mesmo enfrentando uma vida de privações, essas pessoas tentavam cultivar a leitura dos clássicos, as boas maneiras trazidas pela instrução e, em algum grau, tinham uma sobriedade e auto-respeito tipicamente burgueses, e portanto incompatíveis com as próprias condições materiais. Para elas, o esquematismo de Marx era uma prisão, jamais uma libertação. Até a chegada do futuro sem classes, suas mentes deveriam, em tese, permanecer rígidas como a imobilidade social na qual viviam.

Perspectivas como as de Marx e Turgenev influenciariam, no futuro, o julgamento dos intelectuais (para o bem ou para o mal, a influência de Marx foi maior). Há alguns meses, a professora de filosofia da USP Marilena Chauí, herdeira intelectual de Marx, afirmou que a classe média paulista é fascista, violenta e ignorante. Opinião, como diria Nelson, de torcedor do Bonsucesso.

Em primeiro lugar, o fascismo é um movimento político caracterizado pela devoção a um estado forte e antidemocrático, com frequência na figura de um líder cujo papel é representá-lo – algo distante da classe média paulista e próximo de alguns regimes políticos tidos como progressistas. Nas palavras de Mussolini, “tudo no estado, nada fora do estado e nada contra o estado”. Em segundo lugar, é falso que a classe média seja ignorante, ou pelo menos especialmente ignorante. Levando em consideração a escolaridade, é bastante instruída quando comparada às classes inferiores, geralmente mais parvas. De fato, é difícil pensar em algum aspecto no qual os pobres, pelo menos enquanto uma classe mais geral, sejam mais iluminados. Em terceiro lugar, a afirmação de que a classe média é violenta é inócua se a intenção é destacá-la das outras. Infelizmente, lugares pobres são onde mais se mata e mais se morre. Com exceção do abuso do termo “fascismo” (um vício ocupacional de intelectuais progressistas), é possível, para denegrir os pobres, dizer, in verbis, as palavras de Chauí: essa ralé é “uma abominação ética porque violenta e uma abominação cognitiva porque ignorante”.

A cólera da professora Chauí indica um traço comum entre intelectuais de viés coletivista: o ódio a grupos inteiros de pessoas, geralmente vistas como obstáculos cuja obstinação em permanecer no caminho impede algum porvir utópico. A classe média, paulista ou não, é também constituída de indivíduos dotados das mesmas propriedades percebidas pela sensibilidade de Turgenev. Os valores típicos da burguesia, cujos integrantes mais conhecidos são comerciantes e profissionais liberais, ainda são achados nos hábitos de devoção à família e ao trabalho de muitos integrantes da classe média. Esses hábitos compõem a manutenção da ordem social e econômica, mas também são o modo pelo qual as gerações presentes transmitem às seguintes os mesmos valores.

Os burgueses que nos séculos passados deram fôlego ao desenvolvimento do capitalismo cultivavam hábitos profissionais e familiares austeros e tradicionais. A família nuclear era um ambiente adequado à transmissão de valores e os ambientes social e profissional não serviam apenas para aparecer e ganhar dinheiro, mas também para viver, na prática, o que havia sido cultivado por gerações passadas e resistido ao teste do tempo. Um típico valor burguês abraçado pela classe média é a instituição do casamento entre um homem e uma mulher. Ridicularizado por parte da intelligentsia e por alguns reformistas sociais, o casamento monogâmico ainda é, teimosamente, o sonho de muitos filhos dessa classe. Roger Scruton, filósofo de tradição conservadora, foi particularmente feliz ao explicar a importância do casamento. Vale a pena reproduzir a longa citação:

O casamento não apenas protege e nutre os filhos; é um escudo contra o ciúme sexual e uma forma singular de cooperação econômica e social, dotada de uma divisão solidária de papéis cujo efeito é mais do que dobrar a eficácia de cada parte na tarefa de garantir a segurança da família. O casamento cumpre essa função complexa porque ele é mais do que um contrato de cooperação mútua e é também mais do que um mero acordo de coabitação. Dessa forma, o casamento desfruta – ou até recentemente desfrutou – de uma aura social distinta. Uma cerimônia de casamento é um rito de passagem a partir do qual um casal avança de uma condição social para outra. A cerimônia não interessa só ao casal, mas também a toda comunidade que o inclui. Isso porque é no casamento que as crianças são feitas – feitas no sentido de serem novos membros da sociedade que irão, no seu tempo, continuar a tarefa da reprodução social. O casamento interessa profundamente à sociedade, e mudanças nessa instituição podem alterar não apenas as relações entre as pessoas vivas, mas também as expectativas daqueles que ainda não nasceram e o legado daqueles que os precedem.[ii]

Há algo implícito nesse trecho que é preciso explicitar: a dimensão pública do casamento é fundada em um voto puramente privado. Da mesma forma, seu impacto social ocorre de baixo para cima, a partir de decisões individuais firmadas por um laço existencial. Não há aqui qualquer tentativa de engenharia social, de “aperfeiçoar” a sociedade de cima para baixo; ela é transformada pelo casamento porque várias pessoas, de forma voluntária, mas talvez sem muita consciência da importância da instituição, influenciam a dinâmica social por meio de seus votos eternos.

O contraste com as perspectivas coletivistas de aperfeiçoamento humano dificilmente pode ser mais claro: estas buscam, de cima para baixo, impor valores criados por uma casta iluminada, razão pela qual seus representantes sempre buscam poderes políticos ilimitados. Por outro lado, a instituição do casamento se revela eminentemente conservadora, pois procura preservar os valores dos antepassados, transmitindo-os privadamente às outras gerações na forma de compromissos espirituais. Quando os membros da classe média afirmam a importância do casamento, eles expressam algo profundo demais para a ira da professora Chauí.

* FILÓSOFO


[i] “Our Culture, What is Left of It”, Ivan R. Dee, 2005 (Tradução livre)

[ii] “A Political Philosophy”, Bloomsbury, 2006 (Tradução livre)

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