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Em defesa da ideologia – ou: sem medo de ter convicção

A palavra ideologia com frequência recebe uma conotação negativa nas discussões políticas corriqueiras. Adjetivar um oponente como “ideológico” costuma ser uma forma de dizer que ele se pauta tão somente por ideias e paixões, ainda que irrealistas e em detrimento dos fatos. Em muitas ocasiões, o adjetivo pode ser apropriado, afinal, há ideologias e ideologias, e algumas pecam violentamente pela falta de realismo, ou mesmo pela vileza (i.e., comunismo, nazismo, fascismo); mas isso não significa que devamos tratar qualquer afirmação ideológica como sendo um produto de fanáticos. Há quem faça exatamente isso, taxando de irracional quem adote posicionamentos políticos por razões outras que não com “base em evidências”. Outros tratam divergências de caráter ideológico como algo infrutífero, acreditando que todos devem visar e abraçar o mesmo ideal comum; outra versão deste argumento é que todos visam aos mesmos fins, sendo as ideologias apenas meios diferentes de atingi-los.

A versão mais corrente da negação da ideologia é a negação dos conceitos de esquerda e direita. Os que assim pensam costumam dizer que se trata de conceitos anacrônicos, havendo até mesmo convergências entre pessoas apontadas como sendo de um campo ou outro. É verdade que se definir como sendo de esquerda ou de direita não é o suficiente para discernir como uma pessoa pensa. Os dois espectros não são um pacote fixo de ideias que devem ser aceitas por todos que se identificam com uma ou mais ideias daquele campo. Isso se torna flagrante com temas polêmicos como drogas, aborto e eutanásia. Há direitistas que defendem uma ampliação da permissão do aborto, enquanto há esquerdistas que defendem a manutenção da lei como ela está. A legalização das drogas também é um tema capaz de produzir convergências entre muitos direitistas e esquerdistas. No entanto, apesar de não ser uma informação suficiente e requerer maior explanação, a adoção de um conjunto amplo de ideias pode sim alocar alguém em um espectro político, com diferentes gradações (do centro aos extremos). Longe de serem anacrônicos, esquerda, direita e centro são conceitos atualíssimos.

O foco exclusivo no fato concreto, isto é, a adoção de uma ideologia, ou de uma ideia específica, faz com que se ignore o processo que precedeu essa adoção. Acredito que isso seja a razão pela qual a mera tomada de partido é, por vezes, encarada como um sintoma de fanatismo. Enxergar o oponente como um fanático significa, normalmente, pressupor que ele pensa o que pensa e defende o que defende com base em preconceitos pessoais, ou com base em “achismo”. Isso fica mais evidente quando uma pessoa em processo de formação de opinião sobre uma determinada questão demonstra espanto diante de quem, tendo a opinião já formada, apresenta-a com ênfase, com convicção. Podemos imaginar a seguinte réplica: “Mas você não pode ter certeza sobre isso, você certamente ignorou o fator A, B ou C”. Estando às voltas com suas próprias dúvidas e dilemas, ela não consegue compreender como alguém conseguiu superá-los, só conseguindo supor que o interlocutor não contemplou todos os elementos do problema.

Ora, é evidente que ninguém tem a obrigação de ter opinião formada sobre tudo, mas não há sentido em esquentar a cabeça com reflexões, sem desejar chegar a uma conclusão em algum momento. Ainda que essa conclusão reste inatingível, ela é ainda assim desejada. Vislumbrando o que pode ser o produto final (opinião) do processo reflexivo do outro, ignora-se o fato de que o interlocutor pode ter sofrido com as mesmas dúvidas e com os mesmos dilemas. Esta é a razão, penso eu, pela qual é comum vermos pessoas apresentando obviedades como se fossem questões inéditas, ou como se tivessem acabado de inventar a roda. Não é que os interlocutores nunca tenham feito aquele questionamento; é que quem o apresenta talvez só agora o tenha feito a si mesmo pela primeira vez.

Outro ponto a se destacar é que o processo não é o mesmo para todos, e com frequência leva a diferentes conclusões. Acredito, aliás, que esta é a maior prova da atualidade dos conceitos de esquerda, centro e direita. Peguemos a questão da pobreza como um exemplo. A forma como as pessoas encararão esse problema depende de fatores múltiplos, indo além da mera evidência empírica. Mesmo quem diz encarar o tema de forma objetiva e imparcial com frequência se percebe apresentando abordagens emocionais, talvez condicionadas a experiências pessoais.

Os seres humanos não são robôs; a mesma informação processada produzirá diferentes leituras, afinal temos diferentes experiências e conhecimentos, bem como diferentes aptidões, tanto emocionais quanto cognitivas. Quem diz que devemos ignorar nossas diferenças em prol de uma pretensa unanimidade, seja em nome do interesse comum, seja da evidência empírica, sonha com uma sociedade de robôs, e ironicamente acaba incorrendo no mesmo erro de muitos fanáticos ideológicos: ignorar o fator humano.

Isso não é para dizer que devemos ignorar as evidências, sobretudo quando elas flagrantemente destronam preconceitos enraizados. Significa dizer que não podemos confundir a ferramenta com quem dela faz uso. A ciência, com todas as suas ramificações, é o instrumento que tantos avanços já possibilitou e possibilita para a melhoria das condições de vida humana. Na política isso não seria diferente, especialmente em se tratando da formulação de políticas públicas. Ocorre que ela deve subsidiar, auxiliar a tomada de decisão, e não se converter no próprio tomador de decisão. Para ilustrar, peguemos a questão do livre comércio. Recentemente me deparei com a afirmação, feita por alguns liberais, de que a defesa do livre mercado, por princípio, seria um erro. Segundo os que assim pensam, a liberdade de mercado deve sim ser defendida, mas tão somente porque há evidências empíricas de que ela funciona.

É evidente que o fato de o livre mercado funcionar como um alocador de recursos muito mais eficiente do que as alternativas dirigistas – e há fartas evidências disso – é um importante ponto a seu favor; aliás, se as evidências apontassem em sentido contrário, a sua defesa, apesar de não ser impossível, seria muito mais difícil de ser levada a sério, vide os defensores contemporâneos do socialismo; como as evidências em torno de experiências práticas do socialismo atestam de forma inconteste o seu fracasso, a sua defesa, ao menos em sua acepção revolucionária, é feita de forma mais enfática entre as figuras mais pitorescas, e frequentemente mais ridicularizadas, da esquerda. Porém, condicionar a defesa do livre mercado tão somente a evidências empíricas é um reducionismo que ignora a própria história do pensamento liberal, além de ser apenas aparentemente uma alternativa “imparcial”.

O que se chama de livre mercado existe necessariamente em função da existência da propriedade privada, sendo esta conditio sine qua non para a existência de uma economia de mercado. É claro que muitas evidências também podem ser apresentadas a respeito das vantagens de se proteger a propriedade privada, mas seria um erro ignorar as considerações de natureza filosófica e moral já levantadas em sua defesa, muito antes de dispormos de ferramentas de análise como a econometria.

A defesa da propriedade é, aliás, uma das justificativas do contratualismo, tendo John Locke, em seu Segundo Tratado Sobre o Governo Civil, dedicado um capítulo inteiro ao tema. Nesta obra, que teve sua primeira edição em 1689, Locke vincula a legitimidade da propriedade ao trabalho: “Tudo isso evidencia que, embora as coisas da natureza sejam dadas em comum, o homem, sendo senhor de si mesmo e proprietário de sua própria pessoa e das ações de seu trabalho, tem ainda em si a justificação principal da propriedade”. A defesa da propriedade também adquire um caráter moral em Adam Smith, que na sexta edição de Teoria dos Sentimentos Morais, publicada em 1790, diz que “As leis mais sagradas da justiça, portanto, aquelas cuja violação parece clamar mais alto por vingança e punição, são as leis que protegem a vida e pessoa do nosso semelhante; as próximas são aquelas que guardam sua propriedade e posses”. Fica claro que, para Smith, a defesa da propriedade é de tamanha importância, que vem na sequência da defesa da própria vida.

Tais argumentos são de ordem moral, servindo de base para princípios, não só daqueles que concordam com Locke e Smith, mas como um sinalizador das próprias visões de mundo destes autores. Vou além: é uma ilusão pensar que é possível estar totalmente alheio a visões de mundo particulares. Todos temos nossos valores, nossos princípios, sejam eles influenciados por nossa formação, nossa vivência, nosso entorno cultural, etc. Os que dizem se guiar única e exclusivamente por evidências enganam, antes de tudo, a si mesmos. Quem diz que devemos adotar a política A em detrimento da B, por ela supostamente trazer maior benefício para a sociedade, faz um juízo de valor. Se, digamos, esse alegado benefício só for possível mediante o sacrifício material de um pequeno grupo, que não comungará do benefício, o esforço para justificar isso transcenderá qualquer evidência empírica que possa ser apresentada, revelando sim as predileções do formulador de políticas, que, nesse caso, seriam predileções utilitaristas.

Enxergar a evidência empírica não como uma ferramenta, mas como algo hierarquicamente acima da especulação intelectual capaz de produzir, não só ideologias nocivas e utópicas, mas também a mais fina arte da política, da boa política, governada por princípios, é inverter a ordem das coisas. Tal inversão, que tem forte coloração positivista, tem caráter pouco democrático. Se a especulação intelectual é coisa para fanáticos e só o que importa são as ditas evidências, ficaríamos reféns da interpretação dos “especialistas”, aí convertidos nos únicos capazes de ditar as políticas públicas. Além disso, tal visão se alia ao ódio cego e estúpido às humanidades, tão comum entre aqueles que encaram o mundo e a sociedade de forma mecanicista.

Reconhecer que, em matéria de política, embora as evidências sejam necessárias e muito bem-vindas, nós somos incapazes de abandonar o juízo de valor, é o que basta para destronar a ideia de que alguma neutralidade é possível. Negar a neutralidade não significa acenar para os extremos, e sim reconhecer que não pode haver neutralidade onde há tomada de partido; quem opta pela moderação, ou mesmo por uma espécie de “radicalismo de centro”, não deixa de se posicionar no espectro político.

A obsessão pela neutralidade costuma funcionar como uma defesa da neutralidade alheia, mas nunca da própria. Esse fenômeno se torna mais notório quando aqueles que se propõem a debruçar-se sobre a política, seja a do cotidiano, seja a teórica, são acusados de não serem “imparciais”, acusação que geralmente é uma reação de alguém incomodado com alguma opinião externada. Ora, não vejo como essa acusação possa ser uma ofensa. Como alguém que, de tempos em tempos, se debruça sobre a política e, não tenho problema em dizer, se dedica à militância política, ser acusado de imparcial é que seria a verdadeira ofensa, pois significaria que falhei em tornar claro o que penso. Tal coisa como uma opinião imparcial é um verdadeiro oxímoro. Toda opinião é uma tomada de partido, e não apenas no sentido político. Uma pessoa realmente “neutra” seria incapaz de manifestar qualquer tipo de preferência ou desejo nos diferentes aspectos de sua vida.

É claro que uma opinião pode carregar diferentes graus de certeza, indo da hipótese, da incerteza, até a convicção. É na convicção que a tomada de partido é mais acentuada, e, salvo para os verdadeiramente fanáticos, ou para outros casos específicos que não convém tratar aqui, ela é o resultado de um processo de especulação intelectual. No entanto, é importante diferenciar a convicção da certeza absoluta. Certamente podemos e devemos ter certeza absoluta sobre muitas coisas, e só relativistas radicais discordariam disso, mas a convicção, por sua própria natureza, não costuma se apresentar como autoevidente, ou conclamar que todos aquiesçam com o que ela declara. Há uma grande distância entre ter convicção de algo e se julgar como o portador de uma verdade absoluta – nos casos em que há de fato uma verdade, evidente e inquestionável, como dizer que a Terra não é plana, estamos a falar de fato, e não mais de convicção.

Para aderir a uma ideologia, geralmente não basta ter uma única opinião formada, mas sim um conjunto de opiniões. É verdade que nem sempre será possível alocar as opiniões de alguém em uma única dita ideologia, tais a complexidade do ser humano e a limitação das sistematizações, mas essa é justamente a beleza da pluralidade, que se faz presente não só nas disputas externas, na arena política do dia a dia, mas também gera divisões internas em absolutamente todos os campos ideológicos.

Definir o que é uma ideologia também não é tarefa fácil, e propositadamente, uso aqui o entendimento que acredito ser o mais popular do termo, entendendo-a como um conjunto de ideias, com uma concepção própria dos problemas da sociedade – não creio que uma ideologia possa surgir sem que haja ao menos um problema, real ou não, que se proponha a solucionar – e dos caminhos para solucioná-los.

Em face dessa definição, cabe perguntar: pode o liberalismo ser categorizado como uma ideologia? Para responder, é preciso resgatar duas afirmações que fiz anteriormente e que se completam. A primeira é dizer que aderir a um espectro político não significa aderir a um pacote fixo de ideias. A segunda é dizer que a pluralidade se faz presente, mesmo de forma interna. Se, o que se entende por ideologia possui um caráter rígido, estático, quase religioso – e nem as religiões são tão estáticas assim -, então não só o liberalismo não pode ser categorizado como uma ideologia, como seria difícil encontrar um único exemplo que fizesse jus ao termo. Agora, se se enxerga uma corrente ideológica de forma ampla, englobando a pluralidade, mas obedecendo a alguns princípios mínimos e unificadores, reconhecidos por todos que a ela aderem, então sim, acredito que podemos categorizar o liberalismo como uma ideologia.

Agora, será que as ideologias visam todas aos mesmos fins, sendo apenas meios divergentes para atingi-los? Acredito que nada está mais longe da verdade. O liberalismo, por exemplo, rejeita o coletivismo não apenas como meio, mas também como fim, sendo perpetuamente incompatível com alternativas anti-individualistas. Já entre os coletivistas, também não há uma uniformidade de fins; enquanto os socialistas/comunistas querem a supressão da propriedade privada, os fascistas desejam sua subjugação a uma ordem corporativista e estatista, por exemplo. Além disso, nem sempre o totalitarismo apresenta objetivos definidos. Em As Origens do Totalitarismo, Hannah Arendt apresenta o caráter muitas vezes amorfo assumido pelo nazismo e pelo stalinismo. No primeiro, a vontade do “Führer” era muitas vezes a única bússola que importava, um fim em si mesmo, ao mesmo tempo em que Stalin, com seus expurgos, era capaz de alterar a própria percepção de realidade, tornando-o imprevisível e com objetivos obscuros, até mesmo para os que dele estavam mais próximos.

De forma conclusiva, sumarizo dizendo que faço uma defesa da ideologia tal como um agregado cuja importância é mais comumente percebida e defendida por meio de suas unidades formadoras: ideias. Quando afastamos o entendimento de ideologia de receituários padrões, tão caros aos “pacotes fixos”, ressaltamos o poder das ideias, colocando-as em seu devido lugar de fio condutor da ordem social. Nota-se que reduzo o escopo, defendendo não as abstrações e as utopias. O fanático, ou não é um especulador intelectual, ou deixou de ser em algum momento; sua adesão não depende da lógica ou da ausência de contradições em seu sistema, mas quase sempre de uma fé que lhe torna obstinado e irredutível diante dos fatos. Não há defesa possível do fanatismo. Na outra ponta, está o mecanicista cujo sistema, apesar de se pretender superior aos demais, peca por ignorar o fator humano, ignorando também a sua própria humanidade. Também não faço defesa disso. Resta, então, defender a sã especulação intelectual capaz de produzir convicção e de governar princípios e valores. Obviamente, situo a “ideologia liberal” nesta última categoria, julgando incompatíveis com o liberalismo quem defende que os indivíduos ajam como devotos, ao invés de adeptos, ou quem os enxerga como robôs, ao invés de humanos.

Fontes:

https://neoliberais.com/2020/09/29/defender-o-livre-mercado-por-principio-e-um-erro/

John Locke – Segundo Tratado Sobre o Governo Civil. Tradução de Magda Lopes e Marisa Lobo da Costa. Editora Vozes

Adam Smith – The Theory of Moral Sentiments. Sixth Edition (1790)

Hannah Arendt – The origins of totalitarianism (1975 edition)

Gabriel Wilhelms

Gabriel Wilhelms

É licenciado em Música e graduando em Ciências Econômicas, atua como colunista e articulista político.