A Fake News dos Irmãos Koch por detrás do MBL

Há três anos surgiu a Fake News de que petroleiras americanas financiavam a desestabilização política brasileira. Apesar da história não ter pé nem cabeça, muita gente ainda acredita nela, mesmo entre apoiadores do impeachment há quem seja cético sobre um suposto financiamento estrangeiro. Nesse caso, vale relembrar o episódio para que fique registrado não apenas a verdade, mas como uma lição de como age uma blogosfera patrocinada e alinhada com a extrema-esquerda nacional.

Após a vitória nas eleições de 2014, marcada por mentiras sobre a real situação do país, Dilma Rousseff foi confrontada pela realidade de uma economia em frangalhos, fruto de anos de má gestão econômica. O segundo mandato começou turbulento, com uma população sentindo os efeitos da recessão econômica iniciada no ano anterior, com índices de desemprego crescentes, desajuste fiscal e inflação galopante. Dilma havia sido reeleita com 51,64% dos votos válidos, mas apenas três meses após sua reeleição viu sua popularidade ser deteriorada em mais de 80%.

Assim, o PT começou a perder o apoio da própria massa que o elegeu. Os gritos de impeachment começaram a ganhar ecos cada vez maiores e uma manifestação pelo país todo foi marcada para 15 de março de 2015. Era o primeiro protesto liderado pelo Movimento Brasil Livre que pedia a saída de Rousseff da presidência. Impor uma narrativa que desqualificasse opositores, portanto, era uma necessidade para manter-se no poder. Foi o que a blogosfera petista tratou de cuidar.

A fabricação da fake news ocorreu às vésperas daquela que se tornou, à época, o maior protesto da história do Brasil. Dois fatos impulsionaram ainda mais o protesto. Primeiro, a divulgação dos nomes da chamada “Lista de Janot” em 6 de março, que continha mais de 50 políticos investigados pela Operação Lava Jato. Depois, a própria Dilma, que se pronunciou em 8 de março, Dia Internacional da Mulher, em busca de acalmar os ânimos. Naquela oportunidade ela criticou a imprensa, dizendo que ela “mais confundia que esclarecia”. Apesar da recessão, “não havia com o que se preocupar”, já tínhamos enfrentado “crises maiores no passado”. “A economia vai reagir ainda este ano”, prometeu. Tudo era culpa de uma crise internacional – existente apenas na cabeça dela. O discurso era o mesmo utilizado 6 meses antes em plena campanha eleitoral, mas desta vez os brasileiros já sentiam no bolso que era tudo mentira. A falta de mea culpa acabou por surtir o efeito oposto e inflamou os protestos marcados para 15 de março.

Nesse clima o que os defensores do governo petista produziram? “Quem está por trás dos protestos do dia 15 de março”. Uma reportagem que argumentava que uma petroleira norte-americana financiava os protestos por intermédio da organização Estudantes Pela Liberdade com o interesse de atingir a Petrobras. A publicação na íntegra não está mais no ar, mas basicamente a conexão entre os protestos se dava por Luan Sperandio – autor que vos escreve.

A tese da blogosfera petista:

Um texto publicado neste Instituto Liberal – e escrito por mim – foi replicado pelo MBL. Na época, eu era participante da organização Estudantes Pela Liberdade, que tinha parceria institucional com o Students for Liberty. Por sua vez, esta instituição, que hoje atua diretamente no Brasil, possui ligações com o Cato Institute, que, desde 1998, recebeu doações dos irmãos Koch inferiores a 1% de todo seu faturamento. Eles são os donos da Koch Industries, uma holding que atua em diversos setores, entre eles o petróleo.

Logo, para a reportagem, eu era o elo entre industriais do petróleo norte-americano e os protestos brasileiros. A acusação era de que havia uma interferência de estrangeiros na política nacional para poder lucrar com uma eventual instabilidade causada pelo MBL.

Ocorre que, na época da acusação, eu sequer era favorável ao impeachment. Só passei a sê-lo após o TCU julgar as fraudes fiscais protagonizadas por Rousseff, algo que só ocorreu em outubro de 2015 – 7 meses após as manifestações de 15 de março, evento do qual, embora eu julgasse legítimo, optei por não participar. Toda a “apuração” do jornalista era apenas para criar uma narrativa para desqualificar os protestos – e utilizaram alguém contrário ao impeachment para isso.

De nada importam os fatos quando se quer criar uma fake news. A reportagem mentirosa foi replicada por dezenas de sites governistas em busca de impor uma narrativa, entre eles a Carta Capital e a Revista Fórum. Por mais que a reportagem não faça nenhum sentido, a força da máquina de imposição de narrativas foi tão forte que, mesmo passado anos após o episódio, há pessoas que convivem comigo – como colegas de sala – que ainda acreditam que fui do MBL e organizador dos protestos.

De lá para cá, dois episódios contribuíram para que essa blogosfera perdesse um pouco a força: a ascensão de Temer acabou por cortar a verba dessas páginas. O fim do imposto sindical também diminuiu outra fonte possível de financiamento. Contudo, toda essa máquina ainda possui muita força e será plenamente utilizada nas eleições de 2018. E nessas horas pouco importam os fatos quando há um grupo de militantes ansioso por qualquer notícia que preencha seus vieses de confirmação.

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Luan Sperandio

Luan Sperandio

Estudou Direito na Universidade Federal do Espírito Santo e especializou-se em Desenvolvimento Humano na Fucape Business School. É pesquisador do Ideias Radicais, consultor político e editor do Instituto Mercado Popular. Escreve para o Instituto Liberal desde 2014. Twitter: @luansperandio E-mail: luan@ideiasradicais.com.br