Devemos ter cautela com o discurso “antissistema”

Sempre fui cético com políticos considerados “antissistema” ou outsiders. Nunca foi simplesmente um ceticismo em relação à nobreza de suas intenções – embora isso também –, mas também um ceticismo quanto às possibilidades reais de colocar em operação uma agenda “antissistema”. Esse sempre foi um dos cernes das minhas críticas e dúvidas quanto a Bolsonaro. Não é que não acreditava que havia coisas a serem mudadas, pois como liberal há muitas coisas que gostaria que fossem diferentes, mas duvidava da capacidade de Bolsonaro realizar, um terço que fosse, do que ele prometeu em sintonia com o bom nome de Paulo Guedes. Se antes havia dúvida, agora tenho certeza, não só de que o presidente não fará nenhuma reforma significativa, como de que ele não pode ser visto como um oponente daquilo que chamam de sistema e que só conseguirá se manter no cargo se se curvar, como já vem fazendo, aos interesses fisiológicos do “centrão”. É preciso um grande exercício de fé para pensar o contrário.

Diante disso, muitos declaram: “Ué, mas vocês não queriam que o presidente negociasse?”. O questionamento é próprio de quem ignora, ou escolhe ignorar, as circunstâncias que nos levaram ao imbróglio atual. Desde o princípio Bolsonaro foi acusado, com razão, de não ter habilidade de articulação, envolvendo-se em toda sorte de polêmicas e agindo como se ainda estivesse em campanha. Desde o princípio, sempre falei que isso cobraria o seu preço. Recebia como resposta que era “para isso mesmo que votaram nele”, que precisavam de alguém com coragem para lutar contra “eles” (sempre o nós contra eles). Reitero, nunca critiquei Bolsonaro por acreditar que ele implantaria uma ditadura no Brasil – vocação para isso ele tem, mas acreditava na solidez dos nossos pesos e contrapesos -, e sim porque sempre imaginei que ele governaria da exata forma por que está governando. Não falo isso para me juntar aos que proferem “eu avisei”, pois a eleição de Haddad certamente mergulharia o país em uma desgraça ainda pior, mas para qualificar o tipo de crítica que fazia, que agora, infelizmente, se prova mais do que nunca correta.

Essa espiral de confronto e de acenos ideológicos só poderia provocar o enfraquecimento do próprio governo, como muitos, além de mim, previram. Nesse sentido, o desembarque bélico do Sérgio Moro só foi a cereja do bolo, pois a pandemia do covid-19 e as espúrias reações presidenciais diante dela foram-no enfraquecendo dia após dia. Agora, com dezenas de pedidos de impeachment protocolados, Bolsonaro se articula com o “centrão” para tentar evitar sua queda. Registra-se que não foi uma reação do Congresso contra uma agenda “antissistema” que o enfraqueceu, foram as suas próprias ações. Bolsonaro não é vítima do sistema, é o causador único e exclusivo de sua ruína. Os abutres que agora o contornam só o fazem por sentir o odor da putrefação. Ele fala grosso, manda até jornalista calar a boca, mas, na prática, é um presidente fraco que se equilibra na corda bamba e está disposto a rifar a República para sobreviver.

O foco do artigo não é Bolsonaro, estou apenas usando-o como um exemplo imediato e emblemático da cautela que devemos ter com o discurso antissistema. Tal discurso se relaciona, embora não seja sempre equivalente, àquilo que se convencionou chamar de “nova política”. Se minha memória não me trai, quem primeiro popularizou o termo foi a Marina Silva durante as eleições de 2010. Na ocasião, ela se apresentava como a candidata que incorporava esse anseio e como alternativa ao petismo e tucanismo. Desde então, o termo tem sido uma constante no debate político no Brasil, tanto à esquerda quanto à direita, sendo, neste último espectro, um mote do Partido Novo, que é um partido liberal, só para citar um exemplo.

Sobre o que se chama de nova política, tenho duas considerações principais. A primeira é de que é natural e louvável que busquemos novos caminhos para a prática política, caminhos estes afastados do fisiologismo e do patrimonialismo, sobretudo diante do mar de lama de episódios como o mensalão e das revelações feitas pela Lava Jato, por exemplo. O anseio por uma nova política aqui se refere à valorização da ética na vida pública antes de tudo, deixando questões ideológicas em segundo plano, embora elas também apareçam eventualmente, como no caso do já citado Partido Novo, que, no seu pacote de “novidades”, engloba a necessária diminuição do peso do Estado sobre os cidadãos. Esses anseios buscam se materializar dentro das regras do jogo, respeitando as instituições e a democracia. Pode-se aqui criticar membros das instituições, mas não se busca o aniquilamento ou cerceamento destas.

A segunda consideração que tenho a fazer é que a propaganda da nova política também pode, como ocorre no caso do bolsonarismo, ser transmutada em anseios populistas para atender a uma agenda antissistema. Antes de tudo seria preciso definir o que é sistema. Se por sistema entendem a corrupção e as negociatas espúrias, então de fato isso é um mal a ser combatido, porém sempre na forma da lei e pelos caminhos institucionais. Ocorre que o discurso antissistema muitas vezes excede esse espectro e passam a enxergar o agora líder populista como uma espécie de guerreiro com uma missão quase celestial, como um agende moralizador que, por personificar uma pretensa vontade popular, poderia se sobrepujar às demais instituições que lhe fazem peso e contrapeso. Essas instituições, no pleno gozo de suas atuações constitucionais, seriam o sistema, o mal a ser combatido. É esta a razão de tantos bolsonaristas, crentes de que nenhuma mudança é possível na esfera democrática, enveredarem por clamores por uma intervenção militar e pelo fechamento do Congresso e STF. Não estou aqui falando das possibilidades de tais clamores se concretizarem ou não, por ora estou só no campo das intenções.

Falei, até aqui, de duas facetas que considero essencial analisar quando se fala de nova política. A primeira se refere a intenções louváveis e genuínas, ao passo que a segunda flerta com clamores por rupturas institucionais. A primeira dá um norte que pode ser explorado pelo pragmatismo político, por isso me debruçarei mais um pouco sobre ela. A segunda, por sua vez, deve ser repugnada e não vale novas menções.

Como disse, as expectativas com uma nova política podem ser sim louváveis, mas será que elas são realistas? A consecução de uma política mais ética me parece sim possível, mediante a dobradinha: rígida aplicação da lei/voto consciente dos cidadãos. Agora, mesmo aqui, na seara das nobres intenções, devemos ter o cuidado para não cair no irrealismo e pensar que a mera articulação política equivale a corrupção e que a formação de uma base governista é coisa da velha política. A formação de uma base só é conseguida pela articulação e, sem isso, não há governo que consiga levar a cabo seus projetos. No entanto, isso não significa que essa articulação precisa ser fisiológica ou feita na calada da noite.

Pensemos no mais imediato: a distribuição de cargos. Seria errado um governo recém empossado, na ânsia da formação de uma base, aceitar oferecer ministérios a partidos aliados? Eis uma questão incômoda, que muitos evitam fazer, pois sabem que a única resposta pragmática possível pode angariar muitos xingamentos. Eu diria que, a priori, não se trata de um absurdo oferecer cargos em ministérios, desde que tais cargos sejam ocupados por pessoas de reputação ilibada e conhecimentos técnicos notórios para a função desempenhada. O Mandetta, por exemplo, foi uma indicação política e se provou um bom ministro; mas articulação é mais do que isso, é capacidade de dialogar com os divergentes, sem que isso represente, necessariamente, abandono das próprias ideias. Agora, qual a possibilidade de um mandatário antissistema, que aposta no nós contra eles, que se fecha em uma bolha, conseguir fazer tal articulação? Não estou falando só de Bolsonaro, pois estas são características comuns a políticos eleitos com um discurso antissistema.

Há duas possibilidades aqui: ou o líder antissistema consegue de fato colocar as demais instituições de joelhos, hipótese em que se transforma em um autocrata e passa a corroer a democracia de dentro para fora, ou, o que é o caso presente, ele se enfraquece com a própria postura e, ou acaba deposto, ou tem que se curvar, aí sim, a interesses escusos, que nada têm a ver com aquela articulação pragmática de que falei, para que isso não ocorra. Aludindo novamente à questão da distribuição de cargos, não se trata mais de convidar partidos aliados para o executivo para a consecução de um projeto comum e sim de rifar cargos em órgãos, estatais, secretarias e, aguardem para ver, ministérios, não por critérios técnicos e sim para satisfazer a fome de abutres, que não visam a projetos públicos e sim particulares. Está aqui uma razão adicional para duvidar de que veremos grandes privatizações ou reformas. Ora, parece do interesse dos fisiologistas o encerramento de fontes imensuráveis de mamatas?

O destino do presidente Bolsonaro é um estudo de caso fundamental a respeito do discurso antissistema. Eleito como um outsider – a despeito de ter passado três décadas no ócio da Câmara e de ter enfiado três de seus filhos na política -, até fez uma articulação mirrada no início, mas a corroeu no decurso do tempo e, isolado, por culpa única e exclusiva sua, acabou por ter que se curvar aos abutres da calada da noite para tentar se manter no cargo, tudo isso com o apoio resiliente de muitos liberais.

Gabriel Wilhelms

Gabriel Wilhelms

É licenciado em Música e graduando em Ciências Econômicas, atua como colunista e articulista político.