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Desmascarando o Ciência Sem Fronteiras

MAURICIO SÁ *

Lendo acerca do aniversário de um ano do hollywoodiano e milionário Ciência Sem Fronteiras (programa do governo federal que financia, majoritariamente, bolsas para alunos com idade média de 22 anos para estudar no exterior), percebo o quanto realmente seus idealizadores estão apostando de forma indubitável o futuro do desenvolvimento científico do país nesta empreitada. Falo por causa das declarações, pseudo-otimistas, que ouvi aqui em Lisboa, há algumas semanas, proferidas pelo Ministro da Educação, Aloizio Mercadante. Isso é, no mínimo, preocupante e, ao extremo, chega a ser cômico.

O projeto envia durante 1 ano (repito, 1 ano!) os alunos para “estudar”, fazer turismo, conhecer novas culturas, leia-se festas de diferentes países e em diferentes línguas, a receber uma pomposa bolsa em cerca de 3 mil reais por mês, apenas para pagar aluguel de um quarto e se alimentar. Esse valor aqui em Portugal, pois na Inglaterra chega a quase 4 mil reais – a não esquecer dos 5 mil reais (para compra de notebook no início), mais passagens de ida e volta. Realmente, são cifras generosas e atraentes. Não que eu seja completamente pessimista em relação ao mesmo. Óbvio que há exceções de alunos que se dedicam – eu nunca os encontrei aqui em Lisboa mas, dos quase 5 mil contemplados que aqui estão, deve haver alguns dois ou três escondidos algures realmente promovendo desenvolvimento científico e gerando valor ao capital humano brasileiro tão deficiente.

A alusão do Ciência Sem Fronteiras a Hollywood não foi à toa. Penso que é exatamente igual àquelas megaproduções americanas feitas com gastos milionários, mas que no fim acaba por ser um fracasso. Assim eu vejo o programa, muitos bilhões investidos (de forma ineficiente) e no final é muito provável que não receba nenhum Óscar.

Nesse sentido, o ideal seria cancelar este programa ilusório e esta torrente de dinheiro que está sendo gasta no exterior por estudantes brasileiros que estão fazendo turismo às custas dos pagadores de impostos do Brasil. Mas como isso não é possível e tampouco provável, eu vejo, pelo menos, como forma de sugestão – e de minimizar este problema, começar cortando abruptamente cerca 50% o número das bolsas. Aos que fossem contemplados, garantir que fizessem a trajetória acadêmica na sua INTEGRALIDADE no exterior. Tentar primar pela majestosa qualidade e não pela (sempre) fictícia quantidade. Aí sim, assimilariam e perceberiam de forma positiva e concreta o quão é necessário esforçar-se para garantir uma boa colocação aqui fora e, claro, EXIGIR RIGOROSAMENTE uma contrapartida do aluno em responsabilizar-se a NUNCA ficar reprovado, condicionando-o a ter sua bolsa cancelada.

Visto que, hoje em dia, o governo envia alunos para estudar por um período muito curto (fácil entender, assim conseguem mandar mais em menos tempo – perfeito do ponto de vista eleitoral), os alunos não são exigidos em absolutamente nada. Estudando ou não a bolsa está garantida até o fim. Reprovando ou não. Inscrevendo-se em cadeiras ou não – conheço caso de alunos que sequer frequentam aulas mas recebem todo mês a sua bondosa “mesada” do Governo Federal.  O que importa é estar teoricamente estudando no exterior. Daí operar-se-á o milagre e teremos, na concepção deles, uma nova potencialização/ renovação científica no Brasil promovida pelo PT. Aplausos! Agora, o pão para o circo já atinge todas as esferas. Para os pobres temos o Bolsa-família ou Bolsa-esmola; para os empresários temos o Bolsa-empresário via BNDES e, o mais novo, para classe média – que adora viajar – temos o Bolsa-turismo, leia-se Ciência sem Fronteiras, sem critérios e sem barreiras. É uma distribuição de dinheiro sem fim. Pelo menos, a cada dia que passa, me convenço que o meu país é muito rico em cifras, embora seja pobre de CORPO – infraestrutura, educação, muitas outras coisas- e ALMA.
O curioso é ver o esforço hercúleo e o (cínico) interesse atual das universidades europeias em prospectar alunos brasileiros, “como nunca antes na história” – assim diria o apedeuta, Lula. É tão simples como uma das lições básicas de economia: quando existe uma grande oferta de crédito as empresas mobilizam-se e alocam seus recursos para tentar captá-los. É exatamente este cenário que verifica-se hoje em dia numa Europa engolfada profundamente em crise onde sobram vagas em diversas universidades públicas (que são pagas); de Portugal, França, Inglaterra até à Polônia. Sendo assim, é nítido entender e fácil de explicar o porquê desse estreitamento, amor e facilidades em relação aos alunos brasileiros.

Semanas atrás o primeiro-ministro britânico, David Cameron, esteve no Brasil para demonstrar que a Inglaterra está de portas abertas aos alunos brasileiros – alargando amplamente a concessão de vistos e “flexibilizando” os exames de inglês, conhecidos pela sua enorme complexidade. O curioso é que apenas 1% (ou menos que isso) da população brasileira tem fluência em inglês. Não importa. O primeiro-ministro, “preocupado” com o desempenho dos alunos e, claro, com medo de perder esta boquinha que vai gerar uma excelente receita às universidades inglesas, já disse que oferece de 3 a 6 meses cursos de inglês para os alunos brasileiros, a fim de terem maior contato com o idioma. Quando a esmola é demais, qual o santo não desconfia? Sem falar no governo português que, em visita recente da President(a) aqui em Portugal, cobrou duramente explicações do Brasil em relação à eliminação das universidades portuguesas da lista dos países beneficiados com o programa. Sinceramente, nunca vi tantos estrangeiros “preocupados” com a capacitação e desenvolvimento dos cérebros brasileiros, ou seria apenas com os atraentes recursos? Eu apostaria na segunda opção.

Por fim, após ler 97 depoimentos de alunos brasileiros, dos que foram e também dos que não conseguiram ir – mas ainda almejam, percebi que cerca de 98% (apenas uma estimativa aproximada) desses alunos sonham estudar fora do país através de bolsas de estudos, ou seja, SEMPRE financiados pelo estado e JAMAIS por eles próprios. O que é moralmente inaceitável e particularmente triste é que nunca, ou quase nunca, vê-se um deles a falar em poupar hoje para futuramente ir, ou trabalhar e tentar fazer um intercâmbio PARTICULAR e, até quem sabe, em último caso receber, por meritocracia, uma bolsa direta da universidade estrangeira. NÃO! Se o estado brasileiro não banca, não vai. Por conseguinte, na cabeça dos parasitas, eles deixam de ir por falta de “incentivo” do governo e não por falta de esforço, capacidade própria ou mérito. E assim vamos, a dependência no Brasil continua demasiada. Percebendo-se que, quando não há o empurrãozinho estatal nada flui. Para estes, a responsabilidade nunca é do indivíduo mas sim do estado, que talvez não tenha ofertado bolsas e regalias suficiente. Pasmem! E, quando o estado faz, ainda sim (para variar) é de forma torpe e com resultados medíocres.

* MESTRANDO EM CIÊNCIA POLÍTICA PELA UNIVERSIDADE NOVA DE LISBOA

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