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Desce uma dose de realidade para nossos políticos, por minha conta

Sou filósofo de formação. Não que isso importe muito, nem mesmo os pais dessa matéria ostentaram essa bandeira de maneira orgulhosa, então quem sou eu para ficar pichando aqui essa alcunha. Digo isso apenas para falar que, diante de uma pandemia, um filósofo só tem utilidade se for para analisar as conjunturas e os discursos dos titãs envolvidos nas tertúlias políticas e sanitárias que envolvem o combate à maldita doença – e eu tento me limitar a isso.

Vendo as coisas daqui de cima, tal como uma coruja curiosa em cima de uma árvore, apenas posso dizer que a impressão é que há muitos cegos guiando outros cegos para o desfiladeiro, e como se isso já não fosse suficiente desgraça, aqueles outros que pareciam possuir melhores visões, pois usam jalecos e falam nomes e fórmulas difíceis, acabaram se mostrando também cegos, cegos mais eruditos, porém que também guiam as ovelhas para o mesmo desfiladeiro, mas o fazem de maneira eloquente e com referências da OMS.

Escuto: “ciência”, “ciência”, “ciência”; mas sejamos sinceros: cadê ela, meu Deus? Os homens dos tubos de ensaio parecem tão perdidos em divagações, escalas de Excel e gráficos imponentes, que pararam de enxergar os fatos mais elementares do cotidiano. Como dizia Chesterton, passam tempos e mais tempos discutindo sobre os átomos, se esquecendo da mesa que tais átomos formam. Em nome de uma ciência que tem muitas afirmações austeras que duram menos que a bateria de meu smartphone, gráficos lindíssimos que resistem tanto quanto as 24 horas de um storie; isso até surgir ― é claro ― outro gráfico lindíssimo que diz consertar o anterior.

A ciência, segundo a pesquisa maravilhosa realizada em Manaus, da maravilhosa revista, chancelada pela maravilhosa universidade, afirma que a hidroxocloroquina mata; mas ao mesmo tempo milhares de médicos, ao redor do mundo, com resultados que podem ser constatados a olhos nus, como os conseguidos em Piauí e em São Paulo na Prevent Senior, afirmam que a hidroxocloroquina unida a outros medicamentos salva, e salva com força. Trump está tomando a droga como prevenção – veja que ousadia, será que ele não leu nossos jornais? Será que ele não sabe que a hidroxocloroquina tende a matar os desavisados? A pergunta então se impõe: quem está certo, a pesquisa ou meus olhos?

A quarentena, então, parece algo fora do comum se analisarmos os discursos, as ações correntes e até mesmo a adesão dos fiscais de locomoção. Já perceberam que quando os números de infectados e mortos estavam baixos, os “jalecados” diziam que era a consequência do milagre da quarentena, unida, é óbvio, à sobriedade dos maravilhosos governadores; mas quando os números explodiram, a culpa obviamente passou a ser da população que não acatou como devia os dogmas da quarentena. Ou seja, “discursalmente” dizendo, a quarentena não tem como dar errado.

As pessoas estão em casa, não há mais baladinha de sábado, shoppings na sexta, nem comércios para as comprinhas de finais de semana. Futebol nas praças? Proibido. Cultos ou missas aos domingos? Deus nos livre. E, graças a Deus, muitos de nossos governadores estão prendendo transeuntes e banhistas por estarem transgredindo a sacrossanta quarentena. Entretanto, os casos só sobem; segundo o prefeito de Nova York, as constatações populares em todo o mundo, inclusive a da atriz Claudia Raia, o isolamento não está barrando a contaminação. E aí? Fico em casa e me contamino ou saio de casa e me contamino?

Fato é que a quarentena não parece tão eficiente assim aqui embaixo, no mundo real. Longe dos apartamentos de luxo dos artistas e dos stories das celebridades, a quarentena não anda convencendo muito não.

Vamos às mortes; alguém me explica o que Minas gerais está fazendo para ter 191 mortos pela COVID (dados do dia 22/05), estado populoso, uma das localidades mais acessadas no país, estado que faz fronteira com Rio de Janeiro (3.412 mortos) e São Paulo (5.558 mortos), epicentros nacionais do contágio e das mortes? Alguém precisa explicar o que tem naquela água.

Por curiosidade, eu moro próximo à fronteira sul de Minas com São Paulo; minha esposa é mineira de Juiz de Fora e os juiz-foranos que me perdoem, mas a displicência dos mineiros com a quarentena me pareceu muito maior do que a dos paulistas. O que explicaria então o número baixíssimo daquele Estado? O queijo? O doce de leite típico?

Aliás, o que explica a denúncia do sindicato dos médicos do Ceará ao Ministério Público por supostas pressões do estado para que os profissionais de saúde atestassem por atacado óbitos por coronavírus? Conspiração do sindicato e dos médicos? O sindicato é bolsonarista? O que explica os números de óbitos baixíssimos no Piauí (91), estado com uma densidade demográfica de 12,40 hab/Km2, em comparação com os óbitos do Ceará (2161), por exemplo, cuja densidade demográfica é de 7.78 hab/Km2?

Não se trata de uma dúvida em relação à seriedade do vírus, ou menosprezo conspiracionista e irracional contra a ciência ― ora, se tem algo que pode nos salvar hoje é a ciência, mas a ciência que não faz política, é claro ―; antes de mais nada: há perguntas sérias que precisam ser respondidas por aqueles que assumiram o papel de liderança nessa crise. Aliás, não são poucos os que pedem esses esclarecimentos, até mesmo o apresentador da Globo, Bocardi, levantou suas dúvidas sinceras em relação aos números de óbitos por COVID-19 ao citar um caso em que uma vítima de atropelamento, cuja complicação clínica que o levou à morte não tinha nada a ver com a COVID-19, mas sim com o acidente sofrido, porém o atestado de óbito afirma: coronavírus. E vá por mim, as denúncias desse teor nas redes sociais já estão no patamar das centenas, talvez milhares.

Novamente: conspiração? Mas tantas pessoas assim conspirando? Todos são bolsonaristas, fascistas e robôs? Todos querem o fechamento do STF, do Congresso, e por isso estão mentindo todos ao mesmo tempo?

Nem vou falar dos testes absurdos e burros que Bruno Covas promoveu em São Paulo; nem das covas no Fantástico. E o superfaturamento explicito e pornográfico na compra de respiradores, máscaras e demais materiais médicos no Rio de Janeiro e, novamente, em São Paulo?

Por fim, enquanto aqueles que precisam alimentar as bocas de suas crias são renegados aos cantões dos idiotas por quererem reabrir seus pequenos negócios, cidadãos que não têm cargos públicos, que sabem que as contas não entram em quarentena e que não existe almoço grátis; enquanto comerciantes se achegam ao limbo da anticiência, seja porque não têm as MARAVILHOSAS linguagens científicas, diplomas brilhosos num quadro e nem APs com as dispensas cheias. Enquanto a realidade dura assola o calcanhar do pobre, os poderosos divagam se fechar os salões de cabelereiros, ao mesmo tempo em que enchem vagões dos trens e ônibus, são medidas efetivas para evitar aglomerações. Enquanto os encastelados testam na realidade suas digressões científicas sobre como travar o trânsito na maior cidade do país a fim de impedir a locomoção de um vírus; ou enquanto decidem quais são os trabalhos ditos “essenciais”, o homem comum tenta saber se amanhã terá pão em sua casa, tenta entender como seu trabalho pode não ser essencial se ele é quem garante o almoço de seus filhos.

Seria mais digno se nossos líderes, desde o Presidente que minora uma doença que mata, até os governadores, que brincam de ditadores e usam vidas humanas como ratinhos de laboratório para municiar suas guerras políticas, assumissem que estão perdidos e que até agora nem os especialistas sabem muito o que fazer. Como Sócrates fazia, na dúvida, diga sempre a verdade.

Pedro Henrique Alves

Pedro Henrique Alves

Filósofo, colunista do Instituto Liberal, ensaísta do Jornal Gazeta do Povo e editor na LVM Editora.