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Da peste negra ao coronavírus: irracionalidade e ideologia

Com nome de peste ou praga, a História registra surtos de doenças infecciosas que atormentaram a humanidade desde tempos remotos. A mais famosa foi aquela chamada “peste negra” (a mesma bubônica, causada pela bactéria Yersinia pestis), que marcou a Idade Média. Tratou-se de um muito alargado surto – pandemia – que veio do Oriente e devastou a Europa por meados do século XIV, com recidivas pontuais pelas gerações seguintes, até, pelo menos, o século XVIII. Entre os anos 1346 e 1353, a peste negra dizimou, na Europa, cerca de 25 milhões de pessoas, o equivalente a um terço da população do continente. Foi um grande desafio com o qual a humanidade teve de lidar.

E muitos são os desafios que temos que enfrentar na construção do nosso progresso individual e coletivo. Junto aos malefícios próprios da doença, as pestes, geralmente, fazem brotar outro malefício: o da irracionalidade, com explosões de imprudência, ódio e oportunismo.

Na irracionalidade de hoje, causada pela pandemia do coronavírus,  teorias da conspiração difundem a narrativa de que o governo chinês desenvolveu o vírus em laboratório para dominar o mundo enquanto incautos desconhecem a efetiva e grave responsabilidade da China, que demorou cerca de dois meses para admitir a contaminação, censurou buscas sobre a doença nas redes sociais, prendeu o médico que divulgou o surto, baniu repórteres estrangeiros que tentaram apurar os fatos, etc.

No caso específico do Brasil, a imprudência ficou por conta dos que foram às manifestações de rua no dia 15 de março, do Presidente da República a se portar de modo contraditório e reprochável na ocasião e de políticos e jornalistas militantes que superdimensionaram o fato para desgastar ainda mais a figura de Bolsonaro quando já estava claro que o inimigo a ser vigorosamente combatido por todos, inclusive pela imprensa, era um vírus e não um homem.

Mas há imprudência também entre liberais, libertários e milionários que, apavorados com a possibilidade de um shutdown global, têm reclamado de que, em meio à pandemia, se tenha dado mais ouvidos aos médicos que aos economistas ou que se tenham afrouxado as restrições fiscais e que governantes estejam mais preocupados com os falecidos em potencial que com os potencialmente falidos.

O ódio e o oportunismo, porém, ficam na conta de intelectuais da esquerda que colocaram a culpa pela pandemia do coronavírus no capitalismo e no liberalismo e acompanharam seu surto de irracionalidade doutrinária com receitas de insurgência revolucionária.

De um artigo do site Brasil 247, basta citar o título: “Coronavírus fortalece o socialismo”. Mesmo teor teve o discurso do doutor e livre-docente em Filosofia e Teoria Geral do Direito da USP, Alysson Leandro Mascaro, para quem “A crise que está estourando não é do coronavírus. A crise que está estourando é do capital. […] A culpa de tudo que temos hoje é do capital. E a solução do problema se chama socialismo. Não posso temer falar isso. Tenho que ter orgulho”.

Por sua vez, Rui Costa Pimenta, presidente do Partido da Causa Operária (PCO), de orientação trotskista, aproveitou o surto do coronavírus para surtar em uma conclamação revolucionária aos moldes da Revolução de 1917. Pimenta elenca nada menos que 32 medidas “para fazer frente tanto à crise do Coronavírus como à crise capitalista. Dentre tais medidas, coisas como a formação de conselhos populares de fiscalização e comitês de controle; estatização de todo o sistema de saúde, dos laboratórios e da produção de equipamentos de saúde; estatização do sistema financeiro; fim das privatizações e cancelamento das já realizadas, etc. Ou seja, medidas que, se aplicadas, dariam todo o poder não aos trabalhadores, mas ao coronavírus.

Muitas pestes foram vencidas pela humanidade. A peste da ideologia marxista que infectou o século XX foi parcialmente vencida, mas a vitória não foi completa e definitiva. É preciso admitir que estamos, ao mesmo tempo, em batalha contra ela e contra a pandemia que ela tenta instrumentalizar.

Catarina Rochamonte

Catarina Rochamonte

Catarina Rochamonte é Doutora em Filosofia, vice-presidente do Instituto Liberal do Nordeste e autora do livro "Um olhar liberal conservador sobre os dias atuais".