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Covid-19: o tamanho da encrenca

No último dia 20 de junho, a imprensa noticiou com grande destaque que o Brasil havia ultrapassado, na pandemia, a marca de um milhão de casos. Sem dúvida, trata-se de um numero para lá de significativo e que não deixa de conter elevado potencial impactante. Não obstante, observada tal marca à luz da realidade demográfica do país, a impressão que fica toma outra feição. Com efeito, diante da população brasileira, da ordem de 210 milhões de almas, o número de infectados representa tão somente 0,48% dos habitantes do país, ou seja, menos de meio por cento da nossa população. O que indica que, mais de 99,5% dos que vivem no Brasil, até aquela data, não teriam sido infectados pelo novo coronavírus. Atualmente, segundo o consórcio de veículos de imprensa formado por Estado de São Paulo, O Globo, G1, Folha de S. Paulo e UOL,  o registro do número total de infectados já teria passado de um milhão e setecentos mil, o que representa cerca de 0,9% dos habitantes, número ainda abaixo de 1% da nossa população – o que significa que, nos dias que correm, segundo os registros oficiais disponíveis, mais de 99% dos habitantes ainda não teriam sido infectados.

Não são desconhecidas, nem negligenciáveis, as suspeitas de subnotificação de casos de infecção. Sem embargo, dentro dos limites razoáveis desse tipo de ocorrência, ou seja, excluídas especulações mirabolantes e fantasiosas, por maiores que possam efetivamente ser as dimensões de tais subnotificações, digamos, suficientes para dobrar, triplicar ou quadruplicar o verdadeiro número de casos, ainda assim, a verdadeira incidência da doença teria atingido, se tanto, quatro por cento da população – o que significaria que 96% da população teriam, até então, escapado da contaminação. Esses são, portanto, os números dos registros oficiais.

Já a pesquisa denominada Epicovid-19, feita pelo IBOPE e divulgada pela Universidade Federal de Pelotas, feita por amostragem, aponta para um número bem mais elevado de infectados, presentemente na casa de oito milhões de pessoas no país. Se vier a ser comprovado que esta é, verdadeiramente, a realidade do Brasil, teríamos então 3,8% da população infectada. Ou seja, o percentual de não infectados seria de 96,2% da população. mas, com todo o respeito às instituições responsáveis por tal pesquisa realizada em cidades selecionadas e depois expandida para todo o país, tais números, substancialmente distantes dos dados oficiais, para serem efetivamente considerados como o fiel retrato da realidade, careceriam ainda de uma certificação por entidade de amplo reconhecimento nacional ou internacional.

Todavia, a revelação desses grandes agregados não quer dizer que estamos diante de um problema menor e sem a devida gravidade. A situação é, sim, dramática sob todos os aspectos, em especial para aqueles que contraíram o vírus e, sobretudo, para os que, em função da pandemia, perderam seus entes queridos e para quem o sofrimento e a tristeza são incomensuráveis.

Por outro lado, os impactos negativos sobre a economia e os orçamentos familiares são, por seu turno, estatisticamente, se for possível tal classificação, mais do que gigantescos. Dados da Pesquisa Nacional por Amostras de Domicilio (Pnad Covid19) indicam que cerca de 16 milhões de pessoas deixaram suas atividades por causa do isolamento social e que o grupo dos que ficaram sem praticamente nenhuma ou residual remuneração é de perto de dez milhões de residentes. Além desses, há os que perderam parte significativa de seus rendimentos, número que pode superar, e muito, os do grupo anterior. Assim, a devastação na economia pode ter atingido até mais de 30 milhões de pessoas economicamente ativas. Desse modo, se considerarmos que a maior parte desse contingente é composta por chefes de família, o número de pessoas seriamente afetadas economicamente pelo vírus, contando com os dependentes, pode ser multiplicado por algo entre três ou quatro. Ou seja, podemos estar diante de um desastre econômico com potencial para atingir seriamente, senão mais, perto de cem milhões de pessoas, quase a metade da população do país. Isto para não falar no estrago esperado nas contas públicas da União, estados e municípios, e suas inevitáveis consequências. Somente o déficit da Previdência deve aumentar o triplo do esperado para o presente exercício. Com o país, tecnicamente, em recessão, a devastação econômica poderá ser efetivamente de gigantescas proporções.

Já a encrenca no plano da saúde – com o advento de, pelo menos, uma vacina de comprovada eficácia, dentre as que estão em fase de desenvolvimento – deverá estar em breve sob controle. Ao contrário, a tormenta econômica, além de suas dimensões, levará anos para ser contida.

Mesmo assim, nem tudo está perdido. Por aqui, em nosso país, com muito trabalho e dedicação e, sobretudo, com alguma paz, teremos condições de reunir as bases necessárias para o enfrentamento e superação da tormenta. Para tanto, não obstante, precisamos de união, a começar pelas forças políticas da Nação, além da recuperação da perdida harmonia entre os poderes da União – associados tais requisitos, obviamente, à indispensável conjugação de esforços entre nossos entes federativos. Este o desafio maior que podemos vislumbrar à nossa frente. Realisticamente, não se trata de uma tarefa prosaica de singelo equacionamento e fácil realização. Em tese, o conhecimento do tamanho e da natureza do problema constitui apenas um primeiro e básico requisito para a superação de qualquer desafio, seja este de que natureza for. Infelizmente, em relação à pandemia e seus efeitos, é apenas o que temos por enquanto.

*Marcos Poggi é economista e membro do Conselho Diretor da Associação Comercial do Rio de Janeiro. 

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