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A consequência do envolvimento dos militares da ativa com a política

Há poucos dias publiquei um artigo intitulado “Os militares devem se envolver com política?”, em que defendia que militares da ativa deveriam se abster de se integrar a governos – há que se discutir a vedação legal disso também – em cargos não diretamente relacionados com sua área de expertise, havendo risco de associação da imagem das Forças  Armadas, como instituições de Estado permanentes, com governos de ocasião. Disse que isso poderia macular – especialmente em um governo como o de Bolsonaro, que carrega o gene da polêmica – a imagem destas. Diante dessas considerações, assistir à contenda entre elas e o ministro Gilmar Mendes me faz, antes de tudo, inquirir: o que exatamente os militares esperavam?

Em que pese questione se é cabível a um ministro do STF se devotar a tais palpites políticos, não posso deixar de pontuar que o termo “genocídio” por ele usado obviamente não pode carregar a mesma conotação que normalmente associamos a episódios históricos de extermínios em massa, podendo ser visto no máximo como uma figura de linguagem, ainda que hiperbólica. Nessa linha, em minha concepção, ainda que o presidente Jair Bolsonaro não possa ser responsabilizado por todas as mortes, ainda que tenha a responsabilidade compartilhada com estados e municípios (não é exclusiva destes entes, como propagam por aí), não tenho dúvidas de que ele é sim indiretamente responsável por grande parte delas e pelo insucesso em evitá-las. Isso não se dá apenas por conta de comportamentos erráticos do presidente, como ir a manifestações, andar pelas ruas de Brasília, gravar pronunciamentos apequenando o vírus (gripezinha), entre outras barbaridades que estimulam seus milhares de seguidores a emularem-no, mas por meio de ações específicas, tendo a principal delas motivado a declaração de Mendes.

Resumo novamente a cronologia: primeiro ministro da Saúde demitido por não se curvar ao discurso do presidente. Segundo ministro pediu para sair com menos de um mês por não se curvar ao propagandismo da cloroquina ensaiado pelo governo, a qual, nunca é demais lembrar, não tem eficácia comprovada no combate ao covid-19. Por fim, a posse de um general, ministro interino, que permanece no cargo até hoje. Essa sucessão de fatos aponta para o que se sabia desde o princípio: Bolsonaro não descansaria enquanto não conseguisse colocar o Ministério da Saúde a serviço da sua agenda. Hoje o Brasil é o segundo país em número absoluto de mortos – e lá se vão dois meses sem um titular na pasta da Saúde, em meio à maior pandemia em um século. Tampouco há previsão da nomeação de um titular e tudo leva a crer que Pazuello permanecerá no cargo durante toda a pandemia. Agora, qual a raiz da estabilidade do interino no cargo, contrastando com o destino dos predecessores? Não poderia deixar de ser outra coisa senão o alinhamento com o obscurantismo presidencial. Tanto isso é verdade que o interino protagonizou o efêmero e vergonhoso episódio do “apagão de dados”. Agora, quem emprestou a face para essa agenda? Isso mesmo, um general. Além disso, há cerca de 332 militares da ativa ocupando cargos no Ministério.

Diante da ópera, encenada para quem não é cego e quer ver, chega a ser cínica a ira dos comandantes militares, movimentando, inclusive, a PGR contra o Gilmar Mendes. Trata-se da consequência, na prática, do que alertei no referido artigo. Se os militares da ativa resolvem fazer política, não podem esperar não apanhar como políticos. Se os militares da ativa que querem fazer política não querem que as críticas respinguem no bom nome das Forças Armadas, que não façam política, oras. O que não dá é para integrar um governo civil e agir como se estivessem no quartel.

Não faço aqui o papel de advogado do Gilmar Mendes e acho que o ministro em várias ocasiões bancou o analista despropositadamente; apenas peguei um gancho da sua fala para desenvolver o raciocínio. Ocorre que Gilmar não está sozinho e, se estivesse, não me daria ao trabalho de escrever este artigo. Fosse a imagem das Forças Armadas associada com o governo, e especialmente com a desastrosa condução do governo Bolsonaro diante da pandemia, apenas pelo ministro, essa associação seria irrelevante, mas é significativa a parcela da população que faz essa associação. Falar isso pode me angariar o rótulo de antipático com as Forças Armadas, mas é justamente o contrário. É contraditório que tantos autointitulados “conservadores” não se preocupem em zelar pela reputação das instituições, especialmente daquelas com as quais tanto costumam simpatizar.

No momento em que escrevo este artigo, o Brasil contabiliza 72.921 mortos pelo coronavírus. Os que diziam que não morreriam mais do que alguns poucos milhares se fazem de desentendidos, continuam insistindo no devaneio da cloroquina e, pasmem, redigem toscos manifestos contra o uso das máscaras, bem como outras mesquinharias do tipo, enquanto milhares de compatriotas pranteiam os entes queridos. Se suas previsões estivessem corretas e se o presidente estivesse certo em ter dito que se tratava de uma “gripezinha”, ninguém falaria em genocídio. Usou-se o termo porque o presidente e seus apoiadores investiram em uma narrativa que não é confirmada pela realidade. Ainda que os militares do Ministério da Saúde não respondam por todos os militares no país, ao fazer coro à aposta, lançaram uma mácula na instituição que representam. Não foi por falta de aviso.

Gabriel Wilhelms

Gabriel Wilhelms

É licenciado em Música e graduando em Ciências Econômicas, atua como colunista e articulista político.