Coronavírus: ninguém errou tanto quanto a China e a OMS

Em momentos de crise acentuada, a prudência sempre se impõe como a principal das virtudes. O porquê disso é muito simples: quando a multidão está furiosa, o primeiro a ser apontado como inimigo tende a ser esfolado, na maioria das vezes, sem um justo julgamento e sem a devida cautela investigativa.

Na Alemanha moralmente despedaçada do pós-Primeira Guerra, por exemplo, bastou um retardado com uma teoria racial mirabolante para convencer boa parcela do povo alemão de que eram os judeus os culpados pelos antigos e recentes fracassos históricos daquele país. Por isso mesmo, todo cuidado é pouco ao julgarmos situações delicadas que afetam os aspectos emocionais e econômicos dos indivíduos.

No entanto, após tomar todas as precauções morais e garantir a sanidade mental e política dos juízes, cabe aos sábios procurar as causas mesmas da pandemia que matou e ainda mata, deixou e ainda deixa em frangalhos dezenas de nações ao redor do mundo. E buscar as causas inclui também apontar os culpados, sem nenhum medo. No caso da COVID-19, o ato de culpar o governo chinês e sua burocracia não se trata de revanchismo, perseguição política, muito menos xenofobia, mas de constatação óbvia dos fatos; foi a ingerência e a ideologia comunista ― munida de toda incapacidade de lidar com a realidade, e sua sempre presente sede ilusória de perfeição política ― que causou, ou ao menos amplificou, toda essa pandemia do novo coronavírus.

Segundo a Fox News americana, é possível que o vírus tenha saído acidentalmente de uma das instalações laboratoriais do governo chinês em Wuhan; tanto o governo quanto a inteligência já não tratam mais essa possibilidade como mera “teoria da conspiração”. Tal teoria, que inicialmente fora descartada pela maioria dos especialistas e analistas até mesmo da inteligência americana e britânica, parece agora ganhar corpo através de duas vias: a primeira, a que afirma que há infectados da primeira leva que não tiveram contato algum com o mercado atacadista ou com pessoas que lá estiveram ― mercado esse considerado a origem mais provável da transmissão; a segunda via é a suspeita de especialistas diante da proximidade do epicentro da contaminação e o laboratório químico que manipulava o referido vírus em Wuhan. Richard Ebright, professor de biologia química e especialista em armas biológicas da universidade Rutgers, já havia ventilado essa possibilidade no começo de abril, apesar de dizer que não havia evidências para isso, apenas fortes suspeitas que não deveriam ser prontamente descartadas.

Todavia, a ausência de provas não é ela mesma prova da ausência e a atuação obstinada da China em esconder os rastros do vírus denota que o início do contágio pode se ter dado pela incompetência e ingerência pura e simples do Partido Comunista Chinês (PCC) e não de forma natural, tal como a Organização Mundial da Saúde (OMS) está semanalmente reafirmando junto com o governo chinês. A desconfiança advém do simples fato de que, diante de uma pandemia global, não há o que esconder, mas sim o que abrir de informações o mais rápido possível a fim de conter o contágio e salvar vidas; a China atuou de forma religiosamente contrária e até o momento não temos informações exatas que deem conta da origem do vírus, número real de contágio, mortes e recuperados naquele país.

Por que tanta persistência em encobertar e silenciar aqueles que alertaram sobre a doença em Wuhan? Por que a China trabalha para que textos científicos sobre a COVID-19 passem antes pelo crivo ideológico do governo comunista? O que fica claro é que, se estão tentando esconder, é fato que o que revelaram até aqui é totalmente ou parcialmente mentira.

Ai Fen, médica diretora do departamento de emergência do Hospital Central de Wuhan, afirmou à revista People que após obter, no final de dezembro de 2019, um relatório de uma amiga sobre uma infecção pulmonar preocupante, recebeu ordens de seus superiores para se calar sobre isso. Seguindo sua consciência e não as ordens ideológicas do PCC― consciência moral, o mal que de Karl Marx a Fidel Castro os comunistas tentam vencer ―, a médica, apesar da reprimenda dos funcionários do governo, ainda compartilhou a foto do referido relatório no WeChat, uma plataforma de chat bastante utilizado na China, uma espécie de WhatsApp. Foi por lá que o médico oftalmologista Li Wenliang conseguiu as informações do surto e também tentou alertar o mundo; posteriormente foi silenciado pelo partido e mais tarde morreria pelo COVID-19.

Além desses casos, relatórios de inteligência ao redor do globo, após algumas semanas da epidemia declarada, começaram a denunciar que o PCC ― mais especificamente o presidente Xi Jinping ― já sabia da gravidade da situação pelo menos 6 dias antes de vir a público falar que a situação estava fora de controle em Wuhan, no dia 20/01 – e o pior, quase um mês antes da declaração de Xi Jinping, a OMS afirmou, no dia 31/12/2019, que as autoridades chinesas não haviam encontrado evidências de transmissão de pessoa para pessoa e que o risco do vírus era “moderado”, o que era mentira, pois, segundo o Comitê Municipal de Saúde de Wuhan, desde o dia 12/12/2019 era conhecido um surto de pneumonia viral de ordem desconhecida e altamente contagiosa naquela região e já no dia 20/12/2019 ― ou seja, 11 dias antes da já referida declaração da OMS e 31 dias antes da declaração de Xi Jinping ―, um relatório do governo chinês, noticiado pelo South China Morning Post, afirmava que existiam evidências reais de transmissão de pessoa a pessoa pelo novo coronavírus. Por fim, para completar as desinformações e trapalhadas de Tedros e seus amigos chineses, no dia 09/01 a OMS lançou uma nota afirmando que “não recomenda medidas específicas para os viajantes. A OMS desaconselha a aplicação de quaisquer restrições de viagem ou comércio na China com base nas informações atualmente disponíveis” e, no dia 23/01 ― 34 dias depois do relatório amplamente noticiado pelo South China Morning Post ―, a organização reafirma seu erro, afirmando que “ainda é cedo para ser considerado uma emergência internacional”. Ao todo, foi mais de um mês de desinformações chinesas, incompetências e alinhamento no erro da OMS; esse tempo, sem sombras de dúvidas, foi crucial para o novo coronavírus se espalhar pelo planeta.

Fica clara, assim, a incapacidade de obtenção de respostas claras da OMS, assim como seus erros constantes em avaliar os riscos reais de uma pandemia global. A organização que, por princípio, deveria saber com máxima rapidez de situações que afetam a saúde global, mostrou-se completamente inapta para aquilo que nasceu para fazer. Ou é incompetente ou alinhada ideologicamente ao Partido Comunista Chinês – e por isso havia rabos presos que impediam a organização de:

1- declarar abertamente a seriedade do contágio,
2- denunciar as desinformações do governo chinês em relação ao novo coronavírus,
3- assim como denunciar à ONU as prisões arbitrárias dos médicos que tentaram alertar o mundo da seriedade do vírus ― tais médicos fizeram sozinhos o trabalho que a OMS recebe oceanos de dinheiro para fazer.

Fato é que o atraso na declaração de Xi Jinping, no final da reta, significou milhares de mortes que poderiam ter sido evitadas e, quiçá, uma epidemia que poderia ter sido controlada. A informação dada pelo PCC ― e replicada prontamente pela OMS sem nenhuma verificação in loco ― de que a pandemia possivelmente não era transmissível de pessoa a pessoa, provavelmente foi a segunda grande causa da pandemia ― reconhecendo nos primeiros contágios o ponto inicial ―; a desinformação, que sempre foi a filha amada do comunismo desde quando era apenas um nascituro entre os iluministas franceses, fez novamente mais alguns montes de corpos ao redor do mundo.

A autoridade da OMS endossando a desinformação chinesa fez com que países ao redor do globo não tomassem as medidas cautelares necessárias a tempo; muitos países sequer entenderam a gravidade da situação até que seus hospitais estivessem abarrotados e seus aparelhos médicos básicos, esgotados. Independentemente da posição política de cada um, devemos reconhecer o fiasco real que é a atuação da OMS sob a gerência de Dr. Tedros nessa situação pandêmica.

Não importando nesse instante como findará tal história, independentemente sobre como passaremos por essa crise mundial, fato é que os nomes devem ser dados aos bois. Não acusar o governo chinês pelo início do contágio ― caso se confirme o vazamento acidental ou não do laboratório ― ou pela total incompetência em gerir a situação de contágio, claramente preferindo manter a tintura fétida da ideologia comunista ante as vidas que estavam sendo ceifadas pelo vírus, é o mesmo que declarar subserviência mundial a um país. Calar o instinto de justiça por medo de represálias comerciais é o mesmo que vender vidas por medo. Muitos países erraram, mas nenhum como a China; muitos governos e instituições falharam na prevenção, mas nenhum como a OMS ― recomendo o ótimo documentário produzido pelo Spotniks sobre o assunto.

Preocupações diplomáticas e comerciais não podem impedir a humanidade de apontar os culpados dos erros que assolam essa mesma humanidade; é como dizer a uma mulher espancada que não denuncie seu marido agressor porque é ele quem traz pão no fim do dia. Se é absurdo aconselhar o silêncio de uma vítima frente ao seu algoz, por que seria sabedoria silenciar nações frente a um partido que consome vidas através de uma ideologia incompetente e assassina?

Desta mesma maneira, não constatar a atuação pífia ― para não dizer condizente ― da OMS com o PCC é negar o óbvio. A OMS foi no mínimo incompetente, talvez uma serva das causas chinesas. Todos os países com certa independência ideológica da China sabem que os números revelados pelo PCC são mentirosos, que os tratamentos e estratégias lá adotados não passam de palavras amorfas em papeis timbrados. Ninguém acredita nos números da China, só a OMS; ninguém acredita nas estratégias de contenção da China, só a OMS; nenhum homem sensato acredita na ideologia da China, somente os homens da OMS parecem acreditar. Por que deveríamos nós, então, acreditar na OMS e na China?

Referências:

https://www.foxnews.com/politics/coronavirus-wuhan-lab-china-compete-us-sources?fbclid=IwAR2eXC4SLFbT4ZLqN7HnH9Z-tH9wMYOB_uyewk4yTURHicZZOYiCs4-Iby4 (Acessado:
17/04/2020, às 17:01)

https://www.gazetadopovo.com.br/mundo/breves/china-restringe-publicacao-de-artigos-cientificos-sobre-origem-da-covid-19/?ref=link-interno-materia (Acessado: 17/04/2020, às 17:05)
https://ultimosegundo.ig.com.br/mundo/2020-03-31/medica-que-denunciou-surto-de-coronavirus-em-wuhan-na-china-esta-desaparecida.html (Acessado: 17/04/2020, às 17:14)
https://www.who.int/csr/don/05-january-2020-pneumonia-of-unkown-cause-china/en/ (Acessado: 18/04/2020, às 14:34)
http://wjw.wuhan.gov.cn/front/web/showDetail/2019123108989 (Acessado: 18/04/2020, às 14:40)
http://wjw.wuhan.gov.cn/front/web/showDetail/2020010509020 (Acessado: 18/04/2020, às 14:47)

https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMoa2001316?query=featured_home (Acessado: 18/04/2020, às 14:51)
https://www.who.int/china/news/detail/09-01-2020-who-statement-regarding-cluster-of-pneumonia-cases-in-wuhan-china (Acessado: 18/04/2020, às 14:55)
https://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/2020/01/23/oms-diz-que-ainda-e-cedo-de-declarar-emergencia-internacional-por-coronavirus.ghtml (Acessado: 18/04/2020, às 15:05)

https://www.youtube.com/watch?v=_V4r5ibOm5g (Acessado: 18/04/2020, às 17:30)

 

Pedro Henrique Alves

Pedro Henrique Alves

Filósofo, colunista do Instituto Liberal, ensaísta do Jornal Gazeta do Povo e editor na LVM Editora.