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Coronavírus: erros sem acertos

Numa epidemia de peste na Itália em 1629, o lugar da mais avançada medicina do mundo nessa época, eram recomendadas, para afastar os maus espíritos, preces, confissões, promessas, penitências, sangrias, cristais de arsênico nos pulsos e têmporas, saquinhos de pedras preciosas sobre o coração, unguentos a partir de excrementos de animais com mostarda, pó de vidro, terebentina e cebola ou cauterização de bubões com ouro ou ferro incandescente, cobrindo-os com folhas de repolho, cortá-los, sugar o sangue por três sanguessugas, tapando-as com pombo esquartejado ou galo depenado. Transpondo no tempo, relativizando e levando em conta todas os progressos sociais e tecnológicos adquiridos dessa época até hoje, parece que não mudou muita coisa quando a humanidade enfrenta um evento para o qual não tem resposta pelo método científico.

A verdade é que, na atual pandemia, as populações, aterrorizadas por inconsistentes chavões repetidos por uma mídia avassaladora, a maioria por puro palpite e interesse – desvinculada de orientação científica e profissional competente, isenta e pragmática -, submetem-se a uma ditadura de condutas em que menos são ouvidos os conhecedores da matéria. Como todos são técnicos de futebol, agora todos palpitam sobre como melhor combater o coronavírus, principalmente quem menos entende do assunto: midiáticos, políticos, juízes. Ficam propondo absurdos e punições sobre supostas infrações a regras inúteis ou prejudiciais.

Para começar, a divulgação não obedece a outro critério que não seja bombardeio com números absolutos: não há grupo de controle, não há comparação com outras doenças, não há determinação de comorbidades, as estatísticas são cheias de vieses, confundem positividade com doença ativa, fazem as pessoas pensar que só esse vírus mata, desconsiderando milhares de outras causas mais frequentes. Nunca houve na história da humanidade um histerismo tão focado num único fato. Desconsideram as piores consequências dos subprodutos  das medidas mortais que tomam, como a criminosa destruição da economia apenas por testagem de condutas sem comprovação de benefícios: desemprego, desespero, miséria, depressão, fome, suicídio, neuroses em crianças e adultos, soltura de bandidos perigosos, infartos crescentes, atropelamentos, assaltos, feminicídios, brigas de vizinhos, intensificação de fumo, álcool, drogas e mais., todas conhecidas condições alavancadoras de óbitos. Se forem computadas mortes por esses desfechos sobre a população, certamente superarão aquelas causadas pelo vírus. Como são efeitos ofuscados pelo espetáculo televisivo, para a grande mídia e políticos oportunistas não interessa computar.

O curso de toda epidemia depende de três condicionantes: 1) adaptação do agente infeccioso a vários locais e climas; 2) suscetibilidade individual e resistência imunológica; 3) medidas preventivas e terapêuticas adequadas. A verdade é que na atual pandemia as três condições são pouco conhecidas, por falta de experiência prévia, já que se trata de um novo agente. Porém, levando em conta aspectos gerais de outros surtos epidêmicos,  é certo que algumas condutas não se justificam e prejudicam. Nenhuma dessas medidas, como têm sido aplicadas, tem qualquer respaldo científico, nunca foram comparadas com outras, representam puro palpite e deixam impunes os autores ao destruir a vida de milhões de pessoas. Na verdade, a política de saúde começou errada e continua errada, prolongando o surto e, pior, suas mais maléficas consequências, citadas acima.

Confinamento: Levando em conta a sazonalidade, exageraram num isolamento social em pleno verão, quando o contágio era mínimo, exauriram a paciência da população, que, agora no inverno, quando poderia ser mais necessário, põe em dúvida essa medida. Absurdamente obrigaram as pessoas a confinarem-se em apartamentos pequenos, mal ventilados, sombrios, enquanto os parques e praças ensolarados, melhor local para combater o vírus, eram fechados, sem nenhuma explicação razoável, simplesmente porque não há explicação razoável para isso. Exageraram com incoercível espírito de imitação em medidas tomadas no norte da Itália, numa realidade diferente da nossa. Se é preciso afastar pessoas devido ao contágio, que limitassem razoavelmente presença nesses locais, com conveniente afastamento. Quase proíbem de andar nas ruas, mas permitem que passageiros se aglomerem, encostando-se em ônibus superlotados, porque a frota é insuficiente para a demanda. Nesse caso não há controle de entrada.

Máscaras: O maior engodo. Viraram estereótipo universal, ausência punida como invocação do diabo na Idade Média, verdade única inapelável. Leigos convertidos consideram prepotente quem não as usa na rua. Entretanto, essa consideração decorre de ignorância. O certo é que máscara só serve para evitar perdigotos, mas nem o mais eficiente perdigoteiro os emite a mais de metro. Então não têm serventia fora de aglomerações intensas. Lavar as mãos, manter distância conveniente, evitar contato físico suspeito é muito mais eficiente. Máscaras não protegem contra o vírus, como a Globo e outros apregoam e, ao contrário, se a atmosfera contiver vírus, o concentram ao redor da boca. Ao lado disso prejudicam a respiração, porque o ar expirado, rico em bióxido de carbono, é reinalado, aumenta a acidificação do sangue e favorece o vírus. Correr de máscara então é um absurdo fisiológico: mais gás carbônico é absorvido num momento em que o organismo precisa é de mais oxigênio. Como a máscara só serve para evitar perdigoto até um metro de distância, é triste ver incautos caminhando mascarados numa rua deserta ou a usando sozinho dentro de um automóvel. É um atentado à saúde pública e ao bom senso. Como a ignorância grassa, talvez os ferrenhos doutos que obrigam a usá-las não saibam disso. Se souberem, é má intenção para fingir que estão tomando providências.

Achatamento da curva: Toda epidemia tem início, pico e fim, é a inexorável história natural. Uma epidemia não cessa enquanto a maioria da população não se imuniza naturalmente ou por meio de vacina. Como não há vacina para o corona, a epidemia não cessará enquanto o contingente populacional necessário não adquirir imunidade. Assim é que “achatar a curva” só serve a dois propósitos: proteger o sistema de saúde sucateado e depredado, deixando os gestores tranquilos, embora tivessem pedido tempo, não cumprido, para aparelhar os hospitais e, pior, prolongar a agonia da população com uma epidemia que não passa. Querem fugir à realidade de uma pandemia sem vítimas. O tal “achatamento da curva” como foi previsto só empurra a pandemia para a frente e é isto que está acontecendo. Essa OMS, além de comprometida com a China, pois escondeu a divulgação da doença, permitindo que milhões de chineses invadissem os Estados Unidos e a Europa, com toda a tranquila incompetência anuncia a tragédia já prevista, a segunda onda, resultado de medidas mal conduzidas. Passou a hora de descartar esses ilusionistas a serviço da destruição do ocidente. Putin, que diz ter abjurado do comunismo, não os menciona nem os considera.

Agressão a direitos humanos: As pessoas perderam o direito à autonomia, viraram robôs conduzidos pela vontade de políticos de segunda ou terceira categoria que só visam a benefícios eleitorais, eficazes na prepotência de proibir, mandar, obrigar, punir, multar. Medidas discricionárias que estão tomando significam perigoso controle social e, se a população não reagir, cairá nessa. A desculpa é proteger a saúde. Mentira, porque, como visto, as medidas tomadas não têm a menor comprovação científica e muitos dos mais expressivos imunologistas e epidemiologistas, até prêmios Nobel, que não são ouvidos, as condenam definitivamente; é uma vergonha. Inacreditavelmente, a prefeitura de Porto Alegre anunciou multar pessoas com mais de sessenta anos andando na rua. Essa grotesca estultice é inconstitucional e deveria ser identificado o cérebro maléfico que engendrou tal monstruosidade. Além de ignorante sobre fator de risco, não sabe ser o fator biológico que fragiliza a pessoa e não a idade saudável. É justamente proibido, com penas legais previstas, discriminar por raça, sexo, religião, política, mas, para esses incompetentes, por idade, não.  O prefeito deveria saber que nenhum decreto municipal, a que título for, pode retirar direito constitucional. Dizem proteger os velhos, mas apenas os estigmatizam como fontes do vírus. Se fosse por grupo de risco então deveriam identificar e  proibir a circulação de hipertensos, diabéticos, sedentários, enfisematosos, fumantes, bronquíticos, cardiopatas e outros com maior risco do que a idade. A maioria dos velhos que pegam coronavírus são os muito idosos, incapacitados, amontoados em asilos, isolados como querem, não os que caminham na rua. A maioria das pessoas no comando de grandes empresas, nos postos mais altos do governo, nos ministérios, no parlamento, no judiciário, nas universidades encontram-se nessa faixa etária, até o presidente.

Como a lei é igual para todos, deveriam ir para casa. Terão coragem de multar o desembargador de 65 anos, o deputado de 70, o empresário de 75, o coronal de 61, o médico de 80? É claro que não, porque receberiam um processo por assédio moral, constrangimento ilegal e abuso de autoridade. É claro que sobraria só para o velho anônimo e ignorante de seus direitos; mas esses cínicos defensores da liberdade continuam enganando.

Custo social: Desvirtuando a história natural de uma epidemia – para autoproteção da malversação gerencial de recursos -, querem evitar o inevitável, fazendo a imensa maioria da população desassistida pagar uma conta que não contraiu. Empresas falidas, desemprego, desesperança geram outros males, como vimos, e provocam mais mortes. Funcionários públicos que estão em casa em férias remuneradas (não é culpa deles) não sentem o problema da imensa maioria de ambulantes, diaristas, ocasionais, particulares, informais, empregados que ganham o dia a dia. Não é justo amarrar essas pessoas em diretrizes experimentais, que são a maioria das medidas tomadas contra a pandemia. Basta controlar efetivamente a frequência em locais mais procurados, shoppings, bares, restaurantes, lojas, empresas com suficiente afastamento, sem matar as pessoas de fome, porque, também, o auxílio governamental atinge uma minoria e é impossível emitir dinheiro sem parar de aumentar uma já escandalosa dívida pública. É claro que o preço dessa conta ainda não chegou e insisto em que tantos despropósitos praticados por governantes despreparados causam mais malefício social do que o próprio vírus, que é algo grave, que precisa ser combatido, mas com competência, com transparência, enfrentando a realidade, disponibilizando recursos materiais e humanos.

É claro que quando ficarem demonstrados todos os equívocos de conduta, para a época atual comparáveis ao tratamento da peste em 1629, talvez peçam desculpas, dirão que não avaliaram bem as circunstâncias, mas não indenizarão todo o estrago feito. A população, obediente e crente, ficará com as máscaras nas mãos.

*Carlos A.M. Gottschall é médico (CREMERS 2862), membro titular da Academia Sul-Rio-Grandense de Medicina e membro titular da Academia Nacional de Medicina.

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