Contra a intervenção na Síria

MARIO GUERREIRO*

Guerra civil na Síria: soldado com máscara contra gás, usando uma AK47.

Sou contra a intervenção militar na Síria e pelos mesmos motivos que fui contra a intervenção na Líbia de Kadhafi e seria contra a intervenção no Egito de Mubarak, caso tivesse sido proposta.

Mas não foi, pois sabemos que Mubarak foi derrubado pelas próprias facções egípcias antagônicas a ele.

No tempo das manifestações na Praça Tahir, no Cairo, falava-se muito, na mídia nacional e internacional, numa “primavera árabe”, como se bastasse o desejo de alguns egípcios esclarecidos, para que viesse a ser inaugurada uma democracia em um país muçulmano. Santa ingenuidade!

O que se viu foi rapidamente a “primavera árabe” se transformar no inverno da nossa desesperança.

Nos países árabes regidos pela Shariah – a lei islâmica baseada no Corão – não há espaço para uma experiência democrática. O único país islâmico que conquistou a democracia foi a Turquia.

Com a decadência do Império Otomano, após a Primeira Guerra, Mustafá Kemal Atatürk (O Pai dos Turcos) tomou o poder e transformou a Turquia em uma república.

Na realidade, uma ditadura republicana que, mais tarde, se transformou numa república parlamentarista, tendo até uma mulher como Primeiro-Ministro, coisa impensável nos demais países muçulmanos onde a mulher é tratada como um cidadão de segunda categoria. Ela não pode dirigir nem automóvel, quanto mais um país!

[E pensar que hoje até mesmo a democracia turca, duramente conquistada, está sob a grave ameaça de um retrocesso proposto por grupos islâmicos fundamentalistas].

Fora essa honrosa exceção da Turquia, em que há uma separação da religião do Estado e em que o direito tem seu fundamento no Direito Romano, os países muçulmanos são monarquias absolutistas.

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Como todas as monarquias europeias até o século XVIII, antes da Revolução Francesa (1789), com a ilustre exceção da Inglaterra. Esta se tornou uma monarquia constitucional com a Bill of Rights, promulgada em 1689, um ano após a Revolução Gloriosa ou Bloodless Revolution, pois não houve derramamento de sangue, apenas um soberano absolutista foi defenestrado do trono.

Até a Primeira Guerra fica mesmo difícil falar em “nações” árabes. O que havia eram tribos árabes unidas somente pela mesma língua e pela mesma religião: o islamismo.

Quem viu o filme Lawrence da Arábia, de David Lean, viu o que aconteceu após essas tribos árabes terem expulsado os otomanos com a ajuda dos britânicos. O tenente Lawrence fez uma reunião em Damasco com a finalidade de fundar uma nação árabe, e o que se viu foram as inimizades, picuinhas e particularismos tribais prevalecendo.

Só um pouco mais tarde que o príncipe Saud, com a ajuda dos britânicos, conseguiu fundar uma nação, hoje a Arábia Saudita, onde impera o patrimonialismo da dinastia Saud, no exato sentido que Max Weber cunhou esse termo.

O que havia na Líbia era o governo despótico de Kadhafi combatido por facções contrárias e desejosas de mudar de governo, não de acabar com o despotismo.

No Egito, a mesma coisa, só que os desejosos de mudança eram os membros da Irmandade Muçulmana, que acabou se tornando um partido clandestino atualmente, bem como islâmicos fundamentalistas e terroristas, como os de Al Hamas no poder na Autoridade Palestina do finado Yasser Arafat, que Allah o tenha.

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E o que vemos agora na Síria? Uma guerra civil que já produziu milhares de mortos porque algumas facções rebeldes querem derrubar o tirânico Bashar Al-Assad.

Para que? Fundar uma democracia? M’engana qu’eu gosto. Eles querem mudar de governo, mas não o regime político.

Mutatis mutandis, no Brasil em 1964 – em plena guerra fria e bipolarismo dos EEUU contra URSS – guerrilheiros como Marighela, Lamarca, Dilma, Genoíno et caterva queriam derrubar um governo militar de exceção.

Mas não para estabelecer uma democracia, como mais tarde falsamente alegariam, porém para implantar uma ditadura nos moldes cubanos.

Adultos e crianças em Ghouta massacrados por ataque químico.

Os que defendem uma intervenção militar na Síria de Bashar Al-Assad apresentam como justificativa o uso que tem feito esse ditador de armas químicas.

Como se sabe, os alemães as usaram na Primeira Guerra, mas posteriormente elas foram consideradas crime de guerra pela Convenção de Genebra, tanto que na Segunda Guerra – apesar dos horrores das câmaras de gás nazistas – as armas químicas não foram usadas por eles em nenhuma batalha.

Voltaram a ser usadas por Saddam Hussein contra a minoria curda no norte do Iraque, na fronteira com a Turquia, e serviram de pretexto para George W. Bush iniciar a segunda guerra do Iraque.

Todavia, quando as tropas americanas dominaram o Iraque e fizeram exaustivas buscas não encontraram essas armas químicas.

A alegação de George W. Bush, baseado em informações da CIA, é que, ao saber da invasão do Iraque, Saddam Hussein enviou essas armas químicas para a Síria em laboratórios móveis.

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O mundo inteiro considerou George W. Bush um grande mentiroso. Mas não é uma grande coincidência que agora a Síria disponha de armas químicas e as esteja usando na sua guerra civil, pouco se importando que elas estejam atingindo a população civil?!

Mas o que nos garante que essas armas odiosas tenham ido parar nas mãos de Bashar Al-Assad e não nas dos rebeldes? Obama e outros não têm a menor dúvida de que seu usuário é o ditador da Síria, mas ele próprio e Vladimir Putin afirmam que são os rebeldes. Como chegar a uma conclusão baseada em boas provas?

Mas ainda que essas armas estejam sendo usadas por Bashar Al-Assad, como último recurso para não ser deposto, não se justifica a intervenção militar, mesmo contando com o aval da ONU, como contou a invasão aérea da Líbia de Kadhafi.

Não se trata de um país estar usando essa arma suja contra outro país, mas sim do uso das mesmas, não importando por que lado, numa guerra civil. E numa guerra civil, qualquer intervenção estrangeira é um desrespeito à soberania das nações e sua autotelia.

Em termos mais contundentes: eles que são muçulmanos que se matem, se é isto que desejam. O máximo que podemos e devemos fazer é prestar ajuda humanitária às vítimas inocentes da população civil.

* DOUTOR EM FILOSOFIA PELA UFRJ

 

IMAGENS: WIKIPEDIA
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