Como superar o fascismo de esquerda?

Eu também já fui esquerdista, essa espécie de gonorreia juvenil que a todos acomete. (Roberto Campos) O saudoso Roberto Campos se recusava a aceitar o rótulo de conservador. Ele dizia que os representantes da esquerda é que eram os neoconservadores, porque desejavam a volta de uma situação pré-muro-de-Berlim. Para o nosso dom Quixote do liberalismo […]

Eu também já fui esquerdista, essa espécie de gonorreia juvenil que a todos acomete. (Roberto Campos)

O saudoso Roberto Campos se recusava a aceitar o rótulo de conservador. Ele dizia que os representantes da esquerda é que eram os neoconservadores, porque desejavam a volta de uma situação pré-muro-de-Berlim. Para o nosso dom Quixote do liberalismo econômico no Brasil, o que sempre existiu foi o fascismo de esquerda – o socialismo/comunismo -, o fascismo de direita – o nazi-fascismo – e o liberalismo. Não haveria como escapar de um desses três tipos de postura ideológica na vida.

Quanto a mim, o que mais incomoda é chamar um fascista de esquerda de “progressista”. Como pode? Se historicamente está comprovado que, efetivamente, grama que ele pisa não brota mais…Bem, incomodado com essas questões epistemológicas, decidi passar o fim de semana com dois livros. Estava de olho neles, mesmo sem saber se me ajudariam a ficar mais tranquilo quanto à terminologia da política contemporânea. Mais por causa de seus autores do que por saber de antemão o que esperar das obras. Eu que, certa vez, já percorrera as 400 páginas do extraordinário Esquerda Caviar, de Rodrigo Constantino, em apenas quatro dias, as 500 páginas do livro sobre os intelectuais, de Thomas Sowel, em pouco mais que isso…bem, não seria um grande desafio.

“Não é que podem existir bons livros bolivarianos!?”, pensei de forma sarcástica ao terminar de ler o primeiro deles, Liberais e Antiliberais – A Luta Ideológica de Nosso Tempo, de Bolívar Lamounier. Mas depois refleti o quanto esse ótimo cientista político já deve ter de aguentar com essa brincadeira infame sobre seu nome. O livro é bom. Bolívar Lamounier é firme. Para ele é isso mesmo: nada de esquerda e direita. Tudo se resume a liberais versus antiliberais. Ou você é uma coisa ou outra. Pelo menos foi o que depreendi.

Porque o livro, bem à maneira de Lamounier, é escrito de forma acadêmica, quase só para acadêmicos. Tanto que lá pela página 88, ele mesmo afirma: “Reconheço que meu fraseado é meio barroco…”. Mas fundamentado. O autor se serve dos ídolos de Bacon, vindos lá do século XVII, para montar o esquema cognitivo das três grandes ideologias citadas. E toma claro partido, mostrando as diferenças límpidas e positivas em favor do pensamento liberal. À página 23, por exemplo, Bolívar traz um trecho do teórico fascista Volpicelli em que percebemos o seguinte: se você substituir a palavra “Estado” por “Partido”, dá no mesmo. Como os dois tipos de fascismos são iguais.

Desancando o verbo com classe e estilo nas teorias rousseaunianas, Lamounier analisa suas ingenuidades e o quanto de perverso pode ser o corolário disso, sua sustentação no tempo e sua abrangência. Ele fala desse romantismo pueril-pernicioso da fé na perfectibilidade futura: “Durante o século XX e, em certa medida, mesmo nos dias de hoje, esse Romantismo impregna toda por toda a parte a vida política: em todas as classes e grupos etários, políticos, estudantes, intelectuais, artistas e clérigos imbuem-se da crença de que só através dessa fonte fáustica chegarão à plena posse de sua alma e ao sentido de sua vida. Num país como o Brasil, socialmente dilacerado e dilacerante, essa forma de Romantismo compreensivelmente se alastra com vigor.”.

A filosofia pop de um ex-covarde

Mas, depois dessa leitura mais densa e na caminhada com uma escrita mais rebuscada, me aguardava agora o nosso filósofo mais pop da atualidade. Eu poderia continuar minhas reflexões com um pouco mais de conforto cerebral. Só que não. Luiz Felipe Pondé, com  o seu excelente Filosofia para Corajosos – Pense com a Própria Cabeça exigiu de mim muita atenção também. Mais fácil de ler? Sim. Mais fácil de entender? Nem sempre.

Com sua postura rodrigueana do ex-covarde, Pondé nos tem ensinado a todos a nos jogar com coragem no ato de pensar e se manifestar. Será ele realmente a nova vertente de uma estirpe que vem de Nelson Rodrigues a Paulo Francis? Só sei que a mim me passa sempre a imagem de alguém mais generoso do que polêmico. Por exemplo, Pondé afirma que “a filosofia só existe na gratidão para com o pensamento dos outros e na generosidade em doar o seu pensamento para os outros.” Ou seja, ele arremata: a filosofia é o encontro entre a generosidade e a gratidão.

Pondé desanca Foucault, os idiotas que têm o rei na barriga, e nos mostra que não só a economia é a ciência da escassez, mas que a própria vida é escassa. Seu livro é um corredor com vários escaninhos nos quais vamos recolhendo pontos do novelo a ser percorrido – por conta própria. Não me auxiliou muito na questão epistemológica das ideologias. Mas ajudou a construir o meu fim de semana na direção de continuar sendo um liberal inquieto e convicto. Eu soube que desponta na lista dos mais vendidos. Merece. Tomara que chegue ao topo!

Quem muito lê não consegue ser de esquerda, diz sempre Reinaldo Azevedo – aquele que é bem mais lúcido do que vários acreditam. E finalizo: quem é socialista, comunista ou nazista é um fascista. Querendo ou não! Simples assim.

Sobre o autor: Claudir Franciatto é jornalista e escritor. Autor e organizador do livro A FAÇANHA DA LIBERDADE, obra editada pelo jornal O Estado de S. Paulo, com participação de liberais brasileiros e mais Mário Vargas Llosa, Octavio Paz, Carlos Rangel, entre outros.

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