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Como podem duas ideias contraditórias serem ambas verdadeiras?

Minha esposa estava assistindo a uma aula mais cedo quando seu professor mencionou que “duas ideias verdadeiras podem ser contraditórias”. De início me arrepiei. Essa afirmação vai de encontro a um dos princípios básicos da construção do conhecimento; mas passados alguns minutos refletindo acabei concordando: duas afirmações verdadeiras podem ser contraditórias quando se referem a modelos diferentes.

O matemático Solomon Golomb dizia que “não é possível encontrar petróleo perfurando o mapa”. Essa é uma forma jocosa de nos recordar que nosso entendimento do mundo é baseado em modelos — descrições simplificadas da realidade. O Prof. Hermann Kopetz expande essa observação adicionando que frequentemente confundimos modelos com os objetos e processos que eles procuram explicar. As propriedades que derivamos sobre modelos não são propriedades dos sistemas físicos e sociais, mas resultados que só fazem sentido naquele framework de modelagem. O mundo é o que é, modelos são a forma que utilizamos para falar sobre ele.

Meu último texto sobre desigualdade tinha como objetivo mostrar um modelo para concorrer com a noção de que a desigualdade é causada por algum tipo de falha de caráter do ser humano. Ele relata um experimento muito simples em que 1000 indivíduos realizam trocas aleatórias ao longo do tempo. O resultado é um perfil de desigualdade de patrimônio (wealth) muito semelhante ao que observamos nas sociedades reais.

Meu modelo é baseado no princípio do individualismo metodológico. A conclusão é que trocas entre indivíduos são a característica fundamental que faz emergir o fenômeno da desigualdade de patrimônio. Não é necessário recorrer a nada mais complexo como algum tipo de conflito entre os seres humanos como o fazem Thomas Piketty ao dizer que “a história nos ensina que as elites lutam para manter a desigualdade extrema” ou Lucas Chancel ao sugerir que “a desigualdade não é inevitável, mas uma escolha política”.

O Prof. Solomon alerta que “nenhum modelo é uma explicação perfeita da realidade”. Assim como qualquer remédio, seu uso deve ser feito sob a prescrição de um especialista que compreenda as hipóteses simplificadoras que deram origem a ele. Meu modelo certamente não explica totalmente a realidade, assim como o modelo baseado no princípio do coletivismo utilizado por praticamente todas as pessoas que se preocupam com o “problema da desigualdade”.

Piketty e Chancel baseiam suas observações — e recomendações de políticas públicas — em um modelo baseado no princípio do coletivismo. Não faz sentido falar em trocas entre indivíduos ao considerar a sociedade a partir da lente do coletivismo. Modelos são ferramentas para o exercício da razão. Assim como nós moldamos nossas ferramentas, nossas ferramentas moldam a forma como pensamos. A escolha de qual modelo utilizar é, na maioria das vezes, política — visando ao controle e ao uso da força — ou ideológica — baseada no conflito entre como o mundo é e como o pensador acredita que ele deveria ser.

Piketty e Chancel estão corretos quanto às suas conclusões. Eu estou correto quanto à minha conclusão. Ambas as conclusões são contraditórias, afinal, estamos todos analisando modelos diferentes. A minha diferença para eles é que em nenhum momento eu acreditei que o meu modelo é a realidade.

Eu nunca tentei comer o sanduíche que aparece no cardápio da lanchonete.

 

José Edil G. de Medeiros

José Edil G. de Medeiros

É professor da Universidade de Brasília, atual chefe do Departamento de Engenharia Elétrica. Foi Presidente do Instituto de Formação de Líderes de Brasília (IFL Brasília) e é membro da diretoria executiva do IFL Brasil.