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A cegueira voluntária e o Prêmio Stalin da Paz

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StalinApprove-1Na intenção de continuar conservando as teorias que ardorosamente acalentaram desde a juventude, os esquerdistas radicais – excluímos daqui aqueles social democratas que são capazes de divergir de nossas posições com civilidade e tolerância –, quando não inteiramente idiotizados pela pregação a que foram submetidos, acabam percebendo o fracasso de suas engenhosas teorias. Terminam constatando, em maior ou menor medida, que alguma coisa não funciona quando se tenta transplantar os delírios revolucionários para a realidade concreta de um mundo em que pessoas são diferentes e querem ser livres, e em que riquezas precisam ser geradas para sustentar a vida social. Dependerá de cada um, então, a forma de reagir a essa desilusão.

Algumas vezes, o ardor é tão intenso e a vergonha de admitir que se iludiu por tanto tempo é de tal envergadura, que a realidade não é suficiente para dissuadir o socialista de sua crença. Ele prefere construir para si mesmo uma realidade alternativa em que as coisas continuam perfeitamente no lugar, de acordo com a mais cristalina receita marxista. Alguns chegaram à atitude extrema de dissimular por inteiro a verdade dos fatos mais tristes e sórdidos, apenas para protegerem suas reputações da acusação de terem sido ingênuos. Quando isso acontece, podemos já dizer que agem de má fé e são coniventes com os absurdos que ocultam.

O livro Os Crimes de Stálin – A trajetória assassina do czar vermelho, de Nigel Cawthorne, traz um impactante exemplo disso. A obra é uma rica biografia de Josef Stalin, mostrando a formação de sua personalidade violenta e paranoica desde a infância. Revolucionário marxista-leninista, assumindo relevo nas hostes que combateram e derrubaram o regime czarista na Rússia, Stalin aos poucos concentrou poder na então recém-fundada União Soviética e estabeleceu uma ditadura totalitária radical e sanguinolenta como poucas na história da humanidade. Pode-se dizer, aliás, que, se ser inimigo de Stalin era terrível, pior ainda era ser seu “amigo” – ou o mais próximos disso que se poderia ser em relação a uma figura como ele. Temeroso de hipotéticas conspirações que estivessem tramando contra ele ou enciumado com o destaque que recebiam, o fato é que Stalin executou friamente diversos militantes de sua causa, comunistas fiéis que lutaram a seu lado. Ninguém matou tantos comunistas quanto ele próprio – sendo o exemplo mais proeminente talvez o próprio Leon Trotsky, assassinado no México por sua ordem. Em um regime de proporções diabólicas que durou de 1920 até sua morte, em 1953, Stálin eliminou oponentes políticos em campos de concentração no frio da Sibéria e adotou políticas antissemitas, exatamente como seu inimigo durante a Segunda Guerra Mundial, o nacional-socialista Adolf Hitler. Matou milhões por decreto e condenou à fome outros tantos.

Ficaram famosos os julgamentos injustos durante seu governo, que ajudavam a impor o seu reinado de terror. Assinava listas de pessoas a serem executadas e simulava um julgamento completamente estapafúrdio, terminando sempre com a morte de todos aqueles que de antemão ele havia apontado.

Apesar disso, Nigel aponta, à página 162 da edição brasileira pela Editora Madras, que muitos observadores ocidentais, sem considerar as torturas prévias por que os “réus” passavam, informaram que os julgamentos eram justos. Inclusive o embaixador dos Estados Unidos, Joseph E. Davies, manifestou-se curiosamente convencido da lisura do processo. A sua justificativa é a mais tola possível:

“Em vista do caráter dos acusados, seu longo tempo de serviço, sua reconhecida distinção em sua profissão, sua longa e contínua lealdade à causa comunista, é pouco crível que seus irmãos oficiais (…) tivessem aquiescência em sua execução, sem que eles tivessem convicção de que esses homens fossem culpados de alguma ofensa.”

Inacreditável que um argumento como esse tenha sido suficiente para que o embaixador se convencesse! Não cogitava ele que personalidades como Stalin não têm realmente grande empatia por ninguém, e que nada poderia estar mais longe da verdade que essa imagem de movimentos comunistas como fraternidades de grandes amiguinhos lutando em clima de união por justiça social? A ingenuidade é tolerável até um certo ponto, a partir do qual ela passa a ser criminosa.

Mas mais criminoso foi o discurso adotado por correntes de esquerdistas do Ocidente – aqueles mesmos que desfrutavam dos benefícios de uma ordem constitucional de viés estruturalmente liberal, que não viviam sob o peso do totalitarismo soviético, mas queriam de todo modo fazer parecer que aquele império desolador era um Éden na Terra. Tudo, claro, para justificarem suas agendas, manterem seu prestígio e poderem continuar alimentando seus sonhos delirantes. Não lembra alguma coisa? Não lembra nossos artistas e burgueses socialistas, desfrutando das benesses do capitalismo, viajando para Paris todo fim de semana, mas rendendo loas à ilha de Fidel Castro?

De acordo com Nigel, esses simpatizantes comunistas “denunciaram as críticas aos julgamentos como tentativa capitalista de subverter o comunismo”. Um exemplo é o deputado Denis Pritt, do Partido Trabalhista Britânico, que disse:

“Mais uma vez os socialistas mais fracos são cercados de dúvidas e ansiedades, mas mais uma vez nós podemos sentir confiança de que, quando a fumaça voar para longe do campo de batalha da controvérsia, será percebido que a acusação era verdadeira, a confissão era correta e a ação era bem conduzida.”

Mesmo que os fatos denunciem o contrário, homens como Pritt preferem manter a fé cega, voluntariamente cerrar os olhos aos horrores perpetrados pelos companheiros de crença. Pritt foi expulso do Partido Trabalhista, em 1940, ao apoiar a invasão soviética da Finlândia, mas foi agraciado em 1954 com o Prêmio Internacional Stalin da Paz (!!!). Sim, isso existia.

Nigel também cita o secretário-geral do Partido Comunista da Grã-Bretanha, Harry Pollitt, que escreveu no Daily Worker de 12 de março de 1936 que “os julgamentos em Moscou representam um novo triunfo na história do progresso”, e a dramaturga americana Lillian Hellman, como figuras que simplesmente preferiram não ver o que estava acontecendo.

Também houve, felizmente, os que acordaram. Nigel menciona Bertran Wolfe, Jay Lovestone e Arthur Koestler como proeminentes ex-comunistas, sensibilizados pelos horrores do stalinismo. George Orwell também representa esses horrores em seu 1984, tendo permanecido um homem de esquerda, mas tocado pelas atrocidades do tirano soviético.

Diante desses excessos, como se vê, os esquerdistas – os radicais e aqueles que se dizem moderados, mas cuja pretensa “moderação” vai até a página dois, não resistindo à crítica pura e simples de ditadores ou guerrilheiros assassinos de estimação – adotam reações distintas. Uma nata, por pura decência e humanidade, se afasta de teorias comunistas ou marxistas-leninistas, se afasta do totalitarismo revolucionário e coletivista, e, se não abraça pressupostos liberais ou conservadores, ao menos se encaminha para uma social democracia mais tolerante e civilizada. Assumem seu erro e reconhecem a importância de uma sociedade calcada em um Estado de direito. Figuras como Ferreira Gullar e Fernando Gabeira, se não se enfileiraram ao lado de um Mises, um Hayek ou um Burke, notoriamente não aceitam mais caminhar ao lado de Marxs, Stalins e Fidels.

Outros, seguindo a antiga cartilha da “moral revolucionária” trotskysta, não negam o que é feito de desumano nos países onde seus sistemas são implementados, mas acreditam – ou querem convencer a si mesmos; ou querem convencer os outros – de que, “para o bem maior”, vale tudo. São como o historiador Eric Hobsbawn, que disse que, se Stalin tivesse conseguido produzir o comunismo perfeito, o genocídio que comandou teria valido a pena. Esses são, no mínimo, aspirantes a psicopatas.

Um terceiro grupo age como os ocidentais mostrados aqui. Mentem; vivem simplesmente como se nada tivesse sido feito, dizem sempre que “não é bem assim”. Não podendo negar racionalmente as atrocidades que veem, e não querendo abdicar da posição cômoda de compromisso com os erros de longa data, optam pela cegueira voluntária. O “não é bem assim” acaba servindo para enxergar democracia em Cuba e solidez jurídica na Coreia do Norte. Estes são cínicos, hipócritas, e movidos pela covardia suprema – aquela de não se defrontar com as próprias falhas. Mereceriam o laurel do Prêmio Internacional Stálin da Paz, entregue a Pritt, pelos serviços prestados à desinformação, à mentira e à traição consciente dos mais elementares princípios que devem reger nossa vida em sociedade.

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Lucas Berlanza

Lucas Berlanza

Jornalista formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), colunista e presidente do Instituto Liberal, membro refundador da Sociedade Tocqueville, sócio honorário do Instituto Libercracia, fundador e ex-editor do site Boletim da Liberdade e autor dos livros "Lacerda: A Virtude da Polêmica", “Guia Bibliográfico da Nova Direita – 39 livros para compreender o fenômeno brasileiro”, "Guia Bibliográfico da Nova Direita - 50 livros para compreender o fenômeno", "Os Fundadores - O projeto dos responsáveis pelo nascimento do Brasil", "O Papel do Estado Segundo os Diversos Liberalismos" e "Introdução ao Liberalismo" (co-autor e organizador).

2 comentários em “A cegueira voluntária e o Prêmio Stalin da Paz

  • Avatar
    18/12/2014 em 5:48 pm
    Permalink

    Excelente artigo Lucas, parabéns pela sinceridade, pela honestidade intelectual e por fazer frente contra stabilishment do politicamente alienado!

  • Avatar
    16/12/2014 em 8:42 am
    Permalink

    “Nietzsche, escreveu, bem antes da constatação prática, o seguinte:

    – “O Socialismo é o fantasioso irmão mais jovem do quase decrépito despotismo, o qual quer herdar. Suas aspirações são, portanto, no pleno sentido mais profundo, reacionárias. Pois ele deseja uma plenitude de Poder estatal como só a teve alguma vez o despotismo, e até supera todo o passado por aspirar ao aniquilamento formal do indivíduo: o qual lhe parece como um injustificado luxo da natureza e deve ser melhorado e transformado por ele em um ‘órgão da comunidade’ adequado a seus fins.
    Devido a sua afinidade, o Socialismo sempre aparece na vizinhança de toda excessiva manifestação de Poder, como o antigo socialista típico, Platão, na corte do tirano siciliano: ele deseja (e em algumas circunstâncias promove) o estado ditatorial Cesário deste século, por que, como foi dito, quer ser seu herdeiro. Mas mesmo essa herança não bastaria para seus objetivos, ele precisa da mais servil submissão de todos os cidadãos ao Estado absoluto, como nunca existiu nada igual; e como nem sequer pode contar mais com a antiga piedade religiosa ante o Estado, tendo, queira ou não, que trabalhar incessantemente por sua eliminação _ pois trabalha para a eliminação de todos os Estados existentes _, não pode ter esperança de existir a não ser por CURTOS PERÍODOS, aqui e ali, MEDIANTE O TERRORISMO EXTREMO. Por isso ELE SE PREPARA SECRETAMENTE PARA GOVERNOS DE TERROR, E EMPURRA A PALAVRA “JUSTIÇA” COMO UM PREGO NA CABEÇA DAS MASSAS SEMICULTAS, PARA DESPOJA-LAS TOTALMENTE DE SUA COMPREENSÃO (depois que este entendimento já sofreu muito com a semi-educação) e criar nelas uma boa consciência para o jogo perverso que deverão jogar.“ ”

    .
    “Nietzsche estava perfeitamente certo, como a história o tem provado – acertou também sobre a comunidade européia que menciona em “Humano, demasiado humano”. Inclusive já detectando a semi-educação (desinformação?) para o embelezamento do funesto objetivo.”

    …e ainda mais de Nietzsche:” “o indivíduo é nesse caso posto de lado como um inseto desagradável: está baixo demais para poder despertar por mais tempo sentimentos torturantes em um dominador do mundo. (…). Assim também se passa com o juiz injusto, COM O JORNALISTA QUE COM PEQUENAS DESLEALDADES INDUZ EM ERRO A OPINIÃO PÚBLICA.” (Nietzsche)””

    – O que mais é necessário para se entender o mundo do poder????

Fechado para comentários.

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