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Bolsonaro comete seu maior erro

Ao demitir Mandetta, Bolsonaro cometeu o seu maior erro desde que assumiu a presidência. Ele será lembrado, entre outros fatos pouco honrosos, como o presidente que demitiu o seu ministro da Saúde em meio a uma pandemia sem precedentes. Claro que isso por si só não encerra o raciocínio, pois mesmo em meio a uma pandemia a demissão de um ministro da Saúde poderia ser justificada, se, e tão somente se, este fosse incompetente e incapaz de lidar com o problema. Foi este o caso? Não, muito pelo contrário. Segundo pesquisa do Atlas Político, divulgada nesta quarta, a demissão do ministro era rejeitada por 76,2% dos brasileiros, ao passo que 72,2% concordam com as medidas de isolamento adotadas contra o Covid-19.

O saldo é que Bolsonaro demitiu aquele que hoje era o ministro mais popular, popularidade essa oriunda da percepção da sociedade sobre o bom trabalho que o ministro estava fazendo. Não havia razão técnica alguma para a sua demissão. Ocorre que talvez tenha sido justamente sua popularidade o problema. Ora, é fácil de entender porque o ministro se tornou tão popular. O presidente tem lidado da pior forma possível com a crise, agindo como um negacionista irresponsável, que afronta as recomendações de isolamento rotineiramente ao desfilar por comércios de Brasília. Ao mesmo tempo, é natural, como já disse em outros artigos, que em períodos de crise as pessoas se voltem para lideranças, especialmente na esfera federal. Como as atitudes do presidente deixaram um vácuo de liderança, é compreensível que as pessoas tenham projetado essa liderança na figura do ministro, que, nesse sentido, passou a figurar como um oásis de sanidade em meio ao hospício. Bolsonaro, no alto do seu ego, não ficou feliz com a popularidade do seu subordinado, sobretudo quanto este carregava uma posição técnica, em linha com o resto do mundo, e se negava a seguir seu inconsequente isolamento vertical.

Jair Bolsonaro é um homem limitado, como ele mesmo chegou a reconhecer em vários momentos em sua campanha, especialmente ao falar sobre seu parco conhecimento da área econômica. O antídoto para isso, ele dizia, seria se cercar de bons ministros, com qualidade técnica, e escutá-los. Ironicamente, em várias ocasiões ele usou o cargo de ministro da Saúde como um exemplo – tosco -, dizendo que, do mesmo modo que ele não entendia de medicina, mas nomearia um médico para o Ministério da Saúde, ele também não entendia de economia, mas nomearia um economista para o da Economia. Nenhum presidente precisa entender de medicina para falar de políticas para essa área, mas entender o mínimo de economia e ter uma visão particular não dependente de um “posto Ipiranga” seria o esperado, mas uma vez que o presidente tomou mão desse exemplo, era de se esperar que tivesse mais zelo e desse ouvidos ao seu ministro diante de uma crise de saúde pública. Ao invés disso, ele o demitiu.

Sim, pode-se dizer que talvez o Mandetta devesse ter segurado mais a língua na entrevista ao Fantástico, mas alguém pode realmente culpá-lo? Na ocasião ele não disse nenhuma inverdade, pois de fato essa dubiedade criada pelos discursos divergentes do Ministério da Saúde e do presidente dividiu a sociedade de forma perniciosa. Este, aliás, é o principal ponto pelo qual insisto em dizer que a atuação do presidente tem sido vergonhosa. Acrescentar a toda a problemática da pandemia o desgaste das picuinhas políticas e do sectarismo xucro é inadmissível.

A pergunta que fica agora é: o que esperar da nova gestão do Ministério da Saúde? Já há maioria do STF sobre a legitimidade de estados e municípios para a adoção de medidas de isolamento social, então a capacidade do governo de impor o isolamento vertical – se for essa a intenção – já está limitada. Ainda assim, se o novo ministro seguir por esse caminho, o presidente passará a ter o respaldo do Ministério da Saúde, o que colaborará para o sectarismo e para a queda de braço irresponsável. Se, por outro lado, o novo ministro seguir a orientação anterior do Ministério, ficará ainda mais evidente a irracionalidade da demissão de Mandetta. Qual será a postura do presidente nesse segundo cenário? Ele irá contrariar o novo ministro, da mesma forma que fez com o Mandetta, ou ele terá que mudar o discurso e passar a defender um isolamento mais amplo. Este último cenário também carrega um problema, afinal, se o presidente começar do nada a defender o isolamento horizontal, novamente a demissão do ministro soará sem sentido. Nesse caso, adotando um duplipensar crível apenas para os bolsonaristas, o presidente provavelmente tentaria fingir que sempre foi a favor de um isolamento mais amplo e passaria a ventilar que na verdade Mandetta foi demitido por “conspirar” contra ele com outros políticos do DEM, conspiracionismo esse que os robôs bolsonaristas já vêm divulgando há algumas semanas por aí.

Gabriel Wilhelms

Gabriel Wilhelms

É licenciado em Música e graduando em Ciências Econômicas, atua como colunista e articulista político.