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“As Seis Lições”, de Ludwig von Mises

O livro As Seis Lições foi originalmente publicado em 1979 em Chicago, Estados Unidos, sob o nome Economic Policy – Toughts for Today and Tomorrow. Escrito por Margit Von Mises, é creditado a Ludwig Von Mises, seu marido, por tratar-se de uma transcrição de uma série de seis palestras ministradas por Mises em Buenos Aires, Argentina, no ano de 1959. Ludwig Von Mises (1881-1973) foi um economista teórico, membro da Escola Austríaca de pensamento econômico. Reconhecido mundialmente, defendia a liberdade econômica e individual como princípios base do desenvolvimento econômico e social.

A obra é dividida em seis capítulos, cada qual representando uma das palestras. Uma das características mais marcantes, em minha opinião, é a acessibilidade. Por meio de um vocabulário simples e exemplos cotidianos, Mises democratiza o conhecimento econômico. Na realidade, os princípios que sustentam a liberdade econômica não detêm uma sofisticação e complexidade exorbitantes, permitindo que simples relações de causa-efeito façam com que suas ideias sejam compreendidas pela maior parte das pessoas.

No primeiro capítulo do livro o tema é o Capitalismo. Contrapondo a imagem do empresário sem limites de poder criada pelo marxismo, Mises torna o empreendedor humano e, de certa forma, frágil, ao demonstrar que os clientes (ou o mercado) são, de fato, os verdadeiros donos do poder. A relação é muito simples: a empresa foi criada para servir a seus clientes. A partir do momento que um negócio deixa de atingir a expectativa da relação custo versus benéfico acerca de seus produtos e serviços, seus consumidores irão buscar o seu concorrente.

Para Mises, foi o sistema capitalista que criou riqueza nos últimos séculos numa velocidade nunca antes vista pelos nossos antepassados, permitindo elevar nosso padrão de vida a níveis inimagináveis. Se isso já era verdade em 1959 na Argentina, hoje vemos isso com ainda mais clareza em todo o mundo, muito graças ao avanço da tecnologia – que se desenvolveu de forma exponencial graças ao ambiente de competição gerado pelo capitalismo.

Na segunda lição, Mises destrincha o Socialismo, apresentando suas ideias principais. No sistema socialista, o Governo é uma grande autoridade e nós todos somos subordinados a ele. Todos os ativos, bens e fatores de produção ficariam na mão do Estado e nós serviríamos para produzir riqueza. Para o Socialismo, somente renunciando a algumas liberdades poderíamos atingir maiores níveis de igualdade.

O autor traz diversos argumentos demonstrando as falhas do sistema socialista e porque ele não é sustentável. Se o objetivo geral de uma nação é melhorar a qualidade de vida, e se o conceito de “qualidade de vida” é parcialmente distinto para cada ser humano, como teremos bem-estar social se não formos livres para escolher o que mais nos convém?

Em seguida, Mises explora o intervencionismo, demonstrando como o governo, ao intervir na economia, gera distorções que beneficiam poucos (geralmente amigos do governo) e prejudicam muitos, causando problemas na economia de um país que podem destruir riqueza e demorar anos para serem resolvidos. Para exemplificar, Mises descreve, de forma minuciosa, como o controle de preços sempre acabará implodindo e gerando falta de oferta de produtos. O autor também usa, para confirmar seus argumentos, histórias e eventos reais que ocorreram em outras nações.

Na quarta palestra, é abordado um tema que hoje é muito conhecido (e temido) pelos brasileiros que nasceram antes dos anos 90: a inflação. Ele deixa claro que a inflação é uma política do governo, e não um evento aleatório. É um mecanismo que é, de certa forma, utilizado – é uma escolha. Para explicar a inflação, novamente Mises utiliza exemplos simples e eficazes, mostrando como o excesso de dinheiro impresso e gasto pelo Estado aumenta a demanda por produtos, o que acaba gerando um aumento generalizado dos preços. Ele evidencia, logicamente, como tal efeito é destruidor de riqueza e acaba, de uma forma geral, prejudicando toda a população de uma nação acometida por este mal, precisando de anos para normalizar e recuperar o sistema econômico. Nós, brasileiros, sabemos muito bem sobre isso.

A penúltima lição apresentada é sobre o investimento estrangeiro. Na época, ainda existiam muitos estudiosos que criticavam e demonizavam o investimento estrangeiro. Mises demonstra que foi este um dos principais mecanismos que aceleraram a criação de riqueza, principalmente a nível global.

O capital poupado, em nações mais ricas, muitas vezes não podia ser investido pelo empreendedor por não existirem oportunidades, seja por alta concorrência ou até mesmo por mercados saturados em seu horizonte de competência. Sendo assim, a alternativa era investir em outros países e foi isso que de fato elevou o padrão de vida dos países menos desenvolvidos intelectualmente e tecnologicamente, importando anos e anos de conhecimento e investimentos para suas terras e beneficiando seu povo. Hoje vemos como a globalização realmente desenvolveu absolutamente todos os países.

Na última palestra, Ludwig Von Mises fala de Política e Ideias. Descreve como os partidos políticos, outrora criados com o intuito de unir forças a pensamentos e ideais políticos convergentes, tornaram-se, hoje, grupos de pressão que visam a atender interesses individuais. Detalha como tal formato impede que o povo seja de fato representado, já que no jogo de poder o interesse individual e ganância sempre prevalecerão acima do bem-estar geral. De fato, nossos representantes não representam o povo. Para Mises, são as ideias que mudam o mundo e, nesse modelo, o ambiente e discussões não são favoráveis para evoluirmos no campo das ideias.

Fazendo uma simples observação histórica, vemos que muito do que Mises descreve na obra acaba se repetindo em diversos outros países, inclusive aqui no Brasil. Cada nação tem suas peculiaridades e a história não se repete de fato, mas ela frequentemente rima, já diria Mark Twain. Sabendo disso, por que deixamos acontecer novamente? Seguindo na linha do autor de que são as ideias que de fato mudam o mundo, é razoável assumir que talvez falte uma verdadeira difusão dos ideais libertários, gerando discussões que construam ideais e aperfeiçoem nossos governantes para de fato tomarem decisões assertivas, capazes de gerar ainda mais riqueza e bem-estar social, construindo um mundo com mais liberdade e oportunidades. Nós, favorecidos por ter acesso a tal conhecimento, temos o compromisso ético de difundir tais ideias.

*Bernardo Fusato é associado trainee do Instituto Líderes do Amanhã. 

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