As cantoras “nazistas” e o desabafo de uma arquiteta liberal

Na semana passada, tivemos o vídeo de Roberto Alvim, então secretário da cultura do atual governo, parafraseando um nazista (vale lembrar que antes do cargo, Roberto Alvim atuava normalmente no meio cultural, tendo recebido o Prêmio Bravo! Prime de Cultura). Por conta disso, foi justamente execrado pela esquerda e pela direita. Foi pauta em toda a imprensa e demitido no dia seguinte.

Três dias depois, partidos e parlamentares de esquerda estavam publicando homenagens a Stalin, um dos maiores assassinos da história, que duas décadas antes de Hitler já havia criado campos de concentração, assassinatos em massa e políticas de expurgos e de perseguição a minorias étnicas. Na grande imprensa, nenhuma linha de repúdio.

A semana não havia acabado quando o jornal Folha de S. Paulo publicou um artigo que relacionava uma dupla de cantoras de música sertaneja ao nazismo, ilustrando o texto com uma charge em que uma delas leva no branco uma suástica nazista. A razão de tamanho absurdo: elas não haviam se pronunciado contra o vídeo de Roberto Alvim. Ou seja: quem não se manifestou contra o vídeo é nazista.

Uma das grandes vitórias do comunismo foi a instalação da mentalidade totalitária até em pessoas que não se enxergam comunistas. Uma mentalidade que não tolera qualquer opinião desalinhada, ou mesmo o silêncio sobre determinado assunto.

Na União Soviética e na China maoísta, todos os cidadãos pertencentes ou não ao partido comunista precisavam estar o tempo todo se manifestando em favor do regime e contra os inimigos dele. Qualquer indiferença levantava suspeitas de que a pessoa pudesse ser um potencial reacionário. Muitas foram presas e mortas por isso.

Na Cuba e na Coreia do Norte de nossos dias, as manifestações em favor dessas ditaduras comunistas são compostas por pessoas que simplesmente não têm outra opção. Ou participam empolgadamente, ou tornam-se suspeitas de estarem conspirando um golpe.

No Brasil, essa patrulha se manifesta não apenas no meio artístico e jornalístico, como o caso da Folha de S. Paulo. Acontece também e de modo sistemático na grande maioria das repartições públicas e das universidades.

Meu penúltimo artigo no Instituto Liberal motivou muitas pessoas desse meio a se manifestar sobre a perseguição que sofrem ou já sofreram por discordar da cartilha lulopetista. Com medo de se expor, muitas me procuraram reservadamente para desabafar.

O depoimento que reproduzo abaixo, de uma arquiteta, representa todos os outros que recebi e tudo o que acontece em seu meio profissional, que de certa forma ainda é muito próximo a mim.

Por razão lamentavelmente óbvia, oculto não apenas o nome da pessoa, mas também das instituições citadas por ela.

“João, não vou comentar publicamente pois, como você mesmo colocou, existe perseguição a quem não está ‘alinhado’. Escrevo somente para endossar seu “arquivo” sobre o assunto. Fiz doutorado na UF(…) que, como diz a secretária do programa (liberal, uma rara exceção), é uma das mais vermelhas do país. Esta pessoa me disse que quando o PT entrou foi um inferno. Os novos funcionários, inseridos pelo partido, tiravam todo e qualquer servidor de seu posto, pegavam o computador, a mesa, etc, mesmo estes sendo funcionários de carreira… Fora isso, eu ouvi de uma professora que parou de conversar com outra aluna logo que descobriu que ela era Bolsonaro. Eu tive que me manter calada, como ainda faço, pois sei que, num concurso para professor, se a banca souber do meu apreço pelo liberalismo, vai dar um jeito de me reprovar. Nas últimas eleições, quase perdi uma amiga, professora da UF(…), que se dizia minha segunda mãe. Enfim, é um meio completamente tomado e incoerente. Pessoas como eu, que não compactuam do mesmo pensamento, precisam se manter neutras para não perder algumas possibilidades futuras. Compartilho seus textos apenas no grupo da família, para não ser cassada… Kkkkkk Com meus alunos na faculdade privada falo com um pouco mais de liberdade… Infelizmente, o viés ideológico, o ódio, são muito mais deles do que nossos… Pois bem, conto com sua descrição. Só queria realmente fazer um comentário”.

Nas secretarias de planejamento urbano ou equivalentes nas prefeituras e nos governos estaduais − independentemente do partido que está no controle −, o clima de patrulha, discriminação e perseguição é o mesmo.

Uma amiga me confidenciou que bastou se manifestar uma única vez em favor do impeachment de Dilma para se tornar uma pessoa mal vista entre seus colegas num órgão do governo. Primeiro, começaram com piadinhas e provocações. Quando tentava argumentar suas opiniões, todos ao redor se voltavam contra ela, jogando um sem número de narrativas malucas e cínicas, que invariavelmente se transformavam em novas piadinhas e provocações. Em questão de semanas, minha amiga já não tinha com quem almoçar ou ir embora. Mal a cumprimentavam no trabalho. Teve de pedir mudança de setor.  

Eu poderia escrever um longo texto apenas com depoimentos sobre o patrulhamento que militantes de esquerda empenham em órgãos públicos e universidades. Desabafos de pessoas que nem podem ser consideradas militantes, pois se limitam a manifestar esporadicamente opiniões contrárias ao petismo.

Mas, afinal, onde essa intolerância toda é fomentada no Brasil?

A grande maioria dos problemas brasileiros estão entrelaçados às universidades públicas, transformadas em centros de formação marxista.

Resumirei o que é o curso de arquitetura e urbanismo nessas instituições.

Primeiro, o próprio formato dos cursos desconecta os estudantes do mundo. Eu, por exemplo, havia feito 3 anos de faculdade particular quando me transferi para a UFES, mas a maioria das disciplinas que eu tinha feito não foram aceitas, mesmo que as ementas fossem iguais, por exigência do MEC. Por causa disso, tive que praticamente recomeçar a curso, conseguindo me matricular em apenas três ou quatro matérias por semestre. Para piorar mais um pouco, os horários das aulas são espalhados pelo dia, impedindo que a maioria dos alunos trabalhe em um dos turnos, forçando-os a ficar na universidade praticamente o dia inteiro, na maior parte do tempo sem aula. E o que se tem numa universidade pública brasileira? Um fantástico mundo de liberdade sem responsabilidade, sem pressão para passar nas disciplinas (se reprovar, faz de novo e de novo…), sem ter de pagar mensalidade, com festinhas na maioria dos dias da semana, com bebidas baratas, onde se pode comprar e usar todo tipo de droga e até transar com as/os colegas, com professores dando aula quando lhes sobra tempo e vontade, com uma massa de jovens impulsivos tentando se destacar repetindo clichês esfumaçados, filosofando sobre a vida dos outros, sobre o mundo melhor, etc.

Quando se tem dezoito, vinte anos de idade, isso é o paraíso!

A alienação é tanta que jovens logo se desvencilham de tudo o que remete a suas boas condições financeiras. Passam a vestir roupas surradas. Trocam bons tênis por chinelos velhos. Os playboyzinhos tentam se parecer com mendigos. As princesinhas se travestem de hippies.

No meu tempo de UFES, não se ouvia no curso de arquitetura nada diretamente relacionado a socialismo, mas predominavam – como ainda predominam – abstrações do tipo “a cidade pertence a todos”, “espaço público”, “arquitetura social”, “mais cultura, menos comércio”, “cidades para as pessoas, não para o mercado”, “arquitetura para uma cidade mais justa” e por aí vai. Ou seja: marxismo o tempo todo, sem nenhuma consciência dos alunos.  

Nas aulas de urbanismo, mapas das cidades são abertos para que os geniais estudantes apontem as áreas de “interesse social” que devem ser desapropriadas e demolidas para dar lugar a parques, centros culturais e habitações populares. Há plena liberdade para projetar o que quiser, sem se preocupar com custos e viabilidades técnicas, tampouco com princípios de propriedade privada. As justificativas são sempre lúdicas. O importante é pensar, ter ideias bonitas, se sentir evoluído espiritualmente.

Nesse clima, não há espaço para projetos voltados para o mercado. Estudantes que insistem nisso são mal vistos por colegas e professores.

Nesse circo, todos têm na ponta da língua as soluções para todas as outras questões do mundo. Os jovens mais integrados ao ambiente universitário se tornam pessoas extremamente tolerantes, mas apenas com eles mesmos. Passam a odiar religiosos, empresários e arquitetos bem-sucedidos no mercado. Olham com pena para os colegas que vão à faculdade só para estudar – aqueles que não querem se integrar, abrir a mente para o mundo, se livrar da sociedade burguesa.

Um circo dos horrores do qual fiz parte, não tendo sido menos idiota do que os que tento descrever nesse texto.  

A máquina socialista é tão bem feita que oferece ainda diversos centros de pesquisa disso e daquilo que têm como prioridade formar novos professores e funcionários da própria universidade, para dar continuidade ao sistema. Distribuindo bolsas e vagas para estágios, vão selecionando e instruindo os militantes que em algum momento serão alocados nos governos, nos sindicatos, em ONGs, nas representações estudantis, nos conselhos profissionais e na própria universidade e que terão espaço na imprensa. Com isso, impedem qualquer questionamento e oposição. Mentes divergentes que se revelam depois de admitidas nos quadros das faculdades de arquitetura e nas secretarias de desenvolvimento urbano são sumariamente perseguidas e/ou isoladas.

Graças à atual universidade pública brasileira, jovens que foram sustentados pela família durante vinte e poucos anos e que, logo que se formaram na faculdade, conseguiram no governo ou na própria universidade um emprego que lhes garante segurança financeira para o resto da vida, tornam-se os maiores críticos da família tradicional e do capitalismo.   

Em paralelo, temos os estudantes que não conseguem trilhar carreira de militante profissional. Milhares de jovens que passam mais tempo entre festas e rodinhas de maconha do que estudando e que acabam se formando depois de oito, nove… doze anos, como foi o meu caso. Ganham um diploma de arquiteto urbanista, mas não conseguem se encaixar no mundo real de trabalho e responsabilidades, onde as ideias precisam dar certo. Então, essa massa de pessoas já não tão jovens passa a se ver sem condições de construir suas vidas e conquistar por si mesmos confortos e prazeres reais, como casa e segurança financeira. Culpam, então, o capitalismo e a sociedade burguesa por todas as desgraças do mundo, crentes de que ninguém perceberá que estão procurando culpados para os seus próprios fracassos. Daí, só lhes resta repetir o dogma socialista de que o governo deve dar tudo a todos, principalmente para eles, gênios incompreendidos.

Eu consegui me curar em tempo, mas muitos tornam-se reféns da mentalidade universitária, vivendo como zumbis ideológicos.

Ainda temos outros tantos que mantém a militância após a faculdade mesmo integrando-se ao mercado. Fazem isso para manter as velhas amizades, pois sabem que a discordância não é aceita. Então, vão tocando a vida desfrutando do capitalismo na vida privada e profissional, mas repudiando-o nas conversas de bar com os eternos colegas de faculdade.   

Resumindo: a universidade pública brasileira é uma fábrica de monstros; e são esses monstros que ocupam sindicatos, jornais, partidos e governo, com total liberdade para se manifestar, patrulhar e perseguir as pessoas.

É verdade que grande parte dos jovens egressos dos cursos de arquitetura de universidades públicas consegue sair sã ou se cura da alienação logo que encontra a realidade. Muitos deles tornam-se professores e funcionários públicos muito bem-intencionados, porém, acabam sendo subjugados por uma maioria de colegas de esquerda que não toleram diferenças de opinião. São esses militantes que controlam setores chaves da estrutura acadêmica, cultural e governamental, tendo, portanto, muito poder sobre as decisões políticas que tanto interferem na vida privada.

Roberto Alvim não representa ninguém. Foi execrado por todos. A real ameaça à nossa liberdade está nas pessoas que tentam apontam uma onda nazista no Brasil como forma de ocultar o radicalismo totalitário da esquerda, cada vez mais aloprada por causa da perda de poder e de popularidade.

João Cesar de Melo

João Cesar de Melo

É arquiteto e artista plástico.