Abaixo-assinado contra Miriam Leitão e a verdadeira guerra cultural

A jornalista Miriam Leitão e seu marido, o sociólogo Sérgio Abranches, foram convidados para a Feira Literária de Jaraguá do Sul, em Santa Catarina. Um abaixo-assinado foi criado na Internet contra a presença dos dois e os organizadores do evento os “desconvidaram”, alegando não poder garantir sua segurança.

Se houve ameaça real, as forças de segurança deveriam garantir o direito de ir-e-vir do casal, permitindo assim que fossem ao evento para o qual foram convidados. Os organizadores deveriam ter, nesse caso, desprezado os apelos para que eles não fossem. Se o direito de deslocamento dos dois, brasileiros que são, dentro do território nacional sofrer qualquer entrave sério e definitivo, evidentemente está tudo errado.

Meu foco, entretanto, está no abaixo-assinado em si. O texto, com mais de 3.600 assinaturas até o momento em que escrevo estas linhas, diz laconicamente sobre a jornalista: “Ocorre que por seu viés ideológico e posicionamento, a população jaraguaense repudia sua presença, requerendo, assim que a mesma não se faça presente em evento tão importante em nossa cidade”.

Sou favorável a respeitar a realização de boicotes e abaixo-assinados contra aquilo que é repudiado. É de bom alvitre para o liberalismo cultivar o máximo possível a livre manifestação da sociedade. Com isso, sustento minha preferência por não apelar ao Estado para coibir esse tipo de comportamento. Alguns boicotes e abaixo-assinados, ademais, são muito justos; compreenderia perfeitamente gestos de repúdio a convites para líderes de grupos terroristas do Oriente Médio ou defensores da supremacia branca discursarem em eventos como se fossem cidadãos respeitáveis, por exemplo. Fui a favor das mobilizações contra a famigerada exposição do Queermuseu – bancada pela Lei Rouanet, diga-se, e projetada para ser acessada e fornecer material para a rede de ensino, levando absurdos de todo gênero aos infantes e jovens alunos. Não me arrependo minimamente e considero todas essas posições bastante razoáveis.

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Mesmo que eu não concorde com determinados abaixo-assinados de repúdio, preciso reconhecer que não são ilegais e, em meu ponto de vista, deve-se tolerar a existência deles e resistir à tentação de aplicar ações coercitivas contra seus organizadores. No entanto, abster-me de endossar restrições de força não significa abster-me do direito de emitir meus julgamentos. Sendo assim, é-me necessário proclamar que o abaixo-assinado contra a ida de Miriam Leitão ao evento é uma idiotice, uma estupidez, uma simplificação fanática e uma aberração sem tamanho.

Miriam Leitão foi membro do PCdoB, foi militante de extrema esquerda e foi alvo do regime militar no passado. Há anos, entretanto, vivemos as consequências da Lei de Anistia. Apesar de responsável pelo seu endosso a uma organização totalitária, terrorista e assassina que pretendia instaurar o socialismo maoísta no Brasil, não tenho notícia de acusações concretas de atos violentos diretamente praticados por ela, mesmo que, no mínimo, ela estivesse sendo preparada para tal. Nada disso importa para o caso em questão, entretanto, porque há décadas o papel de Miriam Leitão vem sendo o de uma jornalista que cobre política e economia, nada além disso.

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De que a acusam os abaixo-assinados? De ter “viés ideológico” e “posicionamento”. Em outras palavras: por ter determinadas opiniões com que eles não concordam, desejam que ela não seja convidada. É isso justificativa para tal mobilização?

Ora, não tenho a menor simpatia pelas posições de Miriam Leitão. Apesar de passar longe de ser petista ou adepta à extrema esquerda, Leitão é tomada de idiossincrasias de um “esquerdismo caviar” que não tolera a presença de uma direita autêntica no debate público. Ela já chamou Rodrigo Constantino e Reinaldo Azevedo – este último mal defende as teses da direita hoje em dia! – de “direita hidrófoba”.

Mesmo assim, penso que ela tem o direito de falar, de escrever e de ir palestrar ou debater onde quer que ela deseje. Penso que uma sociedade cresce com o enfrentamento das ideias divergentes e isso é da substância da democracia liberal. Se a direita acreditar que deve alimentar a interdição física ou o silenciamento das pessoas para fortalecer suas posições, estará cometendo suicídio moral. Não merecemos passar por isso depois dos avanços que conquistamos nos últimos anos. Devemos condenar e desprezar gestos idiotas como o dos 3.600 abaixo-assinados dessa petição.

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Quando a lunática defensora da ideologia de gênero Judith Butler veio ao Brasil, houve quem sugerisse impedi-la de sair do avião assim que chegasse ao aeroporto. À época, critiquei tamanha estupidez. O caso é muito similar e a reflexão que enseja, igual.

Entendida a “guerra cultural” como um conflito pelo imaginário, a luta para marcar presença na fabricação e disseminação dos códigos que aglutinam o pensar e a “imaginação moral” em uma sociedade, é claro que ela existe e deve ser travada. A expressão “guerra” precisa ser entendida, no entanto, como um convite à produção de mais iniciativas culturais e ocupações de espaços – e com maior qualidade. Não deve ser entendida literalmente, como um conflito físico, tampouco como um apelo pela censura ou pelo silenciamento dos oponentes.

Essa guerra não passa, ao menos não se quisermos ter sucesso, por abaixo-assinados para Miriam Leitão não poder ir a um evento falar. Não é esse o Brasil que queremos, nem isso é próprio da direita liberal e conservadora que merecemos ser.

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Lucas Berlanza

Lucas Berlanza

Jornalista formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Lucas Berlanza é editor dos sites “Sentinela Lacerdista” e “Boletim da Liberdade” e autor dos livros "Lacerda: A Virtude da Polêmica" e “Guia Bibliográfico da Nova Direita – 39 livros para compreender o fenômeno brasileiro”.