A tradição humanística e a educação

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A Educação, na história ocidental, esteve sempre vinculada à Tradição Humanística, que resgatou o papel central do homem na sociedade e na história da cultura. Quando se aviltou o ensino das Humanidades, a Educação foi a primeira a sentir o grave impacto. Assim aconteceu, no Ocidente, desde Sócrates (470-399 AC). Em Atenas, o ensino em praça pública foi desempenhado pelos filósofos sofistas, que colocaram o processo de ensino em função do sucesso econômico das novas gerações. Diríamos que os sofistas fizeram do ensino um caminho fácil para realizar o sonho de ascensão econômica e social, incluindo nessa esperança o sucesso material de si próprios. “O homem é a medida de todas as coisas”, segundo ensinava o popular filósofo Protágoras de Abdera. Outro seguidor da corrente sofística, Górgias de Leôntinos, acreditava que a persuasão, aliada às palavras, modelava a mente dos homens como eles quisessem, abrindo o caminho para o progresso material. Hipías de Elis criou um engenhoso método mnemotécnico (arte da memória), a fim de facilitar aos seus alunos o poder do convencimento com argumentos os mais variados. Esse método, aliás, expandiu-se ao longo da Idade Média pelas cidades do interior da Itália e constituiu o cerne do ensino dos novos filósofos práticos, que vendiam a preço caro “a arte da memória”, como testemunhou o grande pensador renascentista Giordano Bruno (1548-1600).

A marca registrada dos sofistas foi reduzir a verdade a uma questão de consenso prático entre os homens, abandonando a busca de verdades fundamentais como coisa inútil. Mas nos séculos seguintes, preservada a busca de verdades fundamentais, imorredouras, filósofos medievais partiram, validamente, para a busca de consensos práticos que seriam verdades em processo de afirmação, a partir das variadas experiências, sem que isso significasse a negação de verdades supremas ou imorredouras, que expressavam pontos de vista universais. Os ensinamentos dos denominados nominalistas iam por esse caminho do reconhecimento de verdades variadas, umas ligadas à experiência individual, outras portadoras de princípios universais. Conhecemos hoje o importante legado de pensadores que se interessavam pela experiência concreta e que tentavam registrar as sensações em relação aos objetos, como uma imagem sensível que traduziria a sua apreensão sensorial do mundo. As qualidades das coisas não eram apenas lampejos passageiros, mas constituíam verdades de cunho prático e vinculadas à sensibilidade, a partir das quais poder-se-ia construir uma imagem sensível do mundo da experiência. “Nomina”, os nomes que guardavam essas experiências imediatas, deram ensejo à arte de preservar esses conhecimentos passageiros para construir uma visão prática do mundo.

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Sócrates (470-399 AC) desenvolveu uma crítica radical aos sofistas e aos seus métodos práticos reduzidos à busca do enriquecimento pessoal. Ao participar da Guerra do Peloponeso (431-404 AC) como hoplita (soldado a pé que lutava com a sua lança e que obedecia às ordens dos cidadãos aristocráticos de Atenas), Sócrates concluiu que a verdade não se esgotava nas opções práticas do progresso material, mas que havia princípios universais, como o sentimento de justiça, convicção que alimentava a luta contra os inimigos da sua cidade, que tudo invadiam e que matavam os habitantes, buscando unicamente o enriquecimento pessoal. Com o conhecimento podia-se acessar uma imagem sensível do universo, colocando-a em função de efeitos práticos, mas era possível, também, apreender aspectos individuais e interiores do conhecimento, que desaguavam na chamada “experiência interior” do conhecimento sobre os nossos estados de espírito e das nossas volições, abrindo o duplo caminho que os filósofos escolásticos iriam ampliar, da “experiência interna” e da “experiência externa”.

Os pais de Sócrates, Sofronisco e Fenárete, em Atenas, desempenhavam profissões modestas. Sofronisco era um simples canteiro que dominava a arte de burilar a pedra. A mãe, Fenárete, era parteira, praticando a arte da Maiêutica (ensinar às mães a arte de dar à luz). A mulher de Sócrates, Xantipa, criticava o marido pela ausência, nele, da vontade de praticar profissões mais lucrativas, que garantiriam o sucesso material. Sócrates contentou-se com a sua profissão de hóplita, soldado a pé, carregando a sua lança. Nessa condição participou em várias batalhas em defesa das cidades onde morou (Potideia, Anfípolis, Délion e Atenas). Deixou três filhos, Lâmpocles, Sofronisco e Menéxeno (cujos nomes aparecem citados nos Diálogos Platônicos).

Mas havia, em Sócrates, uma força interior que o levava a buscar, na sua alma, o sentido da verdade e da justiça. Terminada a Guerra do Peloponeso, Sócrates dedicou o tempo a conversar com os seus concidadãos, interrogando-os sobre temas éticos ou do sentido do comportamento humano e da experiência sofrida na guerra. No contexto desses diálogos informais, um amigo, Querofonte, que tinha características místicas e que se desempenhava como porta-voz do Oráculo de Delfos, que comunicava os segredos dos deuses aos seus concidadãos, declarou Sócrates o mais sábio dos Atenienses. Foi assim como o nosso filósofo descobriu a missão de levar os seus concidadãos a conhecerem-se melhor a si mesmos, mediante o exame do que entendiam como a virtude principal, para chegar à seguinte conclusão: “Só sei que nada sei”.

O diálogo socrático agiu como uma bomba de efeito retardado na Atenas formatada na busca do êxito imediato pelos influencers da época, os Sofistas. Rapidamente o nosso pensador foi acusado, perante o órgão máximo da Justiça, o Areôpago, como corruptor da juventude. Num juízo relâmpago instaurado com fins políticos, que buscavam extirpar os ensinamentos inconvenientes de Sócrates, o nosso pensador foi condenado à morte pela ingestão do veneno da cicuta. O filósofo, corajosamente, enfrentou a pena a que foi condenado injustamente. Os seus discípulos, entre os que se encontrava o jovem Platão, deram continuidade à pregação moral de Sócrates, aprofundando nos princípios que deveriam guiar validamente a comunidade política, certamente não os da conveniência material imediata segundo a pregação sofística, mas na busca, no interior da alma, daqueles que seriam os princípios imorredouros da verdadeira cidadania, que se deveria alicerçar no ideal da Justiça e da preservação dos valores da própria interioridade, ao redor das verdades eternas e não das consignas práticas dos propagandistas do momento. Sócrates deu início, assim, à preservação dos valores eternos da vida humana, na pregação das virtudes de que se fizeram eco os grandes filósofos clássicos de Atenas, Platão (427-347 AC) e Aristóteles (384-322 AC).

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Ricardo Vélez-Rodríguez

Ricardo Vélez-Rodríguez

Membro da Academia Brasileira de Filosofia e do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, professor de Filosofia, aposentado pela Universidade Federal de Juiz de Fora e ex-Ministro da Educação.

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