A tal da “Civilização Ocidental” – Parte II

civilização ocidentalPolíbio foi o primeiro a teorizar o que mais tarde Cícero batizará História Mestra da Vida. Para o autor grego – feito, diplomaticamente, de refém pelos romanos quando estes invadiram a Acaia – a História era a mestra da vida no sentido de que as nações poderiam aprender com seu passado histórico, ou até mesmo com o passado de outros povos. Se Roma não enfrentou erupções populares fatais como a Revolta dos Macabeus, na Judeia Selêucida[1], foi porque aprendeu com a História de outros reinos à sua volta.

A sociedade romana bebeu, exclusivamente, das culturas que a cercava. A náutica romana avançada se devia à engenharia reversa feita nas naus de Cartago, o uso de ídolos religiosos se devia à religião etrusca, principalmente, mas, dentre todos os povos sobre seu julgo, Roma bebeu mais e se acoplou de maneira singular com a cultura grega, a cultura que construiu a Civilização Ocidental.

O Império Romano foi o que sustentou o imaginário jurídico e político no Ocidente, porém quem introduziu tais problemáticas e conceitos em Roma foram os gregos. Se Roma dominou a Grécia politicamente, a Grécia dominou Roma culturalmente e os romanos espalharam tal cultura para além do sul do mediterrâneo.

Com a cristianização do mundo romano, uma ética se impôs e uma filosofia nova serviu de encaixe para certas questões da filosofia pagã. Uma nova era nascia no mundo, o gládio romano se dobra ante a cruz de Jerusalém. Roma, por fim, detinha o melhor em sua época: a filosofia grega, o sistema jurídico romano e a moral judaico-crist e, apesar de ter tudo isso, o Império romano caiu.

A Civilização Ocidental não é perfeita. Nunca foi. As ações de Diocleciano, por exemplo, levaram à paralisação do crescimento do mercado romano; o Imperador-Filósofo Marco Aurélio desvalorizou a moeda em mais de 70% e não é só apenas no mundo das finanças que Roma teve declínios. Os estádios romanos concediam ao povo diversão: lutas de gladiadores, homens lutando contra animais e feras famintas devorando cristãos, quando estes eram perseguidos, e não é só: haviam estupros coletivos das mulheres que eram postas nos estádios e não eram violadas apenas por homens, mas também por animais – tudo para a diversão do povo romano, do povo ocidental.

Na Grécia Antiga também não era diferente. A escravidão era comum em seu comércio; guerras por rotas comerciais ou territórios ocorriam a torto e a direito e, recentemente, foram encontrados 450 corpos de bebês em um poço de Atenas[2]. Alguns podem afirmar que a moral cristã conseguiu sanar tais bestialidades, o que também é verdade, mas, ainda sim, não fez uma civilização dotada de uma ordem completa. Mesmo depois da cristianização, cidades continuam a ser sitiadas, populações morriam de fome por conta de bloqueios, chacinas eram feitas e guerras religiosas se perpetraram por todo o Ocidente e Oriente cristãos – algo que era raro na Antiguidade ocidental, à exceção das Guerras Sagradas na Grécia.

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Com tantos sinais de decadência, atrocidades e irracionalidades, por vezes fica-se tentado a admitir a validade da interpretação da antropologia pós-moderna: não existem culturas melhores ou piores, mas apenas diferentes. Será que a Civilização do Ocidente, aquela que bebeu da Tradição e dos Filósofos, seria apenas mais uma entre tantas outras?

Essas indagações são comuns no mundo pós-moderno quando nos deparamos como o tema “Civilização Ocidental”. Foi a Civilização Ocidental que ampliou o tráfico de escravos, que intensificou a guerra, criou a eugenia e fomentou o extermínio de minorias como nenhuma outra que a precedeu. Se o Ocidente criou Sêneca e o Visconde de Cairu, também é o pai de Protágoras e de Karl Marx, é o progenitor de Hitler, do fascismo e do totalitarismo que nenhum tirano asiático, ameríndio ou africano jamais chegará aos pés. Eis, também, o Ocidente. Valeria a pena, como pregam tradicionalistas, conservadores e liberais, salvar o Ocidente?

Em nenhuma outra Civilização ou sociedade fora do Ocidente existiu o sofismo, este que permeou e permeia todo a maldade ideológica contemporâneo. Mas e o progresso? O progresso existe. Se compararmos o Ocidente com o restante do globo, veremos que, hoje, ele nitidamente venceu todas as outras sociedades. Me arrisco em dizer: é muito complicado existir sociedades não-ocidentais hoje; à exceção do Islã – e apenas parte deste –, existem apenas bolsões fora do Ocidente. Se analisarmos os sistemas essenciais, na política, economia e ciências, o que foge do Ocidente? O Japão é ocidental, com um estilo de ensino importado do Ocidente, com um funcionalismo trazido de fora, bases tecnológicas, de produção, sociais e políticas; a China vive uma ditadura que teve suas bases no ocidente, com um controle populacional e uma opressão essencialmente ocidental; a Angola atual não se parece tanto quanto a pré-portuguesa: sua língua, sistema bancário, de comunicações, universidades e até mesmo a religião majoritária vêm do Ocidente.

É certo que o Ocidente não imperou em todas as áreas, mas não é raro encontrar empréstimos diretos, acoplagens e sempre alguma influência e contribuição ocidental para algum povo – mesmo no oriente islâmico, em um ambiente mais antiocidental possível, os sistemas de governo e tecnologias são simbióticos ou iguais aos do Ocidente. O estilo ocidental venceu.

Max Weber afirmou que o Ocidente venceu por conta de sua racionalidade e de sua espiritualidade existente na cultura, tendo origens no cristianismo e na filosofia grega. Para Weber, o racionalismo existente em nossa cultura permitiu que os administradores tivessem mais eficiência na política e, mais tarde na História, no mercado, pois a racionalidade é decisiva na eficácia de certos atos e melhorias. A moral cristã também influenciaria no avanço de uma sociedade de mercado, possibilitando um terreno fértil para todos os constructos que o capitalismo terá em sua História.

Todavia, se a racionalidade e a moral unidas não impedem as maiores catástrofes que o Homem pode cometer, por que estas seriam as qualidades que fizeram o Ocidente vencer e triunfar sobre o mundo?

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É no Ocidente, e apenas neste, que a Civilização ultrapassa a questão civil. O processo civilizacional desenvolvido pelo judaico-cristianismo e pela filosofia grega esta para além de uma cultura urbana: seus frutos estão na mentalidade e no imaginário. O Ocidente não triunfou sem motivos, pois inaugurou o início do pensamento propriamente científico, de uma filosofia de fato e de uma moral religiosa que, visando o transcendente metafísico, foi criadora da moral mais perpétua na História Humana, a moral judaico-cristã.

Assim como na Roma Antiga, como Políbio apontava, a cultura ocidental foi formada por elementos internos e externos (sua religiosidade é oriental, por exemplo), anexando elementos de outras culturas para sua própria identidade cultural, mas sem se perder nestes sistemas “estrangeiros”, criando novos a partir de um longuíssimo processo histórico de ordenação espontânea. Em tal processo, concepções filosóficas e teológicas serviram para além dos grupos aristocráticos e com o enriquecimento da sociedade atingiram as massas – embora, é verdade, as missões religiosas, séculos antes, levaram o cristianismo para as massas bem antes de o mercado moderno levar os livros, possibilitando um norte moral religioso para a população em geral. A Civilização não seestabeleceu (diretamente) apenas no sentido estrito do termo, o de meio urbano, se expandindo da cidade para o campo – fenômeno que pode ser inicialmente datado com o desenvolvimento do monarquismo após a Queda da Roma Ocidental –, com uma “ortodoxia” que a guiaria pelos séculos.

A “ortodoxia” que permeia a Civilização consiste na herança bíblica, estoica, aristotélica, platônica, socrática e naturalista, assim como se afasta do gnosticismo e da erística. Embora, tanto os fenômenos do gnosticismo e da erística estejam presentes no conteúdo civilizacional sendo de fato frutos da Civilização, ainda, sim, há uma linha-guia (que chamo de ortodoxia cultural) que dá uma identificação na construção civilizacional no Ocidente.

Não é o caso de, como apontei várias vezes acima, considerar o Ocidente como a perfeição suprema da humanidade. Tanto da fé, como da razão que fundamentaram a nossa História pode-se tirar exemplos fatídicos e infrutíferos, como o fideísmo (que é proveniente da teologia e é antirracional) como o materialismo (derivado do pensamento naturalista).

O Ocidente também não é imutável[3] ou totalmente resistente às invasões em seu meio cultural, por vezes, como na contemporaneidade, parece ser o próprio meio cultural ocidental que se sabota. As políticas antiliberais e “progressistas” da atualidade costumam a voltar-se contra seu próprio marco civilizatório, favorecendo cenários e grupos que desmantelariam toda a trajetória e os frutos históricos provenientes do longo processo ocidental. Entretanto, isso não é novo: o hedonismo, o irracionalismo niilista, o ceticismo exacerbado, o racismo, cientificismo, mecanicismo, entre outros, estão presentes na História. O nominalismo acabou permeando no pensamento escolástico no medievo, o epicurismo, na antiguidade, mas, ainda sim, é possível identificar uma identidade pra além dos erros, uma continuidade boa e louvável: o valor que fez o Ocidente ascender de maneira universal.

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O desenvolvimento da moral, pela tradição e pela razão, foi imensamente decisivo para o nascimento do capitalismo. Se a economia tem seu embrião nos padres medievais, assim é, porque na Idade Média Central e na Baixa Idade Média estavam preocupados com questões morais na sociedade. Os mercados, o comércio, estão na sociedade, inseridos nas relações humanas, portanto, foram tratados pelos religiosos os meios mais coerentes e justos para o mercado. Tal característica estudiosa não se alterou muito com o passar dos séculos: Locke assim faz na questão da propriedade privada, pois é imoral tirar a propriedade de outrem, Smith compôs seu trabalho de acordo com tratados morais que ele mesmo elaborou, e até mesmo Marx herda a questão moral no âmbito econômico – mesmo que suas ideias venham a destruir a economia –, em tempos mais recentes, a moral foi essencial para desenvolver o anarcocapitalismo de Rothbard, por exemplo. Linhas gerais, processos datáveis e contínuos podem ser identificados até mesmo em pensamentos opostos, como os de Rothbard e Marx: eis uma das provas do brilho da Civilização, onde há racionalidade – como bem apontou Weber – condutores para o pensamento, ciência e tecnologia.

Mesmo que a Civilização Ocidental tenha várias falhas crie monstros que tentam devorar “a própria mãe” e esteja permeada pela potencialidade maléfica do homem, ela ainda resiste nas tradições exemplares, onde o certo e o errado já foram postulados, debatidos e várias questões encerradas e valores – para muito além do utilitário – norteiam todos os atos humanos. Mas, é claro: a Civilização não é indestrutível. Cabe uma espera para ver ser ela resiste ao desastre lógico e moral que é o período pós-moderno.

[1] Os Macabeus fazem parte dos judeus se revoltaram contra o poderio Selêucida por conta da “transformação” de Deus em Zeus, pelos gregos. O Templo de Salomão foi profanado e lá foi colocada uma estátua de Zeus – para os gregos, Deus era um deus incógnito; não conseguiam identifica-lo em seu panteão, e a profanação do Templo de Salomão foi uma tentativa de identificar Iahweh com Zeus.

[2] http://oglobo.globo.com/sociedade/historia/descoberta-de-450-bebes-em-um-poco-de-atenas-evidencia-concepcao-da-infancia-na-grecia-antiga-16503923

[3] Tanto para o bem, quanto para o mal. O cristianismo não é um elemento ocidental por excelência, tampouco a escrita, o alfabeto, a matemática, etc. Tais elementos positivos, de outras sociedades ou civilizações, foram integrados e melhorados na cultura ocidental. Com a matemática egípcia, por exemplo, os filósofos criaram a Teoria Geral dos Números, com os conhecimentos da natureza – presente desde as populações autóctones do Ocidente, mas também importados – Aristóteles estreia a botânica, zoologia…

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Hiago Rebello

Hiago Rebello

Graduando em História, Licenciatura, pela Universidade Federal Fluminense, colunista do Instituto Liberal.