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A fórmula da prosperidade humana

A Terra fornece todas as condições básicas para sustentar a vida de milhões de seres, gêneros e espécies, dos mais básicos, como as amebas, aos mais complexos, como os seres humanos. O único aspecto que separa o homo sapiens das milhões de outras espécies que compartilham a Terra é a razão.

Desde os tempos antigos até os diais atuais, podemos dividir a história em três grandes partes. A primeira parte, a luta da sobrevivência do homem na natureza. Durante grande parte da história, os hominídeos foram espécies secundárias, coadjuvantes, lutando para sobreviver e não serem destruídas pelos demais animais, alguns com superioridade em força física em relação aos humanos.

Há 100 mil anos, existiam na Terra pelo menos 6 espécies de hominídeos (homo sapiens, neandertais, homo erectus, dentre outros). Por volta de 70 mil anos atrás, deu-se início a Revolução Cognitiva da espécie homo sapiens, o que permitiu a melhoria de pensamento, processamento das informações e de comunicação, sem precedentes na história. A exclusividade do homo sapiens na Terra é bem recente, algo em torno dos últimos 10 mil anos, segundo a obra Sapiens – Uma Breve História da Humanidade[1], do israelense Yuval Noah Harari.

Exatamente a partir desses últimos 10 mil anos é que começa a segunda parte da história humana – o reinado absoluto do homem na Terra e, simultaneamente, o início da luta do homem contra o homem. A luta entre a liberdade e a servidão. Apesar de a razão ter reinado sobre o homem em função da Revolução Cognitiva, fazendo com que essa espécie viesse a alcançar o topo da cadeia alimentar mundial e ter a opção de viver ou não fora do estado de natureza, mediante um processo civilizatório mais digno, alguns poucos indivíduos persistem em tentar impor sua vontade e pautas escravizantes sobre todos os demais.

A terceira parte da história humana foi inaugurada em 20 de julho de 1969, quando o homem pisou a Lua por meio da Missão americana Apollo 11. A terceira fase é o homem astronauta ou cosmonauta. A frase do astronauta Neil Armstrong resume esse novo período: “um pequeno passo para um homem, um salto gigante para a humanidade”.

Nessa breve reflexão, porém, o objetivo será tratar do tema relacionado à prosperidade humana, a partir da primeira e da segunda fases da história – isto é, o reinado absoluto do homem sobre a Terra e a luta entre a liberdade e a servidão, entre o individualismo e o coletivismo, entre os homens de primeira e os de segunda mão.

A capacidade racional do homem, fruto da Revolução Cognitiva, provocou uma consequência sem precedente: a liberdade genuína. Por mais que os animais convivam na natureza, o que pode conduzir a uma aparente liberdade de ir e vir, eles não são completamente livres, pois não ostentam uma mente racional. Os animais já nascem “condenados”, presos, em toda sua vida aos limites de sua natureza, de seu instinto, como seres basicamente determinísticos, com a capacidade volitiva extremamente limitada.

Os animais não possuem a capacidade de escolha entre ser carnívoro, onívoro ou herbívoro, por exemplo. Um leão está preso à sua natureza carnívora, assim como uma girafa já nasce condenada a ser um herbívoro durante toda a sua existência. Não há opção. Não há livre arbítrio ou a liberdade do leão ou da girafa trocarem suas respectivas dietas carnívora ou herbívora e irem meditar em um templo budista tibetano. Exatamente por não usufruírem da racionalidade é que os animais possuem uma liberdade aparente, limitada.

Por outro lado, existe o ser humano. Agraciado pela racionalidade, pela capacidade mental, por calcular a órbita elíptica dos planetas em torno do Sol, por cultivar alimentos, construir barcos e pirâmides ou a formular a Teoria da Relatividade Geral, de Einstein. Os seres humanos, sim, ostentam a liberdade genuína, pois não nascem condenados a nada. São regidos pelo livre arbítrio e possuem a capacidade de escolha sobre sua dieta alimentar, seu próprio destino ou quanto a se a exploração espacial é ou não fundamental para garantir a perpetuação da espécie humana ao longo dos tempos.

Sem racionalidade, não há liberdade. Sem racionalidade, pode haver, no máximo, uma liberdade aparente, a exemplo de um leão ou de uma girafa que vivem na floresta da Savana Africana. Apesar de usufruírem certa liberdade espacial (bem limitada, por sinal, se comparada com uma ave migratória, por exemplo), como de ir e vir dentro de seu próprio território, não podem optar pela dieta alimentar, eleger representantes para constituição de um Governo Civil e deixar o estado de natureza de lado.

Logo, a primeira premissa a estabelecer é que a racionalidade proporcionou a liberdade genuína ao homem, podendo-se extrair disso que não há liberdade sem racionalidade. O fato é que, assim como a razão está para a liberdade, a liberdade está para o egoísmo. É da própria natureza humana ser livre e egoísta, buscar seus próprios interesses e objetivos de vida.

Se o homem estiver em condição existencial normal, usufruindo seu direito natural à liberdade, automaticamente buscará seus próprios interesses, nascer do sol após nascer do sol, dia após dia. A condição existencial humana anormal é a escravidão, o Nazismo, o Comunismo e o Socialismo, hipóteses nas quais não existe a livre fruição do direito natural à liberdade.

Como a vida, a liberdade e a propriedade são direitos naturais de todo ser humano, conforme destacado por John Locke[2] e Frédéric Bastiat[3]. A tendência da humanidade é de sempre lutar contra os sistemas regidos por planejamento central e de engenharia social, justamente porque são da essência de cada indivíduo a racionalidade, a liberdade e a busca pelo autointeresse, o que é simplesmente inviável nesses ambientes autoritários.

Apesar de esse cenário demonstrar a mera realidade, no sentido de que os seres humanos são essencialmente racionais, livres e egoístas, Adam Smith (1723 – 1790) foi quem deu um grande salto em expor, minuciosamente, como esses mecanismos humanos funcionam no livro A Riqueza das Nações, cujo objetivo é promover uma investigação sobre os mecanismos que influenciavam a ordem natural e social, a organização da vida e o progresso de uma sociedade, de uma nação.

Na concepção desse filósofo e economista britânico, os motores da prosperidade são o egoísmo e o mercado e não os ideais reinantes do altruísmo e da caridade. Para exemplificar como a busca pelo próprio interesse e as trocas voluntárias revolucionaram a história recente da humanidade, uma única frase de Adam Smith na citada obra, resume tudo: “não é da benevolência do açougueiro, do fabricante de cerveja ou do padeiro que esperamos nosso jantar, mas da consideração que eles têm pelo seu próprio interesse.”[4]

O exponencial avanço da condição humana nos últimos duzentos anos, aproximadamente, ocorreu devido a diversos fatores, entre os principais o egoísmo de cada indivíduo em buscar seus próprios interesses em um ambiente livre e mercantil, de trocas voluntárias entre indivíduos, tendo por objetos serviços e bens de consumo.

Esse processo intrínseco à natureza humana, envolvendo razão, liberdade, egoísmo e mercado, favoreceu, de forma espontânea, indireta e inconsciente (“mão invisível”), toda a sociedade, contribuindo para o bem-estar social de toda a humanidade. A partir do momento em que um jornaleiro, uma manicure, Ellon Musk, Steve Jobs ou Gates buscam seus próprios interesses em um ambiente de livre mercado, dia após dia, semana após semana, por meio do uso racional da mente, do trabalho produtivo e do empreendedorismo, é que se torna possível sustentarem suas famílias, alcançarem os objetivos pessoais e, com ou sem qualquer intenção, contribuir para um mundo melhor e mais próspero.

Na obra As Seis Lições, Ludwig von Mises expõe um caso pragmático desse processo natural humano de gerar a prosperidade geral, na medida em que cada indivíduo busca seus próprios desejos: “Nos Estados Unidos, quase toda semana tem-se notícia de um novo invento, de um aperfeiçoamento. Muitos aperfeiçoamentos foram gerados no mundo empresarial, porque milhares e milhares de industriais estão empenhados, noite e dia, em descobrir algum novo produto que satisfaça ao consumidor, ou seja de produção menos dispendiosa, ou seja melhor e menos oneroso que os produtos já existentes. Não é o altruísmo que os move; é seu desejo de ganhar dinheiro. E o efeito foi que o padrão de vida se elevou, nos Estados Unidos, a níveis quase miraculosos quando confrontados às condições reinantes há cinquenta ou cem anos atrás.”[5]

O livre mercado é o ambiente no qual todo homem livre e racional exerce seu egoísmo em busca de seus próprios interesses, cooperando uns com os outros, mediante trocas voluntárias de serviços e bens de consumo, o que justamente resultou na significativa melhora de vida da humanidade nos últimos 200 anos, sem precedentes na história humana.

Mesmo após Adam Smith, Locke, Bastiat, Mises e tantos outros filósofos, economistas e estudiosos descreverem a natureza humana e a realidade, o senso comum ainda ovaciona o altruísmo e ainda resiste em compreender que o egoísmo seja o padrão moral que move os indivíduos e, naturalmente, gera a prosperidade do mundo. Daí surge a importância de outras formas de transmissão de ideais aos quatro cantos da Terra. O Objetivismo, a filosofia de russo-americana Ayn Rand, cumpre o papel no sentido de desmistificar o senso comum e trazer luz à realidade sobre a natureza humana e a importância do egoísmo.

Em entrevista com o jornalista Mike Wallace, datada de 1959, Ayn Rand apresentou um breve resumo sobre sua filosofia, o Objetivismo: “Eu a chamo de Objetivismo, uma filosofia baseada na realidade objetiva. (…) Minha filosofia se baseia no conceito de que a realidade existe como um absoluto objetivo, que a mente do homem e a razão são seus meios de percebê-la e que o homem precisa de uma moralidade racional. Antes de tudo, sou a criadora de um novo código de moralidade que, até então, tinha sido considerado impossível. Uma moralidade não baseada na fé, nem em decreto arbitrário, nem na emoção, nem no místico, nem no social, mas sim na razão. Uma moralidade provada por meio da lógica, e que pode ser demonstrada verdadeira e necessária. (…) Minha moralidade defende a vida do homem como padrão de valor. E como a mente é o seu meio básico de sobrevivência, eu mantenho que, para viver na Terra, viver como ser humano, ele deve considerar a razão com um absoluto, isto é, deve adotar a razão como seu único guia de ação e viver pelo julgamento independente de sua mente. Seu propósito moral mais elevado é a realização de sua própria felicidade. Ele não deve usar a força sobre outra pessoa, e tampouco aceitar ser coagido. Cada homem deve viver como um fim em si mesmo.”[6]

Para o objetivismo, os valores supremos que regem a vida humana podem ser sintetizados na razão, propósito e a autoestima, os quais implicam virtudes como a racionalidade, independência, integridade, honestidade, justiça, produtividade e o orgulho. A conjugação desses valores e virtudes permite ao indíviduo viver uma vida plena, independente, honesta e feliz, sem prejudicar terceiros, além de proporcionar uma sociedade livre, civilizada e próspera.

Ainda na perspectiva objetivista, a razão é o meio pelo qual o homem aprende com a realidade e o mundo, e o autointeresse é a visão de que o indivíduo é um fim em si mesmo, devendo buscar a felicidade e seus objetivos por conta própria, sem se auto sacrificar para atender às exigências de terceiros, nem mesmo desejar ou exigir o sacrifício de terceiros para atingir seus interesses.

A integração da razão, autoestima e do autointeresse proporciona o egoísmo racional, conduta moral ideal de como o homem deve agir para atingir a felicidade. Na obra A Virtude do Egoísmo, Ayn Rand resumiu a ética objetivista do egoísmo: “O princípio social básico da ética objetivista é que, assim como a vida é um fim em si mesmo, assim também todo ser humano vivo é um fim em si mesmo, não o meio para os fins ou o bem-estar dos outros – e, portanto, que o homem deve viver para seu próprio proveito, não se sacrificando pelos outros, nem sacrificando os outros para si. Viver para seu próprio proveito significa que o propósito moral alto do ser humano é a realização de sua própria felicidade.”[7]

Caso a vida de um homem seja guiada pelo altruísmo em detrimento do egoísmo racional, o padrão moral (ou melhor, imoral) de vida desse indivíduo será o auto sacrifício ou o desejo de exigir o sacrifício de terceiro, para atingir seus próprios interesses.

No romance A Nascente, de Ayn Rand, o personagem Howard Roark faz um discurso brilhante em que expõe o papel do individualismo e de egoísmo racional: “Não reconheço obrigação nenhuma para com os homens exceto uma: respeitar sua liberdade, e não ter parte numa sociedade escrava.”[8]

Nesse mesmo discurso, Howard Roark expõe os efeitos destrutivos do coletivismo e do altruísmo ao longo da história: “O “bem comum” de um coletivo, de uma raça, uma classe, um estado, foi a reivindicação e a justificação de todas as tiranias já criadas. Todos os grandes horrores da história foram cometidos em nome de uma motivação altruísta. Acaso algum ato de egoísmo já se igualou à carnificina perpetrada pelos discípulos do altruísmo? A culpa está na hipocrisia dos homens ou na natureza deste princípio? Os açougueiros mais temidos foram os mais sinceros. Acreditavam na sociedade perfeita, a ser alcançada por meio da guilhotina e do pelotão de fuzilamento. Ninguém questionava o direito deles de assassinar, já que assassinavam em nome de um objetivo altruísta. Todos aceitavam que o homem deve ser sacrificado por outros homens. Os atores mudam, mas o curso da tragédia continua sendo o mesmo. Um humanitário que começa fazendo declarações de amor pela humanidade, e no final um oceano de sangue. Assim continua sendo, e continuará sendo contanto que os homens acreditem que os atos bons são os desprovidos de ego. Isso permite ao altruísta agir, e obriga suas vítimas a suportarem. Os líderes de movimentos coletivistas nada pedem para si mesmos. Mas vejam os resultados.”[9]

A grande questão ignorada pelo senso comum é que, enquanto o individualismo considera o indivíduo como uma entidade máxima digna de respeito e o egoísmo racional o padrão moral de todo ser humano, o coletivismo se utiliza do altruísmo para cultivar o sacrifício próprio ou de outrem e, consequentemente, provocar as maiores atrocidades da história da humanidade, a exemplo do nazismo, fascismo e comunismo.

Razão, liberdade, egoísmo e mercado, eis a fórmula da prosperidade das civilizações. Todos esses elementos são inerentes a todo ser humano, o que justamente diferencia o homem, um ser racional, de todas as milhões de outras espécies que habitam a Terra. Cada contribuição singela de um único indivíduo, à sua maneira, ao buscar alcançar seus interesses e sonhos, aliado com outros bilhões de sujeitos que seguem naturalmente esse mesmo processo (mesmo que não tenham conhecimento disso ou que acreditam que seguem suas vidas baseadas no altruísmo, e não no egoísmo, como de fato é), proporciona paz e qualidade de vida para a população de todo o globo terrestre.

Por sorte, o homem não consegue intervir ou destruir a razão de outro homem. No máximo, é possível um homem manipular o outro, caso este assim o permita, sendo o altruísmo e o sentimento de culpa as ferramentas mais comuns, conforme destacado pelo personagem Toohey[10] em seu discurso, também da obra A Nascente.

No entanto, os homens de segunda linha são capazes de manipular ou destruir os demais elementos inerentemente humanos, tais como a liberdade, o egoísmo e o livre mercado, por intermédio de governos autoritários, do coletivismo, da engenharia social, do planejamento central, da exaltação ao altruísmo ou da relativização de certos valores e virtudes.

O principal antídoto contra essas ameaças, contra a servidão, é a humanidade continuar perseverando e lutando em defesa da razão, da liberdade, do egoísmo e do mercado, o valor e os verdadeiros direitos humanos.

[1] HARARI, Yuval Noah. Sapiens – Uma Breve História da humanidade. 32. ed. – Porto Alegre, RS: L&PM, 2018, págs. 11/30.

[2] LOCKE, John. Segundo Tratado Sobre o Governo Civil. São Paulo, EDIPRO, 2014.

[3] BASTIAT, Frédéric. A Lei. São Paulo, Instituto Ludwig von Mises Brasil, 2010, págs. 11/12.

[4] SMITH, Adam. A Riqueza das Nações: Uma Investigação sobre a Natureza e as Causas da Riqueza das Nações.1 ed, São Paulo: Madras, 2009. p. 747.

[5] MISES, Ludwig von. As Seis Lições. 7ª ed. São Paulo: Instituto Ludwig von Mises Brasil, 2009, pág. 42.

[6] Entrevista completa disponível no YouTube: https://www.youtube.com/watch?v=lYXtw9gg4Uk&ab_channel=ObjetivismoBrasilOficial

[7] RAND, Ayn. A Virtude do Egoísmo. Traduzido por On Line Assessoria em Idiomas. Porto Alegre: Ed. Ortiz/IEE, pág. 37.

[8] RAND, Ayn Rand. A Nascente. Campinas, SP: Vide Editorial, 2019, p. 908.

[9] RAND, Ayn Rand. A Nascente. Campinas, SP: Vide Editorial, 2019, p. 905 e 906.

[10] RAND, Ayn Rand. A Nascente. Campinas, SP: Vide Editorial, 2019, p. 843/849.

*Rodrigo Paes Freitas é associado I do Instituto Líderes do Amanhã. 

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