A crise final da direita?

O mundo mudou. Há alguns anos, elites progressistas mandavam no mundo. Nos Estados Unidos, eram inabaláveis dentro dos oito anos de governo Obama; assim também o eram na Europa e na América Latina. Esquerdismos distintos, variados, muitas vezes se estranhando entre si e até mesmo disputando quem era da “esquerda verdadeira” – vide a esquerda brasileira não reconhecendo sociais democratas como esquerdistas ou até mesmo dispensando o termo para o partido Republicano dos EUA.

Mas eis que surge a reação, o outro lado da moeda que, no jogo democrático, empurrou a esquerda, ano após ano, para o buraco. Surgiram filósofos, jornalistas, economistas, até mesmo artistas e músicos, pessoas antes sem voz, mas que na internet explodiram com suas críticas acertadas e seu trato com a realidade.

De repente, após a década de dez, pareceu-nos que a esquerda deveria mudar. Ou mudava com o mundo ou era esmagada pelo mesmo. Pautas identitárias e pró-minorias não apenas não ganhavam mais eleições, como eram um veneno para quem as propagava. Minorias não vencem em democracias, coisa que deveria ser óbvia desde o fim das aristocracias no mundo, mas para a esquerda isso estava demorando para ser entendido.

Dentro dessa direita, quando já chegam ao poder, existem discursos igualmente diferentes. Uns mais conservadores, outros menos, uns mais nacionalistas, outros menos – e isso vale para vários aspectos, mas ainda assim já era alguma coisa. O multiculturalismo via um inimigo terrível e, pelo visto, perderia a batalha. O “Nacional Populismo” surgiu no Ocidente e já estava orientando o mundo. O nacionalismo renascera, mais brando e aberto, mas não deixara de ser nacionalismo.

Em conversas com alguns amigos, dizia que, nesse ritmo, talvez a esquerda identitária fosse expelida da política até 2030, ainda que com focos subsistentes aqui e ali, nos anos seguintes. Quem faria esse “expurgo” não seriam os conservadores, mas a própria esquerda. Política pode muito bem depender de ideais, mas depende muito mais do poder. Se destruir o futuro político de ideias identitárias, feministas, etc., assegurasse uma linguagem que possibilitasse às classes mais pobres escutar a esquerda novamente, podem apostar, o progressismo cor-de-rosa ficaria órfão rapidamente.

No entanto, sempre ponderava algo: isso é uma projeção, algo em potência. Sempre poderiam ocorrer coisas que colocariam esse tipo de esquerda novamente no poder. Corrupção, crises econômicas, guerras, desastres… e pelo visto, o que poderia salvar a esquerda ocorreu.

É irônico. A direita não poderia ser muito abalada por argumentos já tradicionais da esquerda. Enquadrar seu adversário como “homofóbico”, “xenofóbico” “machista”, “opressor”, “liberal”, “conservador” ou até mesmo “burguês” e “entreguista” não apenas não surte mais efeito, como elege líderes de governo. Não é a esquerda que nos matará, mas sim nós mesmos. Ao combater a ideologia, a direita caminhou para uma. Nosso espectro político caiu em um movimento existente desde o século XVIII: a religião política. Poucos direitistas sabem ver um mundo não-politizado.

E vem o Coronavírus: o ingrediente exato para essa solução caótica. Uma praga que veio do nada, atingindo a todos de surpresa. Existem vários culpados pela sua propagação: primeiro, o Partido Comunista da China, o culpado primaz. Algo que poderia ser um surto local de uma nova doença se tornou uma pandemia por causa de ameaças a médicos, prisões e até mesmo sequestros e mortes de jornalistas; segundo, a incapacidade mundial de ver uma possível ameaça, tanto pelo fato de a China ser gigantesca e ter uma epidemia em seu interior, quanto pelo mesmo país ser distante de nós, ocidentais. Não vimos o monstro chegar com a desculpa de que ele estava distante demais; terceiro, e talvez o menos importante, o multiculturalismo e sua luta contra racismos imaginários (não que o racismo seja irreal, mas banalizá-lo e usá-lo como ofensa política torna vários “racismos” meros giros retóricos) fez com que o banimento temporário de viagens para e da China fosse visto como uma discriminação odiosa – em certos lugares da Itália, políticas progressistas insistiam em “abraços contra a discriminação” em chineses… –; quarto, e o mais importante para este texto e para a política partidária no mundo: líderes ineptos da direita.

A pandemia veio como um soco inesperado: atacou a direita recém-chegada ao poder bem em suas partes baixas. Não houve defesa contra essa peste por conta do despreparo e houve despreparo por falta de conhecimento. Esse conhecimento era incerto até o início de março. Se existiam cientistas pregando o apocalipse, também existiam aqueles que falavam de surtos localizados da doença. Não se sabia muito bem como combater esse novo vírus sem medidas drásticas, algo que assusta qualquer político. Essas medidas não foram tomadas em fevereiro, então o mundo tremeu e já está começando a ruir.

Em março vem a notícia: o estudo mais amplo e confiável do Imperial College apresentou meio milhão de mortos para o Reino Unido, dois milhões para os Estados Unidos, caso nada fosse feito. Todo sistema de saúde ruiria, tudo iria abaixo. Dias depois, a notícia: Estados Unidos e Reino Unido tomariam as medidas drásticas, mas tarde demais. Nesse meio tempo, a elite política desses países se infectou: Boris Johnson, o Príncipe Charles e várias outras figuras do Senado e dos candidatos americanos, e com eles… possivelmente centenas de milhares de cidadãos comuns.

Só sendo muito imbecil para acreditar que Boris Johnson e Donald Trump estavam querendo isso, porém só sendo igualmente imbecil para não creditar a eles e sua falta de prudência o nível de contaminação existente atualmente. No caso de Trump, seu orgulho o engole: culpa os outros quando ele estava na liderança. Há uma trilha de erros que percorreu para os Estados Unidos estarem na situação onde estão. Acredito que Trump demitiria um empregado seu, caso cometesse um erro desse tipo; porém, verdade seja dita, o erro de Trump foi o erro do mundo. Não havia muito o que fazer e pensar em repetir a estratégia sul-coreana em um país com as dimensões dos Estados Unidos é apenas um atestado de incapacidade analítica.

Diferente do presidente americano, temos um que não apenas não fez muito para se precaver antes de o vírus chegar ao país, mas também incentivou seus militantes a irem a aglomerações no início de março e ainda incentiva a população a sair da quarentena. Não é o lugar de se discutir o mérito da questão aqui, mas apenas salientar o óbvio: Bolsonaro está colocando em risco a vida de dezenas de milhares de pessoas, está politizando um vírus, está criando narrativas falsas e desinformando a própria população que jurou defender em seus discursos – e sua militância está comprando isso igual a um sedento que compra água.

Não é apenas a militância comum: são seus formadores de ideias, são as bolhas que se formaram a partir de seu centro de gravidade política desde as eleições do ano retrasado. Elas existiam antes, já eram influentes, mas tomaram uma proporção e um descaramento moral inigualáveis desde o último ano.

Não apenas fomentaram a infecção da população (inclusive a de idosos, parcela considerável dos votantes e apoiadores do presidente), mas também desinformam a mesma com suas tentativas de diminuir a gravidade da situação e desencorajar as medidas contra a propagação da doença. Tudo isso sabendo, embora prefiram não falar do assunto, do rápido colapso do sistema de saúde que é gerado pelo COVID-19 – em semanas (!), sem nenhuma contenção, esse vírus destrói o sistema de saúde; com pouco mais de um mês, começa a matar quase mil pessoas por dia. Qualquer um que diminua a gravidade de um vírus dessa espécie e o compare com números de mortes por gripe comum, dengue ou mesmo assassinatos e acidentes de trânsito simplesmente não tem capacidade mental suficiente para discernir a diferença de uma maçã para uma vaca.

Esses são os fatos. Não há como negá-los sem se expor ao ridículo – e é ao ridículo que a direita está cada vez mais se movendo. Quando Olavo de Carvalho, junto com Bernardo Küster[1], afirmam que ninguém morreu por causa do coronavírus, que a preocupação global diante dessa pandemia é uma histeria e a maior fraude da História, é apenas o sinal de morte cultural e política da direita.

A direita foi jogada ao nível dos terraplanistas. Sua militância se provou mais incapaz do que a da esquerda – e lembrem-se de que esquerdistas militantes não sabem mais diferenciar homens de mulheres. Quando a realidade bater à porta, e infelizmente ela tem tudo para bater, o povo se lembrará de Küsters e Olavos; poderão se lembrar de que suas tias, avós e mães foram para as manifestações e se contaminaram, de que alguém que deu ouvidos a essas sandices contaminou a família inteira, talvez matando alguém no processo.

Essas características também existem dentro do governo Trump, mas são muito mais leves, sem o peso da direita carcomida do Brasil. Decerto esse pensamento não comanda toda a direita, basta ver certos artigos no Instituto Liberal e se constatará esse fato; também é certo que a “direita global” não é uma culpada, já que todos os países do mundo vão sofrer com essa doença e políticos de esquerda, como no México, Espanha e Itália, foram tão incompetentes quanto os de direita – mas isso é irrelevante.

Política não se faz com verdades. A Verdade existe, importa, tem sua majestade, seu domínio, mas qualquer um sabe que no jogo político ela é a mais danificada – e é evidente que depois ela volta e cobra seu preço, um preço amargo, mas ainda assim a Verdade pode ser, infelizmente, calada.

Não interessa se a direita é, ou não, a culpada, o que interessará será o discurso. Infelizmente, caso seja seguido o rumo que muitos estão adotando, a aposta mais provável é a de que perderemos essa disputa. Depois que os caixões forem enterrados, mesmo depois que as políticas sanitárias no mundo mudarem em 2020 e 2021, haverá o jogo retórico, os dedos apontados, a foto de militantes de direita caçoando da praga, vídeos de gente duvidando de sua existência… serão lembradas as falas do presidente, as carreatas encabeçadas pela direita para quebrar a quarentena.

E quem será a oposição? Onde está a oposição de agora?

Ela já está trilhando seu caminho para a vitória, uma vitória esmagadora. Quer seja por oportunismo, quer seja por mero jogo político, não interessa: os que mais estão próximos da ciência infelizmente estão na esquerda. Mesmo liberais, com suas preocupações econômicas, ainda que legítimas, se veem cada vez mais isolados com todos os países do mundo se fechando e aguardando o pior, por vezes ignorando o caos que um colapso da saúde pode trazer!

Não sei se nos recuperaremos desse estrondo; porém, algo é certo: é preciso fazer uma caça às bruxas na direita. Temos que denunciar, expor, envergonhar quem está trabalhando contra a saúde pública. Não é apenas um dever político, mas um dever moral. Que Bolsonaros, Olavos, Küsters e outros políticos e militantes que estão desgraçando a saúde nacional sejam execrados, que caiam num ostracismo só quebrado por seus guetos irrisórios.

O conservador tem que esperar pelo pior, sempre. Somos céticos políticos em nossa definição básica, não podemos crer que o funcionamento econômico temporário – sim! Extremamente temporário, pois mercado nenhum funciona com uma crise sanitária profunda em andamento – e como suposto suporte político para o presidente valha mais do que a possibilidade de salvar milhares de vidas no Brasil.

É verdade que, como uma conjectura, meu pessimismo também pode se demonstrar infundado. Tudo ainda está em potência, nada é atual, já que remédios podem trazer uma solução ao problema e fazer, aos poucos, o país andar novamente e até justificar uma ampla retomada econômica defendida pelo governo, mas isso ainda é uma possibilidade. A prudência exige uma atitude oposta a depositar fé vazia em remédios ainda não comprovados cientificamente. Porém, caso as coisas continuem nesse ritmo de insensatez, só posso afirmar: adeus, direita. Será um fim amargo, mas, diante destes fatos, lamento dizer que até que merecido.

[1] Se Bernardo não aprovou as constatações de seu guru, por que não o corrigiu no momento ou ponderou a questão em outro vídeo? Por que deixar o que possivelmente é o filósofo mais influente do país falar tamanha asneira em seu canal e ficar quieto para o fato? Por que esbravejar, xingar e desprezar alguém como Átila Iamarino, um sujeito que está fazendo um serviço público essencial ao preparar as pessoas para o pior cenário possível (e o nome disso é prudência!), mas ficar calado, subserviente diante das burrices que Olavo de Carvalho diz?

Hiago Rebello

Hiago Rebello

Graduado e Mestrando em História pela Universidade Federal Fluminense.