80 anos do Golpe que o Brasil se esquece de lamentar

O ano de 2017 marca diversas efemérides, que estão sendo comentadas aos montes, como os 100 anos da terrível Revolução Russa e os 500 anos da Reforma Protestante. No ano passado, é claro, a esquerda alardeou o que chamou de “golpe de 2016”, forma patética por que se referiram ao impeachment de Dilma Rousseff. Em […]

O ano de 2017 marca diversas efemérides, que estão sendo comentadas aos montes, como os 100 anos da terrível Revolução Russa e os 500 anos da Reforma Protestante. No ano passado, é claro, a esquerda alardeou o que chamou de “golpe de 2016”, forma patética por que se referiram ao impeachment de Dilma Rousseff. Em 2014, lembraram os 50 anos do “golpe de 64”, o movimento civil-militar que derrubou o governo de João Goulart e iniciou o que, com fortíssimos traços de exagero, a ortodoxia esquerdista da interpretação social no Brasil chama de “a terrível ditadura militar” ou “anos de chumbo” – sem que aplaudamos, fique claro, aquele regime centralizador e tecnocrata.

Certas tiranias, porém, são esquecidas, tratadas com condescendência e generosidade pelas esquerdas, em razão de conveniências retóricas. Pois neste 2017, mais particularmente no ainda algo distante mês de novembro, um golpe com G maiúsculo, que manchou a história do Brasil para sempre, completa oito décadas. Haverá os que quererão esquecer, haverá os que desconhecem; mas queremos ter certeza de que alguém se lembrará. Em 10 de novembro de 1937, Getúlio Dornelles Vargas, o maior tirano que já deteve este país sob seu tacão, aplicou um golpe de Estado às vistas da pátria e instaurou a ditadura do Estado Novo – esta sim, embora não igual, bastante similar aos nacionalismos fascistoides que, na mesma época, pululavam pela Europa.

Sete anos antes, sob os estertores da República Velha – um regime fechado de bacharéis e oligarcas que, conquanto entre eles contassem com homens patriotas e aparentemente bem-intencionados, pairava sobre um país agrário condenado a sucumbir aos apelos do tempo e ao desenvolvimento de uma sociedade civil -, mergulhou o Brasil na Revolução de 30. Mesclavam-se, entre os homens que, pelas armas, derrubaram o sistema vigente, aqueles realmente interessados no florescimento da consciência cidadã em terras brasileiras, e aqueles que se deixavam seduzir por perigosos devaneios centralizadores. A emergência das ideologias impactou o Brasil pelo intranquilo enfrentamento entre comunistas e integralistas, e, quando se aguardavam, em 37, as eleições disputadas por José Américo de Almeida, Armando de Sales Oliveira e Plínio Salgado, ele, Vargas, o gaúcho de São Borja, desde 30 no comando do que hoje rimos em ver chamado de Governo Provisório, já arquitetava a subtração cretina das esperanças democráticas. Usando da artimanha falsária do Plano Cohen, implantou-se no país o espúrio Estado de guerra e, em novembro, o fim da efêmera Constituição de 1934 e o fechamento do Congresso.

Como nunca antes e nunca depois, a liberdade e o ritual parlamentar e partidário foram demonizados e contidos. Sob a alegação da inimizade e da divisão nacional, Vargas não teve pudores em incinerar as bandeiras estaduais, desprezando as tradições cívicas de cada unidade da federação em prol de seu centralismo agressivo e autoritário, e, com a hipocrisia estridente em sua voz melosa, ecoando nisso de alguma sorte a impaciência do Positivismo e do Castilhismo, sustentou o ocaso dos partidos políticos, que, na configuração com que transparecem em sistemas republicanos mais maduros, mal existiam no Brasil.

Concebeu e implantou um regime que deveria “estar em contato direto com o povo, sobreposto às lutas partidárias de qualquer ordem, independendo da consulta de agrupamentos, partidos ou organizações, ostensiva ou disfarçadamente destinados à conquista do poder público”, como diz aquele documento infame, a Constituição de 37. Para aqueles que se horrorizam com as verbas criminosas que nossos governos empregam hoje em publicidade, Vargas criou um Departamento de Imprensa e Propaganda, associado a um poderoso aparelho repressor. Mais do que qualquer relato de prisão, tortura e censura, sobre o valor que dava aos direitos individuais, nada mais claro que as próprias palavras de Getúlio a respeito:

O Estado Novo não reconhece direitos de indivíduos contra a coletividade. Os indivíduos não têm direitos, têm deveres! Os direitos pertencem à coletividade! O Estado, sobrepondo-se à luta de interesses, garante os direitos da coletividade e faz cumprir os deveres para com ela.

Além de tudo, o varguismo estadonovista flertava com o Eixo, quando o mundo se dividia entre aqueles que perfilariam com Hitler e aqueles que desafiariam o fascismo europeu. Felizmente, e aqui fica um recado para aqueles que somente espezinham nosso país, o espírito brasileiro não abraçou de bom grado tamanho absurdo, e, de par com a persuasão econômica dos Estados Unidos, o clamor do povo nos colocou no confronto ao lado dos Aliados. O simbolismo da Força Expedicionária Brasileira tornou insustentável a pura e simples perpetuação do arbítrio em nossos próprios domínios, e o Estado Novo sucumbiu em 1945, junto com o regime nacional-socialista alemão; lamentavelmente, o ditador não foi de maneira alguma responsabilizado à altura pelo seu crime contra o desenvolvimento da sociedade brasileira. Afastado, permaneceu cultivando suas teias populistas e a máquina político-partidária que irrompeu continuou sob suas rédeas, facultando-lhe o retorno ao poder em 1950.

Depois disso, a concessão do direito ao voto às mulheres – para, logo depois, negar o direito ao voto a todos -, as leis trabalhistas da CLT e o traumático suicídio garantiram a Vargas um tratamento benevolente da memória histórica esquerdista. Nossas esquerdas perdoaram-lhe até o seu anticomunismo ferrenho, com direito a enviar Olga Benário para a morte nos campos de concentração nazistas. Nossas esquerdas demonizam os monumentos construídos pelo regime militar dos anos 60 e 70, que nem sequer perto chegou da desfaçatez com que Vargas espezinhou a democracia, mas louvam o nome de Getúlio em monumentos e avenidas.

Nós não nos esqueceremos. Não esqueceremos 1937. Se o Brasil quiser se libertar das amarras do engano e caminhar enfim pela senda da ordeira e verdadeira liberdade, precisa repudiar a mentira e se desembaraçar da ilusão; isso passa, sobremaneira, por um encontro honesto com a sua História.

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