Pelos motivos errados

COLABORADORES 28.08.08     Pelos motivos errados RODRIGO CONSTANTINO*     A julgar pela imprensa brasileira, as eleições americanas contam com um único nome. Só se escuta falar aqui de Barak Obama, de uma forma tão intensa que até parece ser um candidato para algum cargo importante no governo nacional mesmo. Desconfio que poucos saibam […]

COLABORADORES

28.08.08

 
 

Pelos motivos errados

RODRIGO CONSTANTINO*

 
 

A julgar pela imprensa brasileira, as eleições americanas contam com um único nome. Só se escuta falar aqui de Barak Obama, de uma forma tão intensa que até parece ser um candidato para algum cargo importante no governo nacional mesmo. Desconfio que poucos saibam sequer o nome de seu oponente, já que ele parece inexistente para a grande mídia local. Entendo que boa parte da empolgação com Obama se deve ao fator racial, pois finalmente há uma chance real de um negro chegar à presidência da nação mais poderosa do mundo. Entretanto, a questão que deveria ser levantada de fato é outra: Obama é um bom candidato, independente da cor de sua pele?

Aqueles que colocam a questão racial acima desta outra estão apenas dando atestado de racistas. Ora, defender um candidato apenas usando como critério a cor da pele é uma postura absolutamente racista, o espelho dos racistas que não aceitam votar em alguém pelo mesmo motivo. O ideal será quando uma característica como essa nem mesmo fizer parte dos debates, justamente porque é totalmente irrelevante para se decidir sobre a capacidade de um bom governante. Tenho dificuldade para entender a emoção de certas pessoas com coisas como “o primeiro negro presidente”, a “primeira mulher presidente” ou “o primeiro pobre presidente”. Estão focando nas características erradas. Um negro, uma mulher ou um pobre podem ser péssimos presidentes. Claro, podem ser bons presidentes também, mas eis justamente o ponto crucial: se serão bons ou ruins, isso não tem ligação alguma com características como cor, sexo ou renda.

Gostaria de perguntar para tantos brasileiros que abraçaram sem reflexão alguma a candidatura de Obama, o que eles realmente sabem do programa político do candidato. Será que compreendem que Obama é protecionista, o que é péssimo para os interesses de muitas empresas brasileiras? No fundo, a culpa pela falta de conhecimento acerca das idéias de Obama nem é tanto do público, pois o próprio candidato pouco fala de concreto sobre o que defende. No pior estilo “Lula” de ser, Obama fica apenas repetindo ad nauseam a palavra “mudança”, tentando explorar o esgotamento do atual governo perante os eleitores. Mas Obama ignora que mudança não necessariamente ocorre apenas para melhor. Crises são mudanças! O importante é explicar, com maiores detalhes: mudança para onde? O pouco que sabemos não é nada animador. Além da questão protecionista, Obama parece populista em outros aspectos, defendendo aumento de impostos para os mais ricos, como se isso não fosse prejudicial justamente para os mais pobres.

Enfim, o pouco que se sabe das políticas defendidas por Obama não permite uma defesa calorosa de sua candidatura. Não que McCain seja muito melhor, pois não é. Aliás, o culto à presidência já demonstra um vício de origem, pois enquanto tanta gente acreditar que as soluções para os males virão do meio político, através de um messias salvador, iremos apenas concentrar mais poder, o que é nefasto para a liberdade individual e, conseqüentemente, para o progresso. A sorte dos americanos é que o país ainda conta com um arcabouço institucional mais sólido, que não permite um estrago tão relevante como em outros países, incluindo o Brasil. A cultura americana, mais individualista e meritocrática, também funciona como uma proteção contra aventureiros populistas. Algum estrago sempre é possível, como vimos no caso de George W. Bush. Mas os Estados Unidos ainda não correm o risco de virar uma Venezuela por conta da eleição de um oportunista como Hugo Chávez. Na verdade, seria muito pouco provável que alguém como Chávez chegasse à presidência americana.

Barak Obama pode ser muito fraco, como de fato é, mas nada tão terrível quanto os caudilhos populistas da América Latina. Não obstante, sua candidatura tem conquistado muitos adeptos pelos motivos errados. Votar em alguém por causa da cor da pele é totalmente absurdo. Pouco importa se o presidente americano será um negro ou um branco, um homem ou uma mulher. Sei que, após tanto tempo de discriminação por causa da cor da pele, o sentimento de vingança pode acabar falando mais alto. Mas não é com racismo que se combate o racismo. Não é colocando qualquer negro na presidência que o racismo estará definitivamente enterrado. Pelo contrário: o fato de um negro ser eleito basicamente por ser negro, acaba sendo prova de que o racismo não acabou.

Todos aqueles que abominam o racismo, como é o meu caso, devem celebrar as reais chances de alguém negro ser eleito nos Estados Unidos, pois isso demonstra que a cor da pele não é mais um impeditivo ao cargo. Mas vamos esperar que o negro certo seja eleito. Não é o caso de Barak Obama. Ele parece uma escolha bem fraca, e isso não tem absolutamente ligação alguma com a cor de sua pele.

* Economista, articulista, autor de ‘UMA LUZ NA ESCURIDÃO – as idéias de grandes pensadores da humanidade’

 
 

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