Crise no STF: a exceção chegou ao espelho

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Durante anos, o “O Grande Supremo” nos pediu uma concessão moral. O Brasil vivia tempos excepcionais, a democracia corria perigo, e, portanto, seus guardiões precisavam fazer coisas excepcionais para salvá-la. Inquéritos incomuns, poderes elásticos, interpretações criativas. Tudo provisório, evidentemente. A democracia seria devolvida ao dono assim que terminasse o incêndio.

Claro que o incêndio nunca terminou. Brasília descobriu que, com algum juridiquês, uma filigrana constitucional e o inimigo adequado, é perfeitamente possível manter o extintor funcionando a gasolina. Alexandre de Moraes tornou-se a expressão máxima dessa doutrina. Cármen Lúcia, Gilmar Mendes e companhia ajudaram a lhe dar verniz moral. Não estavam simplesmente exercendo poder, mas salvando a democracia.

Sim. Quem salva a democracia, aprendemos, pode permitir-se certas extravagâncias com o Estado de Direito. Até que a exceção chegou ao espelho. A doutrina do “vale-tudo” só funciona enquanto a mira aponta para fora. Quando o canhão gira para dentro do tribunal, aquilo que ontem se chamava excepcionalidade revela seu destino mais antigo; verdadeiramente o arbítrio.

André Mendonça cometeu uma inconveniência quase subversiva para os padrões “democráticos” de Brasília. Diante de fatos graves, resolveu tratá-los como fatos graves. Não como deselegâncias entre colegas, acidentes de WhatsApp ou assuntos a serem resolvidos na chapelaria do tribunal. Fez aquilo que se espera de um juiz, ou seja, mandou apurar.

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Então, claro, começou o espetáculo. Paulo Gonet pediu a nulidade da apuração. Moraes voltou sua artilharia contra Mendonça. De repente, o grande problema parece não ser o que apareceu, mas o sujeito que teve a audácia de levantar o tapete supremo imundo. Conhecemos o truque. Foi pela porta processual que o Supremo anulou as condenações de Lula, declarando incompetente a Vara de Curitiba e mandando para o lixo anos de Lava Jato. O CEP derrotou os autos. Agora oferecem novamente ao brasileiro a velha mágica nacional. Que se discuta furiosamente o embrulho até que todos esqueçam o que havia dentro.

Isso não é preciosismo jurídico. É uma inversão moral. A Torá resolveu o assunto antes que Brasília aprendesse latim: “Justiça, justiça perseguirás”. A repetição não é pleonasmo. Ensina que os meios para buscar a justiça devem ser tão limpos quanto o fim desejado. Vale para o amigo, para o inimigo e, sobretudo, para quem julga.

Moraes deve declarar-se impedido. Inquestionável até para seus “companheiros”. Gonet não deveria ajudar a fechar a porta atrás da qual aparece seu próprio nome. Não é condenação, é higiene institucional. Durante anos, disseram que precisávamos da exceção para proteger a democracia dos seus inimigos. Funcionou tão bem que agora precisamos proteger a democracia dos donos da exceção.

Nunca fui dado a saudosismos. Quem dirige olhando pelo retrovisor costuma acabar no poste. Mas, diante do Supremo de hoje, permito-me uma exceção. Sinto uma falta danada de uma velha instituição brasileira que parece ter sido julgada inconstitucional em Brasília. A vergonha na cara.

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Alex Pipkin

Alex Pipkin

Doutor em Administração - Marketing pelo PPGA/UFRGS. Mestre em Administração - Marketing pelo PPGA/UFRGS Pós-graduado em Comércio Internacional pela FGV/RJ; em Marketing pela ESPM/SP; e em Gestão Empresarial pela PUC/RS. Bacharel em Comércio Exterior e Adm. de Empresas pela Unisinos/RS. Professor em nível de Graduação e Pós-Graduação em diversas universidades. Foi Gerente de Supply Chain da Dana para América do Sul. Foi Diretor de Supply Chain do Grupo Vipal. Conselheiro do Concex, Conselho de Comércio Exterior da FIERGS. Foi Vice-Presidente da FEDERASUL/RS. É sócio da AP Consultores Associados e atua como consultor de empresas. Autor de livros e artigos na área de gestão e negócios.

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