Porque Lula – ele mesmo! – deveria ser um liberal
Existe uma ironia quase literária na política brasileira – dessas que fariam Alexis de Tocqueville sorrir amarelo e Roger Scruton levantar uma sobrancelha britânica de desaprovação. Luiz Inácio Lula da Silva (sim, o mais improvável dentre os mais improváveis) talvez seja um dos maiores exemplos de como os valores liberais de uma nação podem proporcionar crescimento ao individuo. Tal paradoxo seria cômico se não fosse trágico, já que, como bem sabemos, Luiz Inácio passou a vida inteira combatendo (e em boa parte de seus mandatos tolhendo) justamente os valores que tornaram sua própria ascensão possível. A esquerda brasileira fez de Lula um bastião da luta contra o capitalismo. Sua biografia, porém, revela uma história muito diferente.
A trajetória do retirante nordestino que se torna operário, líder sindical, opção politica e finalmente presidente da República não é uma refutação do liberalismo. É, na verdade, uma demonstração prática – ainda que involuntária, sejamos francos – de sua eficácia histórica.
Pensemos friamente. Se Lula tivesse crescido na Cuba de Fidel Castro, dificilmente teria se tornado um líder sindical independente. Primeiro, pelo obvio: não há muitas fábricas, metalúrgicas ou
grandes montadoras nas cercanias de Havana (nem comida tem direito)! Mas, sobretudo, porque, em regimes socialistas reais, sindicatos não pertencem aos trabalhadores; pertencem ao Estado. O sindicalismo livre – o mesmo que projetou Lula nacionalmente – é uma criação típica das democracias liberais.
Na União Soviética, um “Lula” provavelmente teria terminado absorvido pela máquina do partido, senão neutralizado por ela. Na Venezuela chavista, na melhor das hipóteses, seria reduzido a um agitador domesticado pelos bolivarianos. Mas Lula nasceu no industrializante Brasil do século XX – um país caótico, desigual, contraditório e imperfeito, sem dúvida, mas suficientemente livre para permitir que um torneiro mecânico enfrentasse elites econômicas, mobilizasse trabalhadores, fundasse um partido político e chegasse ao Palácio do Planalto pelo voto popular. Isso não é teoria marxista… É democracia liberal funcionando (para bem ou para mal).
Foi o capitalismo industrial paulista – tão demonizado por setores da esquerda universitária – que criou o ambiente econômico capaz de produzir o fenômeno Lula. Sem os milhares de empregos gerados por montadoras do porte de Volkswagen, Ford, Mercedes-Benz, Scania e todo o parque industrial do ABC paulista, Lula provavelmente seria apenas mais um anônimo entre milhões de brasileiros pobres do século passado. O próprio “novo sindicalismo” nasceu não da escassez socialista, mas da prosperidade industrial capitalista. É ou não é uma ironia deliciosa? O capitalismo liberal gerou uma classe operária suficientemente organizada, alfabetizada e economicamente estável para financiar o sindicalismo que, vejam só, passaria a atacá-lo.
Em Ação Humana, Mises mostrou que o capitalismo produz riqueza também para seus adversários. O lulismo talvez seja uma das maiores provas brasileiras disso. Há ainda outra contradição que poucos observam. A vida de Lula é uma afronta direta ao determinismo marxista. Segundo a teorias marxista e a esquerda em geral, o indivíduo nasce/vive/morre aprisionado pelas estruturas econômicas e sociais de sua classe. Lula rompeu praticamente todas elas!
Filho de retirantes pobres. Sem diploma universitário. Operário metalúrgico. Acidentou-se numa fábrica. Tornou-se liderança nacional. Chegou à presidência da República. Esteve no centro do debate político por décadas. Ora, isso não parece exatamente a história de alguém esmagado irremediavelmente pelas “estruturas opressoras” do capitalismo liberal. Ao contrário: parece um exemplo clássico de mobilidade social dentro de uma sociedade relativamente aberta.
Mas talvez a maior evidência de que Lula compreende – ainda que intuitivamente – e faz uso da força do liberalismo esteja justamente nos momentos em que governou de forma menos ideológica. A famosa “Carta ao Povo Brasileiro” de 2002 foi praticamente uma confissão econômica. Ali, Lula sinalizou ao mercado que respeitaria contratos, responsabilidade fiscal e estabilidade monetária. Em outras palavras: prometeu não destruir os fundamentos mínimos da economia liberal brasileira.
E funcionou! Ele não apenas venceu as eleições de 2002, como os primeiros anos de seu governo foram marcados por pragmatismo econômico, fortalecimento do agronegócio, expansão do crédito, consumo de massas e relativa previsibilidade institucional. O “Lula pragmático” venceu. Já o lulopetismo mais ideológico – intervencionista, estatizante e seduzido por fantasias bolivarianas – acabaria produzindo, anos depois, uma devastação econômica e institucional cujos efeitos o país ainda tenta superar. A realidade, essa velha senhora brutalmente antipática às utopias esquerdistas, obrigou Lula a governar mais próximo de Adam Smith do que de Karl Marx.
Existe, contudo, uma camada ainda mais profunda nessa discussão: a questão moral. O Lula real foi moldado por um Brasil profundamente conservador. Família, trabalho duro, religiosidade popular, disciplina em comunidade, ética do esforço, desprezo pela bandidagem, masculinidade bruta e progresso pelo próprio mérito – todos esses são elementos presentes em sua formação. Em muitos aspectos, o jovem Lula do ABC paulista possuiria muito mais afinidade antropológica com o trabalhador conservador médio do que com o progressista identitário de DCE – que domina grande parte da esquerda acadêmica contemporânea.
Para Russell Kirk, a ordem social nasce das pequenas virtudes preservadas pelas famílias, comunidades, tradições da vida ordinária. Lula nasceu exatamente dentro desse universo moral: o Brasil das mães sacrificadas, dos trabalhadores exaustos, das marmitas de alumínio, da fé pura e simples e da esperança construída no cotidiano. A tragédia intelectual do lulismo talvez esteja justamente aí. Lula passou décadas denunciando o mesmo sistema que lhe deu voz, palco, riqueza, influência, liberdade e poder político (vou me permitir cooperar com sua sanidade, caro
leitor, e poupá-lo de relembrar os incontáveis escândalos de corrupção associados ao sujeito). Porque, no final das contas, sua história não é a prova do fracasso da democracia (minimamente) liberal brasileira… É propaganda involuntária!
Este sistema é imperfeito? Certamente. Injusto em muitos aspectos? Sem dúvida. Mas, ainda assim, suficientemente aberto para permitir que um retirante nordestino chegasse ao topo da República sem ele mesmo disparar um único tiro, sem liderar uma revolução armada e sem destruir completamente as instituições nacionais no processo – os absurdos que vêm ocorrendo no atual mandato são outros quinhentos!
O socialismo utópico prometeu criar milhões de Lulas. O liberalismo tupiniquim, com seus vícios e virtudes, permitiu a ascensão de um – e isso já mudou profundamente a história do Brasil!
*Marlon Reguelin é empreendedor.



