A tradição finlandesa da liberdade
Em tempos turbulentos, os países nórdicos, especialmente a Finlândia, destacam-se como exemplos de liberdade, prosperidade e estabilidade. Considere a Finlândia, que eu, como islandês, há muito admiro à distância. Lá, os tribunais costumam ser decorados com reproduções de uma famosa pintura de Albert Edelfelt. Ela retrata uma cena do poema épico de Johan Ludvig Runeberg, The Songs of Ensign Stål, ambientado durante a guerra de 1808–1809 entre a Rússia e o Reino da Suécia, que na época incluía a Finlândia. O comandante das forças russas vitoriosas, o conde von Buxhoeveden, exige que um governador local na Finlândia, Olof Wibelius, confisque os bens de oficiais suecos que se recusam a obedecer. O governador, com a mão sobre o livro de leis sueco-finlandês de 1734, recusa-se a fazê-lo, pois isso violaria a lei. Por fim, o general russo cede. Embora o poeta e o pintor tenham tomado algumas liberdades em relação ao que de fato ocorreu (o general russo e o governador finlandês corresponderam-se, mas não se encontraram pessoalmente), a cena ilustra a forte tradição de liberdade sob a lei, comum a todos os países nórdicos. Essa tradição já havia sido articulada em 1765 pelo pastor finlandês Anders Chydenius em vários panfletos notáveis, antecipando tanto Adam Smith sobre a liberdade econômica quanto John Stuart Mill sobre a liberdade de imprensa.
Finlândia, pioneira da democracia
Embora a Finlândia estivesse sob domínio russo após 1809, como um Grão-Ducado do Czar, ela permaneceu um país nórdico, cultivando sua herança comum com a Suécia. Inicialmente, o Czar permitiu que mantivesse suas leis, suas duas línguas — finlandês e sueco — e sua Dieta dos Quatro Estados, composta pela nobreza, clero, burgueses e camponeses. No fim do século XIX, porém, o Czar iniciou uma campanha de russificação. Ele foi forçado a recuar após a derrota russa na guerra de 1904–1905 contra o Japão, e, em 1905, o líder da resistência passiva à russificação, Leo Mechelin, tornou-se primeiro-ministro. Como professor de Direito na Universidade de Helsinki, Mechelin havia argumentado que a Finlândia era um Estado separado e não uma província russa com status especial. Como primeiro-ministro, ele introduziu o sufrágio universal, limitado apenas pela idade e não pelo sexo ou pela renda. De fato, a Finlândia foi o primeiro país europeu a estender o direito de voto às mulheres.
Quatro guerras contra o totalitarismo
No final de 1917, após a Revolução Bolchevique na Rússia, a Finlândia declarou sua independência. Uma constituição liberal, redigida pelo acadêmico conservador-liberal Kaarlo Ståhlberg, foi adotada, e Ståhlberg tornou-se o primeiro presidente do país. Posteriormente, porém, a Finlândia teve de se defender quatro vezes contra os totalitários: primeiro contra uma rebelião socialista em 1918; depois contra a Rússia em 1939–1940 (a Guerra de Inverno); em 1941–1944 (a Guerra de Continuação); e, por fim, contra a Alemanha nazista em 1944 (a Guerra da Lapônia). Em todas as quatro guerras, as forças militares finlandesas foram habilmente lideradas pelo barão Carl Gustaf Mannerheim, que se tornou justamente um herói nacional. Em sua última Ordem do Dia na Guerra de Inverno, em 14 de março de 1940, Mannerheim declarou que os finlandeses tinham orgulho de ter defendido a civilização ocidental. Referindo-se a um poema de Zacharias Topelius sobre a dívida que os finlandeses tinham com a cultura sueca, ele acrescentou que agora haviam pago essa dívida integralmente.
Um posto avançado da civilização ocidental
A ideia da Finlândia como um posto avançado da civilização ocidental também foi expressa em um conhecido poema de Uuno Kailas:
A fronteira se abre como um abismo.
Diante de mim, a Ásia, o Oriente,
Atrás de mim, a Europa, o Ocidente,
que eu, o sentinela, guardo.
Mannerheim personificava duas características típicas dos finlandeses: a coragem de lutar quando inevitável e a disposição de fazer concessões quando necessário. Ele precisou da primeira característica em sua atuação heroica na Guerra de Inverno, quando os finlandeses prestaram aos outros países nórdicos o mesmo serviço que os britânicos prestaram à Europa na Segunda Guerra Mundial, ao enfrentar o totalitarismo. Mais tarde, Mannerheim foi presidente da Finlândia entre 1944 e 1946, quando o país, em uma situação precária, precisava justamente da segunda característica: a disposição para fazer concessões. Mannerheim não era um acadêmico, mas, curiosamente, em suas memórias, ele invocou o exemplo da Suíça como um país bem governado, sobretudo, eu sugeriria, porque os suíços lidaram com sucesso com o mesmo problema dos finlandeses: o fato de a nação falar mais de um idioma. Mas, nos 108 anos desde sua independência, os finlandeses demonstraram amplamente que são uma nação nórdica.
*Hannes Gissurarson é professor emérito de ciência política na Universidade da Islândia e comentarista frequente sobre assuntos atuais na mídia islandesa. Autor de diversas obras, é membro da Sociedade Mont Pèlerin.



