O custo de se posicionar publicamente
Posicionar-se sempre teve preço, mas o nosso tempo aperfeiçoou a velocidade da cobrança. Hoje uma opinião mal termina de ser dita e já encontra plateia, recorte, reação e sentença pronta. A palavra pública se tornou uma espécie de mercadoria emocional: circula rápido, inflama rápido, condena rápido. O problema, porém, não é apenas que falar custa caro; é que o medo da reação começa a reorganizar a própria vida pública. Não surpreende, portanto, que tanta gente prefira o silêncio prudente, essa forma de autoproteção que às vezes é sabedoria e, outras vezes, apenas medo administrado.
Essa distinção importa. Prudência não é covardia; e coragem não é imprudência. Há situações em que calar é sinal de maturidade, porque nem toda opinião precisa ser transformada em espetáculo. Mas há também um silêncio que não nasce do discernimento, e sim do receio de ser punido, mal interpretado ou reduzido a caricatura. Em ambientes profissionais, universidades, redes sociais e até círculos de amizade, muita gente mede hoje menos o que pensa e mais o custo de parecer pensar.
No entanto, calar também custa. Quem se omite para preservar tudo corre o risco de perder algo mais íntimo: a própria inteireza. Não falo aqui da necessidade de comentar tudo, opinar sobre tudo ou fazer do posicionamento uma compulsão. Isso seria apenas ruído. Falo da dificuldade crescente de sustentar convicções em público sem ser imediatamente empurrado para caricaturas. Quando convicções são convertidas em caricaturas, o debate empobrece: a divergência deixa de ser vista como diferença legítima e passa a ser tratada como suspeita moral.
O Brasil de hoje, tão falante e tão suscetível, muitas vezes exige que se escolha entre a conveniência e a franqueza. É nesse ponto que a noção de coragem responsável se torna útil. Posicionar-se não é falar qualquer coisa; é sustentar em público aquilo que foi pensado com medida, contexto e consequência. Exige discernimento, responsabilidade e alguma disposição para arcar com o desconforto de não ser imediatamente aplaudido. A palavra pública não deve ser covarde, mas também não precisa ser infantil.
Ainda assim, prefiro uma vida pública em que haja risco de fala a uma em que o cálculo silencioso vire regra de convivência. Uma sociedade livre não depende apenas do direito formal de se expressar, mas da existência de pessoas dispostas a usar esse direito com responsabilidade. Quem fala pode perder alguma coisa; quem nunca fala, às vezes perde a si mesmo. E essa, convenhamos, costuma ser uma perda mais alta.
*Deyvid Correa é advogado. Especialista em Direito Societário e Planejamento Patrimonial e Sucessório pela FGV/SP, com imersões internacionais focadas em proteção e planejamento patrimonial e sucessório. Associado do IFL-BH.



