“Escola Woke”: um dossiê imprescindível

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Lançado pelo Instituto Livre pra Escolher, com apoio do Instituto Liberal, o livro Escola Woke: como o método Paulo Freire foi retrofitado para os dias de hoje, de autoria da professora Anamaria Camargo, é uma denúncia poderosa da engenharia internacional por detrás da apropriação ideológica da educação. Trabalhando extensamente sobre documentos oficiais e casos concretos, a obra é uma das mais importantes dos últimos tempos, procurando demonstrar, conforme resume a PhD em Educação Nine Borges na quarta capa, que existe “uma aliança entre o Estado brasileiro e organizações nacionais e internacionais, a qual instrumentaliza a educação para fins políticos aliciando e recrutando ativistas desde a infância”.

Com prefácio de Arthur Pinheiro Machado, a obra de Anamaria tem o objetivo de orientar o leitor em geral, mas particularmente os genitores, a “entender como o wokismo, explícito nas políticas públicas para a Educação no Brasil, pode impactar o ensino nas escolas públicas e privadas, desde a Educação Infantil até o Ensino Médio; identificar e reagir à insidiosa presença do wokismo nos contextos cotidianos em que a educação escolar dos seus filhos está incluída” e “incentivar mudanças que permitam escolhas realmente livres”. Camuflando-se pela distorção do significado de termos conhecidos, corrompidos sem que a maioria das pessoas se desse conta, aquilo que se chama de “wokismo” tem um poder de penetração maior nas escolas do que o Marxismo tradicional, tornando-se um problema mais pronunciado na contemporaneidade.

A premissa do livro, exposta já na introdução, dá conta de que o wokismo é “a seita baseada na crença de que todas as relações sociais e tudo o que a sociedade produz resultam da ação, consciente ou não, de grupos que desejam manter os sistemas de poder que os beneficiam, às custas de grupos oprimidos, marginalizados”. Entre tais sistemas de poder, incluir-se-iam o “racismo estrutural”, a homofobia ou a opressão feminina. Quanto mais aspectos descritivos de uma pessoa – sua etnia, seu gênero, sua orientação sexual, sua religião, seu peso – forem considerados oprimidos por um desses ditos sistemas de poder, mais essa pessoa será vista como vítima, cabendo àqueles que estão “despertos” para essa grande verdade da opressão generalizada a missão de “transformar a sociedade ocidental, fundada em valores judaico-cristãos, em uma sociedade fundada na justiça social”, emancipada dessas opressões. Isso justificaria, como bem ilustra Anamaria, intimidar e impor uma condição subalterna a alunos que estariam enquadrados nas categorias ditas “opressoras”, como que a constrangê-los à autodepreciação.

A definição do wokismo como uma seita, compartilhada por Anamaria com outros autores, é uma das ideias mais interessantes do trabalho. A autora lembra que essa linha de pensamento tem características religiosas, como o culto a gurus carismáticos e a promessa de estar apresentando uma grande verdade secreta que apenas os “iluminados” apreenderiam – nesse caso, não por meio de um líder espiritual ou uma fraternidade de seres místicos, mas por uma suposta “consciência crítica”. Também compara as táticas de recrutamento dos jovens para esses movimentos wokes ou identitários às táticas de seitas místicas propriamente ditas, incluindo a exortação ao isolamento do resto da sociedade, o acolhimento e os ritos de passagem, seguidos de ameaças de que talvez o recrutado não esteja à altura do grupo, para garantir sua fidelização.

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No capítulo “Aprendizagem socioemocional – A teoria pedagógica da Escola Woke, Anamaria explica que o que se chama de “aprendizagem socioemocional” conquista aceitação como política educacional porque qualquer pai ou mãe desejará que seus filhos desenvolvam competências socioemocionais. Contudo, isso faz dos programas voltados a essa área um disfarce perfeito para a inoculação do vírus woke. Um dos principais responsáveis por isso, conforme demonstra Anamaria, tendo tomado de assalto as recomendações de documentos oficiais da burocracia educacional brasileira e mesmo as escolas norte-americanas, é o Casel, organização não-governamental fundada por líderes ligados à Teosofia – corrente esotérica desenvolvida pela russa Helena Blavatsky (1831-1891). Entre as lideranças mais recentes dessa instituição, conectadas diretamente à Organização das Nações Unidas, está Linda Darling-Hammond, muito influente nas políticas educacionais do governo Obama nos EUA, que expressamente utiliza o pensador marxista brasileiro Paulo Freire (1921-1997) como referência intelectual para o processo de Aprendizagem socioemocional. Essa genealogia das ideias exposta com riqueza de detalhes por Anamaria revela como as abordagens preconizadas pelo Casel visam a “preparar” os alunos para protagonizarem a transformação completa dos “sistemas de poder”, de maneira análoga àquela pela qual Freire queria, no fundo – ou nem tão fundo assim -, uma “pedagogia crítica” que projetasse os estudantes para desafiarem os limites do “sistema capitalista”. Sob as diretrizes do Casel, todos os planos de aula nas escolas devem contemplar a orientação das perspectivas críticas que fundamentam a teoria woke, como a Teoria Crítica da Raça, a Teoria de Gênero, a Teoria Queer, a Teoria pós-colonial ou os Estudos de Gordura, “capacitando” as crianças e jovens para destruir o mundo em que vivem e criar um mundo de “justiça social”.

No capítulo “Método Paulo Freire Transformativo: a prática pedagógica da Escola Woke”, Anamaria se concentra na obra de Paulo Freire, mostrando como, apesar de ele não ter pretendido exatamente, em sua época, desfraldar a bandeira do wokismo, sua metodologia e suas ideias foram convenientemente apropriadas pelos defensores dessa agenda no Brasil e no exterior. Conforme procura demonstrar a autora, o Método Paulo Freire não é um método de alfabetização, mas “a organização em etapas de um processo de aliciamento e doutrinação que tem por objetivo a conscientização do estudante, de modo que ele passe a entender que o capitalismo e as instituições que reproduzem essa ideologia – a educação e a família, por exemplo – mantêm o poder dos opressores e impedem os oprimidos de se reconhecerem como criadores de si mesmos e da sociedade”.

O que wokes como os integrantes do Casel tiveram que fazer para consolidar seu projeto foi basicamente adaptar essa estrutura freiriana a questões não-exclusivamente econômicas. O capítulo explicita o problema com uma análise de documentos sobre Aprendizagem Socioemocional do próprio Ministério da Educação brasileiro, contemplando as teses preconizadas por esses grupos. Essa compilação se aprofunda no capítulo seguinte, “O manual do MEC para a efetivação da Escola Woke, em que Anamaria destaca trechos do Manual de implementação escolar – estratégia de desenvolvimento socioemocional divulgado pelo órgão, mostrando, sem margem para dúvida, sua complementaridade com os documentos do Casel e com o pensamento de Paulo Freire.

O capítulo “Formando professores para a Escola Woke documenta a presença do wokismo e da Aprendizagem Socioemocional nos textos orientadores da formação de pedagogos nos EUA e, principalmente, no Brasil. “A violência na Escola Woke, por sua vez, mostra como a ideologia woke contribui para “normalizar” a prática da indisciplina e até da violência nas escolas, compreendendo-as como resultados de reações aos sistemas de poder que se pretende demolir. “O globalismo e a Escola Woke destaca a influência do teórico crítico Herbert Marcuse (1898-1979) sobre a ideologia woke e oferece um oportuno arremate histórico, traçando uma síntese da trajetória de desenvolvimento do problema que o livro se propõe a diagnosticar. O último capítulo, “Entender para questionar a Escola Woke, elenca trechos de mais documentos do Ministério da Educação, argumentando, porém, através de perguntas, que atestam a vacuidade das citações e o quanto elas servem à pretensão de infiltrar agendas no ensino.

Cumprimento efusivamente a professora Anamaria Camargo por essa contribuição gigantesca que prestou ao país com a publicação de sua obra. É clichê dizer que as crianças encarnam o futuro de nossa sociedade, mas nem por isso menos verdadeiro. Em vez de libertá-las dos “sistemas de poder”, como querem aqueles denunciados pela autora, devemos libertá-las dos pregadores do ódio, do ressentimento, da inveja e da destruição. Escola Woke: como o método Paulo Freire foi retrofitado para os dias de hoje deverá constituir ferramenta imprescindível para esse objetivo.

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Lucas Berlanza

Lucas Berlanza

Jornalista formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), colunista e presidente do Instituto Liberal, conselheiro de diversas organizações liberais brasileiras, membro refundador da Sociedade Tocqueville, sócio honorário do Instituto Libercracia, fundador e ex-editor do site Boletim da Liberdade e autor, co-autor e/ou organizador de 11 livros.

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