O bocejo diante do abismo

Print Friendly, PDF & Email

Todo o Brasil sabe o que eles fizeram no verão passado, e não foi metáfora. Foi à luz do dia, com agendas, vinhos, viagens e conveniências.

Relações que antes exigiam o abrigo das sombras passaram a frequentar os salões sem qualquer vestígio de pudor. O que antes demandava recato agora ostenta naturalidade, e o espanto, desgastado pela repetição, cedeu lugar a uma aceitação cínica. O Supremo, que deveria ser a sentinela da Constituição, tornou-se endereço, um balcão de negócios com pretensão de tribunal. Não houve um golpe de mestre; houve de fato um golpe de hábito.

Estamos diante de uma espécie de usucapião institucional: ocupa-se, permanece-se, e o silêncio consolida. Quando o inaceitável deixa de ser contestado, ele ganha forma e legitimidade. O fato deixou de importar; importa quem permanece de pé após a poeira baixar. E sistematicamente todos permanecem.

Deseja receber nossos conteúdos por e-mail?

* indica obrigatório

O que sustenta esse arranjo não é o Direito, mas o acolchoado do corporativismo. É a lógica de um sistema fechado, que, diante do risco, não se corrige, apenas se protege. Ajustam-se narrativas e preserva-se o banquete, porque o que importa é quem permanece à mesa quando as luzes se apagam.

Até que o custo sobe. Entra em cena, então, o movimento mais previsível da nossa história; a assepsia performática. O “salvador da democracia” de ontem ensaia, subitamente, distância, não dos fatos, mas das consequências. Ele descobre que é prudente lavar as mãos em público. Não há ruptura real, apenas um reposicionamento estratégico que tenta apagar convivências com notas oficiais, como se o país não tivesse olhos.

Mas o Brasil tem memória visual. Viu as proximidades, os silêncios cúmplices, a liturgia convertida em fantasia de luxo para esconder apetites brutos. O que há de novo nessa paralisia não é o desconhecimento, mas a fadiga moral.

O brasileiro não ignora; ele boceja diante do abismo. Nossa tragédia é o cansaço que transformou o absurdo em mobília, acostumando o olhar à deformidade até que ela parecesse design. Essa tolerância morna permite que tudo continue exatamente como está, com a elegância artificial dos discursos mascarando a crueza dos fatos, que já não se dão ao trabalho de se esconder.

A mudança ocorreu pelo avesso, o escândalo foi domesticado e promovido a engrenagem. Essa se transformou em regra.

Faça uma doação para o Instituto Liberal. Realize um PIX com o valor que desejar. Você poderá copiar a chave PIX ou escanear o QR Code abaixo:

Copie a chave PIX do IL:

28.014.876/0001-06

Escaneie o QR Code abaixo:

Alex Pipkin

Alex Pipkin

Doutor em Administração - Marketing pelo PPGA/UFRGS. Mestre em Administração - Marketing pelo PPGA/UFRGS Pós-graduado em Comércio Internacional pela FGV/RJ; em Marketing pela ESPM/SP; e em Gestão Empresarial pela PUC/RS. Bacharel em Comércio Exterior e Adm. de Empresas pela Unisinos/RS. Professor em nível de Graduação e Pós-Graduação em diversas universidades. Foi Gerente de Supply Chain da Dana para América do Sul. Foi Diretor de Supply Chain do Grupo Vipal. Conselheiro do Concex, Conselho de Comércio Exterior da FIERGS. Foi Vice-Presidente da FEDERASUL/RS. É sócio da AP Consultores Associados e atua como consultor de empresas. Autor de livros e artigos na área de gestão e negócios.

Deixe uma resposta

Pular para o conteúdo